terça-feira, 4 de março de 2014

100.º Aniversário do início do "Dia Triunfal" de Fernando Pessoa - primeiros rascunhos de «O Guardador de Rebanhos»

O Dia Triunfal, Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
Primeiro rascunho de «O Guardador de Rebanhos»
datado de 4-III-1914 (via O Meu Pessoa).
Sobre a génese dos heterónimos*

Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 –, acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

*Fernando Pessoa, Excerto de Carta a Adolfo Casais Monteiro (13 de Janeiro de 1935). In Correspondência: 1923-1935. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999. p. 342-346.

De 06 a 08 de Março de 2014 realiza-se na Fundação Calouste Gulbenkian o Colóquio Internacional "O Dia Triunfal de Fernando Pessoa". O site oficial do colóquio pode ser consultado AQUI.

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