quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dia dos Namorados*

Amor, Amour, Love, Cupido, Frank Uyttenhove
Fotografia de Frank Uyttenhove


(Soneto II)

Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo,
que solidão errante até chegar a ti!
Os comboios continuam vazios rolando com a chuva.
Em Taltal a primavera não amanheceu ainda.

Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos da roupa às raízes,
juntos pelo outono, pela água, pelas ancas,
até sermos apenas tu e eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta,
a embocadura da água do Boroa,
pensar que separados por comboios e nações

tu e eu devíamos simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.


(Soneto XXII)

Quantas vezes, amor, te amei sem te ver e talvez sem me lembrar
sem reconhecer teu olhar, sem olhar-te, centáurea,
em regiões hostis, num meio-dia ardente:
tu eras só o aroma dos cereais que amo.

Vi-te talvez, imaginei-te ao passar erguendo uma taça
em Angol, à luz da lua de Junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e soou como o mar desmedido.

Amei-te sem o saber, e procurei a tua memória.
Nas casa vazias entrei com lanterna para roubar o teu retrato.
Mas eu já sabia como eras. De repente

enquanto lias comigo toquei-te e a minha vida parou:
estavas diante de mim, reinando sobre mim, e ainda reinas.
Como fogueira dos bosques, o fogo é o teu reino.


(Soneto LXVI)

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.


Sonetos de Pablo Neruda, em Cem Sonetos de Amor (Campo das Letras, 1.ª Edição, Maio de 2004. Tradução de Albano Martins).

*Ainda têm um dia para encontrar o caminho...

2 comentários :

  1. Neruda, de véspera
    é um bom treino para um amante

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    Respostas
    1. Só já sabem oferecer perfumes, chocolates, historietas de amor cor-de-rosa, e idas ao restaurante... fraquitos...

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