quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Panteão, Eusébio, e o Nacional-Parolismo

Eusébio da Silva Ferreira

Tinha oito anos quando conheci o amigo que me relatou os feitos do Eusébio como se o tivesse visto jogar no dia anterior; tinha uma enorme imaginação o meu amigo, e além de GNR - são muitos os amigos de infância e adolescência que acabaram na GNR, mas qualquer amigo daqueles tempos depressa o identificará - é também o maior mitomaníaco que conheço; pena que não tenha fixado residência em romancista, tendo antes optado pela carreira de passador de multas nos intervalos de beber whiskey. Eram feitos extraordinários aqueles que ele me contava, de maneira que o Eusébio dos seus relatos mais me parecia uma personagem de banda desenhada que um ser humano; os remates indefensáveis, que fazia enquanto voava, as bolas chutadas a velocidades impossíveis, de ângulos impensáveis, o pânico de defesas e guarda-redes, que tremiam à sua aproximação, as chuteiras mágicas - Puma King - desenhadas especialmente para o nosso herói, as loucas corridas com a bola, corridas com que deixava equipas inteiras a vê-lo desaparecer no horizonte. O meu amigo sabia de cor os jogos do Benfica que, como eu, nunca tinha visto. Falava daquele Benfica, e do seu herói, Eusébio, com uma paixão que nunca utilizou para falar de absolutamente mais nada - e eram aos milhares as histórias mirabolantes que saíam da sua imaginação frenética - falava daquele Benfica, e do seu herói, O Eusébio, com um amor com que nunca utilizou para falar da sua paixão clubística, o Sporting. Foi graças a um Sportinguista que primeiramente tive contacto com as proezas do Eusébio, do meu Benfica.
Várias vezes virei a cabeça para o lado, me abstraí, desliguei a televisão, ou fechei as páginas dos jornais, nos últimos dias, para conseguir conter as lágrimas. Com a morte de Eusébio, acabou definitivamente uma Era na história do Benfica (e de Portugal, e etecetra), ainda que ainda vivam muitos jogadores que participaram nessa Era. Como ouvi algures a algum comentador (ou li), definitivamente o Benfica que foi em diversos momentos da década de 60 a melhor equipa do Mundo, acabou simbolicamente com a morte de Eusébio, fazendo agora apenas, o que não é pouco, parte da história. 
Entristece-me que queiram levar o Eusébio para o Panteão Nacional. Eusébio, ao contrário dos parolos e aproveitadores que habitam este malfadado país, sempre soube qual o seu lugar - embora por diversas vezes tenha sido demasiado modesto. Era um jogador da bola - para mim o melhor de sempre (entre os que vi jogar, gosto muito do Marco Van Basten, jogador fantástico, autor de remates impossíveis, a quem uma terrível lesão terminou precocemente a carreira, e de Diego Armando Maradona, autor de fintas também impossíveis, trapaceiro como só os génios conseguem ser, a quem as drogas...). Génios existem em todas as áreas, não apenas nas ligadas a actividades intelectuais - mas muitos (pseudo)intelectuais de pacotilha não entendem isso. Entristece-me que os políticos deste país se aproveitem de Eusébio, desgraçada e descaradamente, como o Estado Novo se aproveitou. Entristece-me que o Benfica anua neste disparate*. Entristece-me que os Portugueses acenem que sim, todos contentes, como se colocar Eusébio no Panteão fosse como levar um santo para um santuário. Mas, triste e desgraçadamente, os políticos e a população portuguesa, merecem-se. Estão muito bem uns para os outros...

*Inqualificável a ideia peregrina de colocar uma redoma - de vidro, de acrílico? - em volta da estátua de Eusébio. Só falta chamar o Papa para benzer o local, e decretá-lo como santuário - assim como assim, os católicos já têm uma infinidade de beatos, santos, santinhos, santões - isto para não falar da virgem e dos seus infinitos heterónimos...

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