sábado, 8 de fevereiro de 2014

Life of Johnson e Páginas Escolhidas: A biografia e o biografado.

Life of Johnson, James Boswell, Samuel Johnson

Para o DESEMPREGADO,

Caro Senhor,

Não há muito tempo, passava eu por uma das portas da cidade, quando fiquei horrivelmente impressionado com um grito cheio de pesar que me intimou a recordar os pobres Devedores.
A sabedoria e a justiça das leis inglesas são celebradas, pelo menos, pelo próprios Ingleses; mas, mesmo os mais zelosos admiradores das nossas Instituições não podem pensar que a lei seja justa, quando existem homens perfeitamente capazes de trabalhar, que são obrigados a mendigar; ou que seja justa quando submete a liberdade de alguém às paixões e interesses de um terceiro.
A prosperidade de um povo é diretamente proporcional ao número de mãos e de cabeças que estão empregadas de modo útil. Para a comunidade, a revolta é uma febre, a corrupção uma gangrena, e o desemprego uma atrofia. Seja qual for o corpo, seja qual for a sociedade, se gastar mais do que adquire, gradualmente entra em decadência; e cada pessoa que se continua a alimentar, deixando de trabalhar, tira algo do fundo público.
Portanto, quando se remete qualquer homem para a indolência e escuridão de uma prisão, isso é uma perda para a nação, e é algo que não dá lucro ao Credor. Porque, entre as multidões que definham nessas celas de miséria, só uma parte muito diminuta é suspeita de algum ato fraudulento como o fazem os que se apropriam do que pertence aos outros. Os restantes estão na prisão devido aos excessos de orgulho, à malvadez da vingança ou ao azedume provocado por expectativas frustradas.
Se àqueles que deste modo exercem rigorosamente o poder que a lei lhes pôs nas mãos lhes fosse perguntado porque continuam a pôr na prisão aqueles que sabem que não são capazes de lhes pagar, fulano há de responder que o seu Devedor antes vivia melhor que ele; sicrano, que a sua mulher se achava superior aos seus vizinhos, e os seus filhos iam vestidos de seda para a escola de dança; e beltrano que pretendia ser um gracejador e uma grande cabeça. Alguns responderão que se eles próprios tivessem dívidas deviam receber o mesmo tratamento, e que não devem mais do que podem pagar e, portanto, não precisam de prestar contas sobre as suas ações. Alguns confessarão o desejo que têm de ver os Devedores a apodrecer na prisão; e, outros, descobrirão que esperam, por meio da crueldade, espremer o amigo até que lhes pague.
A finalidade de todos os regulamentos civis é a de evitar que a felicidade individual sofra às mãos da malevolência individual e manter os indivíduos livres da sujeição a terceiros; mas esta finalidade aparentemente não é cumprida quando se consente a um homem que, irritado com a sua perda, seja juiz da sua própria causa e prescreva a punição que lhe causa a sua própria pena; quando a distinção entre culpa e infelicidade, entre casualidade e intenção, é confiada a olhos cegos pelo interesse, a entendimentos perturbados pelo ressentimento.
Dado que a Pobreza entre nós é punida como sendo um crime, devia pelo menos ser tratada com a mesma leveza do que outros crimes; o transgressor não devia apodrecer à mercê daquele que ele ofendeu, mas devia-lhe ser permitido fazer um apelo à justiça do seu país. Não há nenhuma razão que leve a que um Devedor deva ser posto na prisão, em vez disso devia ser compelido a pagar; e devia-se fixar um termo, no qual o Credor pudesse apresentar a sua acusação de que o Devedor tem uma propriedade que oculta. Se essa propriedade puder ser descoberta, então que seja dada ao Credor; se a acusação não for apresentada, ou não puder ser provada, então que se liberte o prisioneiro.
Aqueles que fizeram as leis aparentemente supuseram que cada deficiência no pagamento é um crime do Devedor, mas a verdade é que o Credor partilha sempre o ato, e frequentemente partilha a culpa de confiança indevida. Raramente acontece que um homem ponha na prisão um outro a não ser por dívidas que ele próprio consentiu que fossem contraídas na esperança de isso lhe ser vantajoso e por acordos em negócios em que ele estabeleceu o seu lucro de acordo com a sua própria opinião dos riscos; e não há nenhuma razão para um punir o outro por causa de um contrato em que ambos participaram. (...)


Samuel Johnson, Prisões de Devedores (1), em Páginas Escolhidas, pp. 133-135, Quetzal, Fevereiro de 2014

230 anos após a sua morte finalmente temos em português (em letra minúscula que está publicado num português esquisito que nem é português de portugal nem português do brasil nem português de lado nenhum - um português saído da cabeça de uns idiotas que de lexicografia percebem patavina; não lhe meto o não para não ser redundante) algumas páginas de Samuel Johnson (1709-1784). Não sou adepto de páginas escolhidas - prefiro obras completas - mas é o que há... Pode ser que ganhem balanço...

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