terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Balanço 2013: Livros, &c. Previsões 2014.



Livros. Ao fim de quatro volumes Tristram Shandy ainda não passou do primeiro dia de vida. Ao fim de setecentas e trinta páginas, de Leopold Bloom só se conhecerá um dia. Após mais de mil dias do XIX Governo (?) Constitucional (?!) de Portugal (!?) os números épicos com que nos presenteia só são ultrapassados pelo épico número de mentiras e cambalhotas dos elementos que o constituem. Li todas as obras de Herbert George Wells - o que têm a menos em qualidade é compensado com o que têm a mais em imaginação, alegoria, e aviso - em pdf's, que são mais baratas - quer dizer, grátis, que não há dinheiro. Li finalmente Fahrenheit 451. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, Cavalheiro, é agora o melhor romance de sempre, para mim. Tom Jones passou para segundo lugar. Desculpa lá Henry Fielding. Os Idiotas é uma óptima revelação - só conhecia o autor da blogosfera, não tive o prazer de ler a Periférica. Gostei de Mentiras & Diamantes - ainda não houve um livro de J. Rentes de Carvalho de que não tenha gostado - mas no pódio continuam Ernestina, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, e Mazagran - recordações e outras fantasias, não necessariamente por esta ordem, mas esta foi a ordem de leitura. As velas ardem até ao fim diz-me muito, muito mesmo. Depois de o ler, não o podendo dar ao meu melhor amigo - com quem provavelmente cortei relações para sempre - dei-o à sua mãe que é como uma segunda mãe. Li mais alguns livros de Rubem Fonseca - ainda me faltam ler bastantes, e ele tem um novo, e eu recomendo todos. De Truman Capote ainda não foi este ano que li a única obra que agora me falta ler, Other Voices, Other Rooms. Pelo meio, naqueles momentos em que a disposição mental para a leitura anda na mó de baixo, policiais, muitos policiais, a maioria de baixíssima qualidade, mas os policiais estão para mim como as guloseimas para as crianças, há sempre espaço para mais um, ainda que a barriga me doa. Reli todos os contos e novelas de Sir Arthur Conan Doyle - sir pela sua participação na guerra dos boers, não pelos méritos literários - em que entra Sherlock Holmes. Reli O Crime do Padre Amaro, agora na primeira edição - diferente da que habitualmente se publica. Vou a meio de The Life of Samuel Johnson, de James Boswell, livro que um amigo me ofereceu para ir lendo - e é o que eu vou fazendo. Em Paris ofereceram-me um dos livros por que ansiava há bastantes anos À l'ami qui ne m'a pas sauvé la vie, de Hervé Guibert. Portugal, a Flor e a Foice continua por publicar em Português. Voltei a não passar das primeiras páginas de David Copperfield - tive o azar de ver uma adaptação cinematográfica e eu detesto estar a ler e saber o que se vai passar a seguir. Não comprei Servidões. As novas edições completas, parciais, amostras, selecções, antologias, já nem sabem que nome lhe dar, de Fernando Pessoa aparecem nas livrarias como cogumelos na épocas deles, com a diferença de que neste caso é época deles todo o ano. Vergonhoso. Três quartos das novas edições - sou tão optimista às vezes - nem sequer chegam a ser gato por lebre, é peixe podre por carne de primeira qualidade. Comprei A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, de Joël Dicker, na edição original. Apenas porque é Suíço. Nisto da leitura temos que ter algum critério - e o melhor critério de todos é não ter critério nenhum. Alice Munro ganhou o Prémio Nobel da Literatura - espero que neste momento já não seja novidade para ninguém. Três dos meus escritores preferidos foram reverendos, que é uma espécie de padre, Jonathan Swift, Laurence Sterne, Lewis Carroll.

Previsões 2014. Será pior que 2013, e assim sucessivamente. Tudo o que seja menos que isso, será bom. Mas não há grandes coisas a esperar. Portugal não será campeão do mundo de futebol. O Brazil, talvez. Será melhor para uns poucos, na inversa e exponencial proporção em que será pior, muito pior, para muitos, cada vez mais. Não acabarão as guerras, não acabará a ignorância, os católicos continuarão parvos, mesmo com um Papa que aparentemente vive seis ou sete séculos à frente das suas ovelhas. Angela Merckl não será atingida por nenhuma bala disparada por um grego - ou talvez esteja a ser demasiado pessimista. Os gregos continuarão a morrer à fome. Os portugueses também. A fome não será apenas fome. Também será sede. Sede de justiça - sede de vingança. O Homem acabará por dizimar a sua própria espécie - talvez ainda não seja em 2014 - keep calm, we'll announce the end of the world at any instant. Isto é apenas um sonho - a qualquer momento passa um coelho a correr - a qualquer momento a rainha de copas manda decapitar umas quantas cabeças - a qualquer momento um juiz sem juízo ordena que se cumpra a sentença - a qualquer momento acordamos todos - o pesadelo segue dentro de instantes - acordados - sem dinheiro nem cartões de crédito - assistiremos todos ao espectáculo - sem pagar - mas com «c», se faz favor. Ate já.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Quem matou Nola Kellergan?

Nola Kellergan, Harry Quebert, Joël Dicker, A Verdade sobre o Caso Harry Quebert

Venho aqui solenemente - como convém nestas épocas natalícias, em que o mais comum dos lugares-comuns deve ser dito solenemente - desejo que a paz chegue a todo o mundo - e mais além - que os nossos irmãos extra-terrestres não devem ser menos bélicos - senão mais letais - e lá terão os seus jesuses' Cristo! - informar que um dia destes começo a dizer a toda a gente quem é que matou Nola Kellergan. Para acabar com as insónias dos tristes que não conseguem dormir porque não sabem quem a matou. E para não ter que levar a toda a hora - da madrugada - com a publicidade na televisão - que apenas está ligada para fazer ruído no imenso silêncio chuvoso da noite...

(Sinceramente - parece-vos que a miúda da imagem tem 15 anos?!?)

domingo, 22 de dezembro de 2013

António Lobo Antunes. Amizade. Amor. A Chave. Crónicas.


Quinto Livro de Crónicas, António Lobo Antunes

(...) O Zé [Cardoso Pires] tinha uma relação muito angustiada com a escrita. Uma vez, virou-se para mim, com uns olhos esquisitos: «Os meus livros não são assim tão maus, pois não?» E estava a ser profundamente sincero. E ele, que era um homem duro, parecia um miúdo. 

Tinham uma grande cumplicidade?
Eu compreendo a infidelidade no amor, mas não a compreendo na amizade. E o Zé tinha uma enorme fidelidade na amizade. Com 15 anos comprei o livro O Anjo Ancorado e mostrei-o ao meu pai. E ele: «Um homem chamado Pires não pode ser um bom escritor.» Mais tarde, numa entrevista, falei nisso. Conheci-o no aeroporto e ele disse: «Eu sei que sendo Pires não posso ser bom escritor mas tu és e gosto muito de ti.» E foi assim: instantâneo e absoluto como o amor.

E porque é que entende a infidelidade no amor?
No amor, o ciúme é normal, e até posso aceitar o sentimento de posse. Na amizade, isso não existe, os nossos amigos têm outros amigos, e nós aceitamos isso. Mas talvez não sejam sentimentos tão diferentes... Para mim, a amizade é completamente assexuada, não sou capaz de sexualizar uma amizade, nunca fui, mas no amor às vezes também não. Porque o amor é tanto, que a gente fica sufocada de paixão e nem pensa em sexo, ficamos a olhar apenas, só o privilégio de poder estar a olhar... e existe aquela sensação de que se tocar vou estragar, porque posso fazer ali uma nódoa, um amolgão, qualquer coisa... Ultimamente, acho que é uma honra tão grande estar vivo... E um acaso...

(...) A amizade é como o amor, a gente encontra uma pessoa e fica amigo de infância. E o Zé [Cardoso Pires] faz-me muita falta. Ele dava-me o braço na rua, um homem seco e rugoso, com uma personalidade difícil, dava-me o braço na rua... imagine. Ele tinha gestos de uma infinita generosidade... Sempre que um pedinte o interpelava, ele, sempre com tão pouco dinheiro, parava e andava à procura nos bolsos... e dava.

Escreveu: «Ainda não aprenderam a ler-me. Tentam abrir a porta com a chave que trazem no bolso, pequenina, estreita. E surpreende-me que não vejam que basta empurrar com um dedo.» Não se sente bem lido?
Os bons escritores ensinam-nos a lê-los. As primeiras vezes que li Conrad achava aquilo muito complicado e percebia mal. O problema não era dele, era meu. Que estava a ler aquilo com a minha chave, com os meus valores, com as minhas noções... E não estava a deixá-lo levar-me para onde eu tinha de ser levado... Ontem, estava a ler a história da Literatura Inglesa a partir de Dickens, e os Ingleses são tão diferentes dos Portugueses a falarem de Literatura, tão mais profundos, com uma aparente simplicidade nos termos, na forma como expõem... Nós, Portugueses, parece que arranjámos uma metalinguagem... Quem somos nós para julgar?

Mas já citou Joyce, dizendo que gostava de «dar trabalho aos críticos por 500 anos»...
Fico sempre insatisfeito - até que ponto é possível falar sobre um livro? Posso dizer gostei, mas nós confundimos ideias com paixões: há livros que sei que são bons e de que não gosto. Não gosto do Musil e do Thomas Mann, mas sei que são bons. Há outros que são maus e de que gosto...

É uma questão de charme?
Um livro de que eu goste tem que ter charme e o Musil não tem charme nenhum... Ler um livro bom é uma alegria tão grande. Por isso, eu não entendo a inveja e a rivalidade entre escritores, porque isto não é nenhum desporto de competição. Não faz sentido a inveja na arte.

Excertos de entrevista a António Lobo Antunes, por Ana Margarida de Carvalho (Revista Visão, n.º 1085, 19 a 25 de Dezembro de 2013).

Ainda não encontrei a chave certa nos meus bolsos - e farto-me de empurrar a porta, mas os romances de Lobo Antunes continuam na estante à espera da sua vez. Contudo sempre gostei muito das suas crónicas. Talvez tenha que começar pelo princípio - só tenho romances de Lobo Antunes posteriores a 1996 - Manual dos Inquisidores - foi o primeiro que comprei - e a meio estava tão aborrecido que tive que o arrumar na estante. Voltei a insistir várias vezes, com outros romances posteriores, mas cada vez que insistia me aborrecia mais depressa. Com O Arquipélago da Insónia (2008) desisti de insistir - até porque os bolsos andam quase sempre vazios. Um dia talvez tenha a oportunidade - o tempo e o dinheiro - para regressar a 1979 e começar com Memória de Elefante ou Os Cus de Judas, que tem um título mais interessante... até lá vou lendo crónicas e entrevistas.

Desejo um Feliz Natal (pese embora a quadra não me diga nada de especial...) a todos que por aqui passam - com muita amizade, amor, e um bom livro para ler.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill
Alexandre O'Neill, 19/12/1924 - 21/08/1986

Os desacatos em massa nunca mais começam, para eu ir assaltar livrarias e armazéns de editoras (a Relógio D'Água, a Quetzal, e a Assírio & Alvim que se ponham a pau), mesmo com este governo ilegal (os tipos, claro, juraram Eu abaixo- assinado declaro por minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas. - mas que honra? - o outro, o que lhes permite continuarem ilegalmente no cargo também Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. - mas também a não tem). Portanto, estão todos à vontade...


Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ulysses - James Joyce

Ulisses, James Joyce, Ulysses, Relógio D'Água

Depois da miserável tradução de Antônio Houaiss - aquele do dicionário e do aborto ortográfico - como é que este tipo foi presidente da Academia Brasileira de Letras? - até chapéuzinho pôs no nome, o tipo -, da não menos má tradução de João Palma-Ferreira (com hífen e tudo!), de uma tentativa de leitura (frustrada) no original - eis que chega às minhas mãos com grandes expectativas, para não dizer esperanças. É desta! - ou não.

(Um trabalho homérico. E a Relógio D'Água que páre (com isto do acordo já nem sei se leva acento) de publicar livros decentes que um gajo não é de ferro. Qualquer dia entro-lhes de arma em punho pelas instalações adentro - estou só a avisar. Metam-lhes umas capas com um rapaz giro que são capaz de ter mais sucesso junto das miúdas com quem me cruzei na livraria. Sim, cruzei-me com essa gente que compra livros pelos olhos do marmanjo que tem a cabeça da miúda encostada no peito, e pelos títulos de cor berrante escritos num tipo de letra esquisito.)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Citação, 20: O homem que perdeu a pátria

Homeland, Pátria, Bo Bartlett
Homeland, de Bo Bartlett


Já não tenho pátria, acabou-se. Não sei se a venderam ou se fui eu que, por descuido, a perdi. Oiço as palavras que me saem da boca e não reconheço a língua que me é devolvida. Tudo o que um dia me foi familiar tornou-se estranho. Casas, ruas, cidades, o rio da minha aldeia. O Tejo que era maior que o rio da minha aldeia já não está onde estava. Ou então foi o sítio por onde o Tejo passava que desapareceu, deixando as águas do rio suspensas do nada. Olho à minha volta e não vejo a sombra, aquela que me pertenceria. Perdi a sombra. Sou um estrangeiro em casa, na rua, onde quer que vá.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Contos para ler antes de morrer*

Livros, Contos, Short Story, Books

A minha selecção de contos (livros e autores) que todos os amantes de livros e literatura - e deste género em particular - devem ler. No homo literatus - vão lá espreitar.


*Porque depois não dá; a não ser que o paraíso seja - como deveria de ser - uma biblioteca. O pior é que - se for uma biblioteca borgiana - será uma biblioteca de livros inexistentes: o que, por outro lado, está de acordo com a imortalidade - embora, pela mesma lógica - ou outra qualquer - o inferno seja mais apetecível: é onde estarão os livros interessantes...