quinta-feira, 6 de março de 2014

ansiedade, de Joaquim Paço d'Arcos

Joaquim Paço d'Arcos, ansiedade
O tempo decorreu. Carlos obteve de-facto os lugares; é director dos Cimentos, da fábrica de Conservas, e já está no Conselho Fiscal do Banco. Êle é que viu longe. Quando casou vivia da mesada paterna. Não era pequena, seis contos, mas a-pesar-disso, viver sempre na subordinação do pai... A independência actual trouxe-lhe plena ventura. Tem consciência do lugar que ocupa na sociedade, e a dignidade das funções que exerce.
- Eu é que quis sempre que nós nos déssemos com o Costa Vidal. Eu é que tive de teimar contigo.
Pequenu sorri, quási com ironia. Despreza-o profundamente. E até anda a ver se lhe arranja uma amiga para que êle a deixe sossegada. Tem vontade de perguntar ao marido se sabe que ela o atraiçôa, que o atraiçoou sempre, desde os primeiros meses de casada, primeiro com o Rui, que o marido tomava por modêlo de elegância de aitudes, de frases, de tudo, agora com êste, que podia ser pai dela, que lhe dá as gorgetas, a êle, e perante quem êle vive curvado, numa subserviência reles. Tem vontade de lho perguntar, pois que antes o preferia cínico do que parvo, mas não quere quebrar o equilíbrio que estabeleceram, recalca a raiva, o desprêzo, e mantém indefinidamente a comédia em que assentou a vida, porque, para poder guardar o lugar principesco que ocupa na sociedade tão ciosa das aparências, tudo à sua volta exige que ela a mantenha. (pp. 67-68)

- Então que tal se vai dando por cá?
A pergunta singela deu a Ildefonso oportunidade esplêndida para pintar a côres sombrias o quadro do Portugal contemporâneo, da sociedade corrompida em que viera tombar. Não receou molestar o interlocutor, figura espécimen dessa sociedade. As verdades não se escondem; nem por lisonja. As verdades proclamam-se. E a verdade de que êle era portador era uma verdade amarga, recolhida, nos velhos tempos, nas suas actividades maçónicas e, nos tempos de hoje, na doutrinação comunisante de Pedro Pinto.
- Como se poderia êle dar num meio divorciado de tôdas as liberdades e em que dia a dia se agravam as desigualdades sociais?
O professor supunha que Ildefonso Barradas o procurara para alguma coisa mais do que para estabelecer com êle um debate político descabido e inútil. Não se dignou contraditar o visitante, nem estava nos seus hábitos de tolerância dissuadir os outros do êrro ou da verdade. Tôdas as opiniões tinham guarida em seus ouvidos desatentos e em seu espírito céptico. Mas achou extremamente bizarro aquele homenzinho que o procurara para agredir a ordem política e derrubar a organização burguesa que êle ajudava a manter em pé com as suas artes de doutor em leis.
A certa altura (não tinha os vagares do político desocupado) indagou do móbil certo da visita:
- O meu amigo certamente que me procurou com algum objectivo?...
Só então Barradas mediu o êrro; mas era tarde. Para quê perder tempo em transmitir ao roceiro egoista seu credo de generosidade humana e de redenção social? Esquecia-se ele que fôra em S. Tomé, a escravizar pretos, que Reis pai acumulara a fortuna que dava agora ao filho fama e proveito de jurisconsulto celebrado? Ingenuïdade a sua! (pp. 100-101)

Fuma cigarros sôbre cigarros; tenta a leitura, não consegue fixar a atenção e põe-se a assobiar, para incutir a si próprio a serenidade que não possui. O peor ainda é o chiqueiro feito à volta duma coisa tão simples! Que tropa esta, que bairro, que gentinha! Imbecis, por cuja condição miserável êle luta e que ainda quási o apedrejam! Escravos, cujo destino é serem eternamente escravos e que só acorrentados se sentem felizes! Que nojo, que tédio! (p. 115)

O tio não a escuta; avança para o quarto, investido daquela autoridade militar que os galões de major lhe concedem e que Pedro Pinto não costuma acatar devidamente. Intima o sobrinho a abrir a porta; abranda em pouco por se sentir ràpidamente obedecido.
– Sei que se incomodou por minha causa. Não valia a pena, mas muito agradecido.
- Foi a primeira e a última vez. Lá gente metida com a polícia, na minha casa, não. Ficas desde já prevenido. Trata de arranjar trabalho e, se não arranjares por cá, vai para as colónias. Por aqui já me convenci de que não arranjas nada. Ninguém quere bolchevistas. Mas ficas avisado: outra história com a polícia e escusas de voltar a casa. Não, que eu também tenho a minha carreira a defender.
Pedro Pinto ia replicar ao tio, mas conteve-se; a mãi, do outro lado da porte, olhava-o numa súplica muda e angustiosa. Do embate entre o poder civil e o poder militar saíu o último, aparentemente, triunfante.
Tem medo que por minha causa lhe vão ao sôldo, pensa o sobrinho com sumo e sarcástico desprêzo. - Esteja descansado que por minha culpa não perde o bago, foi tudo que, todavia, se limitou a responder. E começou a enfiar com lentidão o casaco que atirara, ao deitar-se, para as costas da cama.
- Deixa-te de insolências e trata de ganhar a vida.
Nada podia ferir mais Pedro Pinto do que aquelas alusões constantes à sua ociosidade. Era sua a culpa de estar sem trabalho? Sua, ou desta sociedade desequilibrada que forma técnicos em série para logo a seguir os atirar para os Comissariados do Desemprêgo? Sua, ou desta sociedade capitalista que mantém nos países chamados civilizados trinta milhões de desempregados e queima as colheitas para manter os preços, enquanto na China, e na Índia e em África morre gente com fome? O enxovalho doeu-lhe como ferro em braza; mas a luta moral com os investigadores quebrara-lhe os nervos. Achou inútil reagir. E depois, sempre era o tio que lhe dava o pão que comia. (pp. 116-117)

Laurentino Guedes deu conta a Costa Vidal do reaparecimento da agitação revolucionária. Costa Vidal era um espírito profundamente céptico; das revoluções só aproveitara, até aí, a parte mais lucrativa: o jôgo da bôlsa. Informado a tempo, por diversas vezes, do próximo eclodir das revoltas, ajudara, por intermédio de seus agentes e emprêsas comerciais, a estabelecer a atmosfera de receios e de pânicos propícia às especulações de bôlsa. Tombadas as cotações, adquiria por baixo preço grandes lotes dos papeis que considerava mais seguros. Dava com isso público e patriótico testemunho de que o pânico o não contagiava, pois que amealhava os valores nacionais quando todos acorriam a desfazer-se dêles... Passada a borrasca reclamava com energia o regresso a condições de estabilidade e de confiança necessárias para o prosseguimento das actividades económicas. À sua voz serena e optimista a bôlsa refazia-se; a confiança, tìmidamente, regressava; as cotações subiam. E Costa Vidal não queria para si o papel de açambarcador dos títulos que na bôlsa tinham incessante procura; cedia-os a preços módicos... E ganhava fortuna. (pp. 199-200)

Joaquim Paço d'Arcos, em ansiedade (2.ª edição). Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1941.

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