sexta-feira, 25 de abril de 2014

A Poesia Está na Rua: 25 de Abril de 1974

A Poesia Está na Rua, 25 de Abril de 1974, Cartaz Vieira da Silva
Concorri uma única vez a um prémio literário - a falar a verdade, nem sequer fui eu que concorri. Um amigo meu devia andar apaixonado pela sua professora de Português, pois outra razão não encontrei até hoje para me chegar um dia com um pedido inusitado e urgentíssimo. Queria um poema sobre o 25 de Abril para daí a duas horas, que era pouco mais que o tempo que faltava para o prazo de inscrição. Em meia hora fiz um rascunho, em verso livre, que não supunha que se pudessem escrever poemas sobre o 25 de Abril que não fossem em verso livre, mostrei-lhe, e perguntei-lhe se algo do género daquilo o satisfazia. Arrancou-me as folhas (eram duas folhas A5, três páginas) da mão dizendo que estava bom demais, que ele jamais escreveria qualquer coisa melhor que aquilo, e mesmo aquilo era já bom demais. A professora não era burra e ia desconfiar, e como tinha que ser a professora a indicar o poema para o concurso... Protestei, mas não me devolveu as folhas. Ainda tenho que escrever isto tudo com a minha letra - não tinhas nada mais pequeno? Para minha desilusão ganhou o primeiro prémio um soneto, em segundo lugar ficaram umas quadras com a métrica quase certa, e o meu poema livre conseguiu apenas o terceiro lugar. A professora disse-me que o meu poema era o melhor, mas... disse-me o meu amigo. Suponho que o desiludido mas não tivesse nada que ver com Literatura. Após este episódio, o meu amigo, que nunca lera nada, tornou-se um leitor compulsivo. Foi ele quem primeiramente leu o meu exemplar de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, aparição e manhã submersa depois de mim, O Ano da Morte de Ricardo Reis quando eu ia a meio e comecei a ler o Evangelho que ele me devolvera, O Memorial do Convento; sei que ainda lhe emprestei muitos outros, mas já não me recordo quais. No dia em que nos despedimos - sabíamos que provavelmente nunca mais nos voltaríamos a ver - veio ter comigo, meio envergonhado, com um exemplar de O Principezinho todo rabiscado. Era o único livro que tinha, mas queria que eu ficasse com ele. Não lho quis aceitar, mas ele nem sequer colocou essa hipótese. Guardo o livro com muito carinho.

2 comentários :

  1. Respostas
    1. Também julgo - e apeteceu-me partilhá-la. Já me tinha referido a este amigo no post sobre "O Principezinho".

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