sábado, 29 de março de 2014

É próprio do mesmo homem saber compor a comédia e a tragédia?

Comédia, Tragédia, Máscaras


Quando O Banquete, de Platão, se aproxima do fim, todos foram para casa ou cozem a bebedeira, excepto Agatão, Atistófanes e Sócrates, que conseguiam beber mais que toda a Atenas. Os três sobreviventes passam uma enorme taça de vinho e continuam a beber enquanto Sócrates defende que um mesmo homem deveria poder escrever comédia e tragédia. Vencidos pelo vinho e pelo argumento do sábio, Aristófanes, primeiro, e depois Agatão, adormecem. Sócrates aconchega-lhes a roupa e sai caminhando até ao amanhecer. 

Harold Bloom, Frontispício sobre William Shakespeare, em Génio.

Agatão levantou-se para se aproximar de Sócrates, mas eis que um grande grupo de foliões chegou junto às portas, que alguém, ao sair, deixara abertas; entraram e foram instalar-se no meio dos convivas; foi uma balbúrdia e foi-se obrigado a beber, sem regra, grandes quantidades de vinho. Erixímaco, Fedro e alguns outros retiraram-se, segundo Aristodemo, que entretanto adormeceu, e por muito tempo, dado que as noites são longas nesta estação; acordou de dia e os galos já cantavam; notou imediatamente que toda a gente tinha ido embora ou adormecido, excepto Agatão, Aristófanes e Sócrates, que, bem acordado, bebiam por uma grande taça que passavam da esquerda para a direita.
E Sócrates continuava a falar com os outros dois. Quanto a este discurso, Aristodemo confessava não se recordar - o princípio tinha-lhe escapado, visto que adormecera -, mas, ponto capital, Sócrates obrigara-os a admitir que é próprio do mesmo homem saber compor a comédia e a tragédia e que a mesma arte aplica-se a uma e a outra. Depois de terem concordado, sem seguirem bem o raciocínio, já dormitavam. Aristófanes foi o primeiro a adormecer; em seguida, quando o dia rompeu completamente, Agatão. Então, Sócrates, que os tinha assim imobilizado, levantou-se e saiu; Aristodemo seguiu-o, como de costume; dirigiu-se ao Liceu, tomou um banho e passou o resto do dia nas suas actividades habituais; após o que, ao anoitecer, foi descansar para casa.

Platão, em O Banquete.

Sem querer troçar, parece até que Platão insiste na sua contenda com os poetas. Podemos inferir como teria reagido perante Shakespeare, cuja amplitude artística lhe teria valido o exílio imediato da República. Dado que Shakespeare é o único capaz de enfrentar o desafio de Sócrates, poderia ser útil conjecturar como e porque é que o autor de Como Vos Aprouver se converteu no autor de Macbeth. Sir John Falstaff e Iago não têm o menor ar de família, não há um vínculo claro entre Shylock e Hamlet. Nem sequer Feste, o bobo supremo, e o bobo de O Rei Lear têm algo em comum tirando a sua profissão.
Shakespeare não foi um grande dramaturgo trágico até escrever Hamlet, na viragem do século XVII. E Hamlet abriu caminho para a sequência de Otelo, O Rei Lear, Macbeth, António e Cleópatra, e Coriolano. Das primeiras tragédias, Titus Andronicus é uma imitação e uma farsa sangrenta, uma paródia, na realidade. Romeu e Julieta é uma composição lírica soberba, mas é uma tragédia de circunstância; não há nada na personalidade de Julieta que leve à catástrofe. O doutor Johnson achava que Júlio César era uma peça fria e eu concordo; a tragédia bem elaborada de Bruto não nos comove, porque é um homem vazio, apanhado no solipsismo da sua própria nobreza. Shakespeare teve de aprender a tragédia e só o conseguiu pela quarta vez. Não era um autor de tragédia inato, ou inevitável, e pagou um preço interior muito alto pela sua descida aos abismos de Iago, Edmundo, Macbeth.

Harold Bloom, Frontispício sobre William Shakespeare, em Génio.

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