quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ainda (ou outra vez): Portugal, a Flor e a Foice

Portugal, a Flor e a Foice, José Rentes de Carvalho
Portugal, a Flor e a Foice, José Rentes de Carvalho



No começo dos anos 80 um conhecido editor português pediu-me para ler o manuscrito, e logo de seguida foi franco:
- Editar isto? Nem pensar! Agora não, daqui a trinta anos também não!
Trinta anos passaram e provavelmente continuará inédito, mas que isso não obste.

J. Rentes de Carvalho, daqui.

Monstruoso concubinato o de certos escritores portugueses com a Censura, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril, mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.

J. Rentes de Carvalho, em Portugal, a Flor e a Foice. Agora que Portugal, a Flor e a Foice, está a chegar finalmente às livrarias (ainda não consegui saber em que abençoado dia chegará dia 21 de Março de 2014 chega às livrarias), convém não esquecer que esta obra (aliás, toda a obra do escritor) foi vítima da mais cobarde censura, a censura do silêncio e da indiferença, a censura da promiscuidade e da prostituição, a censura sem rosto. Foi vítima da nacional cobardia daqueles que, domesticados, fazem fila para ver quem primeiro beija a mão que os oprime. Foi vítima das colunas vertebrais dobradas, que guerreiam entre si, lutando pelas migalhas que caiem das mesas onde lhes negam o assento. Foi vítima dos interesses mesquinhos daqueles a quem convém ladrar aos interesses instalados - para obterem os aplausos - ao mesmo tempo que lhes piscam o olho, como quem diz, não tenhais receio que não mordemos - para obter a bênção. Foi vítima - mas nunca se vergou perante os carrascos. Teve um caminho difícil, mas conseguiu chegar. Também por isto - os meus parabéns (e agradecimento) a J. Rentes de Carvalho. Houvesse mais Portugueses assim...

2 comentários :

  1. Olhar heterodoxo? Pois que venha... presumo que hajam olhares ortodoxos, que também não devam ser excluídos.

    Vivemos num País de olhos fechados, não nos podemos dar ao luxo de desprezar olhares...

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