quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

«Mas não é isso que eles querem ouvir.»

De regresso a Berlim, bati à máquina o meu relatório. As minhas conclusões eram pessimistas, mas lúcidas: a direita francesa era fundamentalmente contra a guerra, mas politicamente o seu peso era reduzido. O governo, influenciado pelos judeus e pelos plutocratas britânicos, decidira que a expansão alemã, ainda que nos limites do seu Grossraum natural, constituía uma ameaça para os interesses vitais da França; iria para a guerra, não em nome da própria Polónia, mas em nome das suas garantias à Polónia. Transmiti o relatório a Heydrich; a seu pedido, entreguei também uma cópia a Werner Best. «Você tem com certeza razão, penso eu», disse-me este último. «Mas não é isso que eles querem ouvir.» Eu não discutira o meu relatório com Thomas: quando lhe descrevi o seu teor, ele fez um esgar de desagrado. «Tu realmente não entendes nada de nada. Parece que acabas de desembarcar do mais fundo da Francónia.» Thomas escrevera exactamente o contrário: os industriais franceses se opunham à guerra em nome das suas exportações, e por conseguinte também o exército francês se lhe opunha, e que uma vez mais o governo acabaria por inclinar-se perante o facto consumado. «Mas sabes perfeitamente que não é assim que as coisas se vão passar», objectei eu. - «O que é que nos interessa o que se vai passar? Em que é que isso nos importa, a ti e a mim? O Reichsführer só quer uma coisa: poder garantir ao Führer que poderá ocupar-se da Polónia como entender. Do que acontecer depois, trataremos depois.» Sacudiu a cabeça: « O Reichsführer nem sequer verá o teu relatório.»

Jonathan Littell, em As Benevolentes, pp. 62-63, 1.ª edição, Lisboa: Dom Quixote (Dezembro de 2007).

O espaço vital alemão é-nos mortal - Ferreira Fernandes.

Sem comentários :

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...