sábado, 22 de junho de 2013

contabilidade final

Há dois grandes mistérios na vida, o amor e o dinheiro, diz-se num vídeo daqueles que se encontram no youtube a explicar a crise financeira, e o processo como se cria o dinheiro. Estão tão bem escondidos, o dinheiro e o amor, no labirinto da vida, que a maioria das pessoas nunca chega a encontrar nem um nem outro. Falta de capacidade, de competência, ou de sorte? Provavelmente falta de tudo, conjugado em doses que ninguém conhece, embora haja sempre um guru pronto a vender o segredo. Dos mistérios da vida não sei, sei apenas que nas contas da vida, que a morte sarcasticamente vai apontado no seu caderno de capa preta, de Deves e Haveres, o saldo final será sempre Zero. É tão verdadeira aquela frase que diz que só é verdadeiramente nosso o que damos.

Despedi-me um dia destes, numa despedida antecipada, pois sabia que não me ia embora, ainda. Sabia que voltaria aqui, que podia voltar aqui, escrevesse ou não mais algum post, e havia um que queria escrever, com o título contabilidade final, mas era tudo o que sabia, é tudo o que sei, o resto vai ao sabor da pena, forma de dizer, que escrevo no meu bloco de notas, ao sabor da esferográfica, azul porque era a única que tinha, embora eu prefira escrever a verde, escrevo sempre a verde, manias, mas agora tenho que escrever a azul. Provavelmente, quando passar o texto para o editor do blogger, faça mais algumas alterações, mude esta ou aquela vírgula de lugar, acrescente ou retire alguma palavra, ou até uma ou outra frase, ou mesmo parágrafos inteiros. Em última análise posso até nem chegar a publicar este texto - estão a lê-lo? Estará programado para ser publicado automaticamente... Não sei onde estarei a essa hora; algures na Europa, algures no Mundo, algures no Universo. Como sempre. Mas sem ligação à internet.

Como sempre, não procurem uma lógica, escopo, ou moral, no texto, escrevo ao deus-dará, ao acaso, conforme aos caprichos do fluxo da consciência - ou da sub-consciência, ou do inconsciente - quem sabe de onde vem o pensamento? Sigmund e James (o William e o Joyce) que me perdoem. E se quiserem, tiverem paciência, ou curiosidade, continuem a ler. O autor não se responsabiliza pela perda de tempo. Sendo a vida limitada, o tempo é o bem mais precioso. Mas quanto vale o tempo, apenas o tempo, na vida?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

proscrito #2

Um Estado essencialmente concentrado nas funções extractivas e repressivas aplicadas ao grosso da população. (Âncoras e Nefelibatas)

Esta mobilização geral, esta política totalitária, que põe todos em fila e os faz marchar segundo um itinerário obrigatório como nos passeios escolares em visita aos museus, é uma autêntica conjura, animada por um ódio inconsciente pelo indivíduo e pela sua liberdade cigana, pelo seu direito de andar aos deus-dará, ao acaso como os cães vadios no filme O Meu Tio de Tati. (The Cat Scats)

Também na rua onde eu cresci existe agora um sítio onde se dá de comer àquelas pessoas cujas vidas o mundo destruiu. (Teatro Anatómico)

estes tempos de crise são sinónimo de perda de autonomia, e a perda de autonomia conduz à deterioração da identidade, e a deterioração da identidade conduz à perda de valores. no meio desta selva - não de árvores e animais exóticos e perigosos - mas de escombros, a pobreza será terrível, mas um mal menor, o pior é o que vem com ela, e não é a deterioração dos edifícios. esta selva de escombros erguida pelos auto-proclamados salvadores neo-liberais é feita de ruínas humanas. (À procura de um título)

proscrito #1

Há quatro anos eu e o meu amigo FT fizemos uma aposta - não é bem uma aposta, mas falta-me melhor palavra - talvez «pacto»? - Tínhamos nesse tempo um blog a quatro mãos (um dos oito em que escrevi, se nas contas não me esqueço de nenhum), nestes últimos dez anos. Ele voltaria à blogosfera quando eu me fosse embora. Não acredito que consiga manter o blog por muito tempo, mas entretanto podem visitá-lo num blog à procura de um título.

sábado, 15 de junho de 2013

Crónicas de Zwahlen #17 - Última Crónica, Último Post

Aeroporto Genève
Aeroporto de Genève, 15/06/2013, 04h03m


Quando partires, parte
quando a noite ainda
não adormeceu, e o dia
não despertou. Quando
ainda não voam as aves
e no seu sono tranquilo
as crianças sonham ainda
sem mágoas nem esperanças.
Quando partires, parte
como o silêncio da noite
e o bulício do dia que nasce,
quando não adormeceram
os noctívagos nem acordaram
aqueles que madrugam.
Quando dormem os amigos
e não acordou a família.
Quando partires, parte
sem despedidas nem lágrimas,
sem nada. Leva apenas
as histórias dos livros
que leste, as memórias
do que foi importante.
Não lamentes as derrotas,
os fracassos, o que perdeste.
Quando partires, parte
como quem se despe lenta-
mente, sem nada, sem
glória nem miséria, sem
alegria nem tristeza, sem
olhar para trás, parte
como quem se junta ao pó
das estrelas, ao canto das aves.
Quando partires, parte
como chegaste, despido
porque nada te pertence.
Amigos que amaste, amantes
que tiveste, paixões que
te consumiram, tudo por
onde passaste, lugares 
onde riste ou choraste,
nada é teu. O que a sorte,
o suor, ou a fortuna te deu,
o que a vida te concedeu,
tudo é emprestado, sejas
rico ou pobre, poderoso
ou escravo, tudo te será
retirado. Quando partires,
parte como chegaste. Sem nada.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Free me!

Log, Forest, Free, Liberdade, Floresta,

Come, let us find, let us disappear into a place in the forest.
Far in where you sit on a log and has the sky above...
And moving, and crawling... free...

I like flowers, I like girls, and I like wine.
Beautiful are the flowers, boys and girls and prospects.
Loosen my clothes, help me - free...

Free me from those who beat the heart out of you.
Free me from those who only make one's life miserable.
Free me... from those who only put me down...

Free me... from those who only put me down...
Demanding love, demand for everyone...
Demanding love, demand for everyone...

(...)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

(...)

Entrevista a José Rentes de Carvalho

Para não estar sempre a publicar posts parvos sobre política, ou posts parvos com os meus devaneios, ou outros posts parvos, um post apenas para partilhar uma entrevista a José Rentes de Carvalho. O que me recorda que ainda não tenho o seu último livro. De vez em quando é bom focarmo-nos nas coisas boas. E José Rentes de Carvalho é do melhor que existe (a meias com a Holanda) em Portugal. A este propósito li um dia destes uma espécie de debate - muito rasco, mas de palavras caras, para o dizer em termos técnicos - em que um grupo de idiotas estava muito preocupado em saber se José Rentes de Carvalho era de direita ou de esquerda. Podia dizer que era gente a preto e branco, mas nem isso, apenas gente cinzenta. Adiante, carregem no botão play...


Actualmente em Itália quando um político supostamente corrupto entra num café, ou num restaurante, os clientes começam a atirar moedas para o chão. Eu acho que se nós começarmos a atirar moedas para o chão em Portugal, vamos ficar sem porta-moedas. (...) Somos a colónia de um x número de famílias que dispõe, e predispõe, e contrapõe de tudo aquilo que quer, e os 9, 10 milhões de sujeitos, ou ficam e aguentam, ou vão-se embora como eu fiz...

Aniversário. 125 de Fernando Pessoa. Mudar. Coisas.

Mudar, Mudar de Vida, Fábio Moon, Gabriel Bá, Cartoon
© Fábio Moon & Gabriel Bá

Este cartoon já o havia publicado no blog (aqui), mas pensei em voltar a publicá-lo, porque estava para publicar um post a recordar o nascimento de Fernando Pessoa, republicando o poema de Álvaro de Campos, No tempo em que festejavam o meu dia de anos, mas já tantas vezes foi publicado, que quem tiver interesse em lê-lo uma vez mais, pode ir ao link.
Tirando o «Vou mudar de time», que serve muito bem um qualquer jogador, mas nunca serve a um adepto, tudo o resto me assenta que nem uma luva. Sim, quero mudar, mudar para um lugar onde não tenha mais que mudar. Mudar é bom, muito bom, quando mudamos porque queremos, não quando mudamos porque somos empurrados para a mudança, isso já não é mudar, é fugir. 
A propósito de mudar, lembrei-me do texto de Bernardo Soares, a anotação 42 do Livro do Desassossego. Não tenho a minha edição em papel comigo, tenho um pdf, que diz seguir a edição da Assírio & Alvim:

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Du er ikke alene - You Are Not Alone



Cena final de Du er ikke alene (You Are Not Alone - não sei qual o título Português). Claro que gostava de ver a reacção da assistência, ao verem o vídeo de Bo e Kim, mas esse não é o escopo do filme de Ernst Johansen e Lasse Nielsen (argumento de Lasse Nielsen e Bent Petersen - gostava muito de ler o argumento) - a assistência somos todos nós - e se existir beleza pura no estado líquido, este filme conseguiu filmá-la.

Pela primeira vez na vida fiz um download de um filme, suponho que alguém me queira prender - uma cela com uma máquina de escrever, papel, e duas horas por dia na biblioteca, pode ser? - embora o filme completo possa ser visto no youtube. Sim, sou contra os downloads, mas gosto ainda menos das editoras que vampirizam autores e o seu público.

Priceless, como sói dizer-se em Inglês, ou apenas um tratado de psicologia numa cena, mais ou menos a meio, quando Kim chega a casa bêbedo, topeça nas escadas, e acorda os pais:

- It's you! - diz o pai. - Where have you been all day?
Kim corre rapidamente para a casa-de-banho, com a mão na boca, e vomita.
- He must have eaten something he cannot tolerate. - diz a mãe, preocupada.
Encostada no umbral da porta, na expectativa de uma reação do pai de Kim, diz-lhe:
-We have to send out for the doctor!
Após alguns segundos de silêncio, a mãe expectante, o pai estupefacto pergunta:
- A doctor?
Outro momento de silêncio, pai e mãe olham-se. A cena acaba com o pai a dizer, resignado:
- The boy is drunk!


You must love others as you love yourself.

You are not alone, música de Sebastian. (Não entendo uma palavra de dinamarquês, mas esta música ficou-me no ouvido; é a música com que começa e termina o filme, e é quase um resumo do filme.)

When you leave,
Don't turn around,
There is no way back,
Where you came from.
All their jokes,
You know them by heart,
You know all their mistrusts,
And you who don't know anything,
But yet have been hurt,
You know simply everything,
You've paid a high price.
If there is a truth,
written in black and white,
is that nothing is yours.

Crónicas de Zwahlen #16

Fontière Suisse-France, Le Locle, 11/06/2013

Amour, argent, & a typewriter. Um amigo ou dois, são sempre bem-vindos. Livros, nunca são suficientes, mas já me sinto satisfeito com os que tenho. Há palavras que só ficam completas quando ditas na língua que melhor lhes serve. Amor e Dinheiro só atingem a plenitude quando ditas em Francês: Amour, diz-se como se se beijasse. Argent, é um metal precioso. Máquina de escrever nunca será o mesma se não for dita em Inglês. Typewriter, como se cada som da palavra fosse o som produzido pelo dactilografar da palavra - que bela onomatopeia.  Amigo (e Amizade) nunca têm este equilíbrio entre enlevo e lealdade, entre carinho e união, se não forem ditas em Português. Livro é belo em qualquer língua, embora a palavra inglesa ainda me soe estranha, e não tenha para ela um significado íntimo. Book. Sim, conheço-lhe a etimologia, mas não lhe serve como o livre francês, talvez demasiado poético, se houver alguma coisa demasiado poética, nem como o livro português, que tanto serve para drama ou tragédia como para prosa ou poesia. Book, apenas um objecto. E uma quinta, granja, fazenda, farm, ferme... Ah, a vida e o mundo parecem tão fáceis e tão simples quando os anotamos no bloco rascunhado de notas... 

(Amour, argent, & a typewriter. Amigos, livres, & uma quinta. C'est tout. It's too much, & you'll never get it... Uma letra, um segundo, uma palavra, um momento, e o mundo fica de pernas para o ar. Life, vida, viver...)

terça-feira, 11 de junho de 2013

L'incunnu du Lac

L'incunnu du Lac, O Desconhecido do Lago

O desconhecido do Lago. O poster foi mandado retirar nas localidades de Versailles e de Saint-Cloud. Na Europa que caminha novamente para o obscurantismo de décadas que se julgavam ultrapassadas, há que manter oculto o desconhecido - que pode muito bem ser o tio, a prima, a irmã, o melhor amigo, o vizinho do rés-do-chão esquerdo, ou aquele habitante das águas-furtadas. A maior cegueira continuará a ser não quer ver. Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Se és um génio da banalidade, candidata-te a Presidente da República. Ou abre uma tasca na província. Em qualquer caso, tem cuidado com as bananas, que podem entrar-te pelo orifício que preferes utilizar às escondidas. Isto anda tudo ligado - e os Estados Unidos têm tudo registado.

P. S. Nada disto passa na televisão pública Grega...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Crónicas de Zwahlen #15

Berne, Schwiiz, 30/03/2013

K. Z. tenta gritar de além-túmulo - A vida é uma prisão! - mas os mortos não gritam. K. Z. dizia que se é tanto mais livre quanto maior for o número de opções de que se dispõe. Para tirar a liberdade a uma pessoa não é preciso encarcerá-la, porque mesmo encarcerada uma pessoa pode ter uma réstia de liberdade. É necessário retirar a uma pessoa todas as opções, para eliminar por completo a sua liberdade. Para K. Z. ser livre é poder decidir. Uma pessoa sem capacidade de decisão está completamente acossada, o que é uma prisão pior que uma prisão: é uma prisão sem grades. À medida que os anos se iam acumulando, K. Z. pressentia que as suas opções se iam reduzindo. Um dia suicido-me, dizia para si mesmo. Era a forma que encontrava para dizer a si próprio que ainda lhe restava uma última opção, uma última gota de liberdade, optar entre estar vivo ou matar-se. Agora que estava morto, e não conseguia lembrar-se como é que tinha morrido, cogitava que a liberdade fôra sempre uma ilusão.

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Luiz Vaz de Camões, Luís Vaz de Camões, Klássicos, Os Lusíadas

Ao desconcerto do mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.


Poema de Luiz Vaz de Camões. (1) (2). Já enviaram os Klássicos para a reciclagem, ou ainda não?

domingo, 9 de junho de 2013

Tiro ao Alvo

Tiro ao Alvo

Pouco importa se foi sua excelência o presidente da república portuguesa, ou a múmia aníbal cavaco silva, a aconselhar aos portugueses a prática de desportos. O que importa é que os portugueses escolham um desporto que seja útil para a sua saúde física - mas principalmente social, económica, e mental. Razão pela qual me permito aconselhar a todos os portugueses a prática de um desporto que lhes possa ser útil em todos estes campos que referi. Que melhor desporto que tiro ao alvo?

sábado, 8 de junho de 2013

Crónicas de Zwahlen #14 - Dê um rumo à sua vida

à deriva, João Castilho
Morte Súbita, videoinstalação de João Castilho


Enquanto viveu K. Z. sempre soube a forma como que lhe chegaria o fim comum que a todos está destinado. Morreria como morrem aqueles que estão condenados - sem direito a qualquer julgamento, sem hipótese de defesa - a uma existência errante, desamparada, de sobrevivência. Morreria como morrem aqueles que estão mortos antes de terem morrido. Agora que tinha morrido pensava que poderia escrever as suas memórias póstumas, como Brás Cubas, porém o receio de plagiar Brás Cubas impedia-o de pegar na pena - modo de dizer, que os mortos não pegam em nada, servem-se de intermediários. K. Z. teria que encontrar um escritor que escrevesse as suas memórias póstumas, como Brás Cubas havia encontrado Machado de Assis - mas enquanto vivo, K. Z. nunca encontrou um escritor, e agora que estava morto via-se impedido de encontrar um, porque os mortos não podem encontrar nada. A somar a tudo isto, para um diletante o receio de plagiar é uma desculpa tão boa para não escrever um romance quanto outra qualquer, e se o corpo já não podia ser acometido pelas monumentais preguiças das tardes estivais, o espírito permanecia procrastinador no limbo do eterno esquecimento. Enquanto viveu, K. Z. sempre soube que um dia havia de se suicidar. Agora que estava morto não conseguia lembrar-se como é que tinha morrido. A vida fôra uma recordação à deriva num imenso oceano de esquecimento. Dê um rumo à sua vida, K. Z. cogitava que tinha ouvido estas palavras pouco antes de morrer.

Dê um rumo à sua vida

John Henry Twachtman, Country Path
Country Path, de  John Henry Twachtman

Quero um vida em forma de espinha

Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente


Boris Vian, em Canções e Poemas, Assírio & Alvim (1997), lido aqui.

sábado, 1 de junho de 2013

Migração dos Estados-Membros do Sul da UE e da Irlanda

Emigração


Aqui está uma boa oportunidade para dar continuidade ao post «1001 Empregos - Para Portugueses! - Falar a Verdade...». Está a decorrer online um inquérito em que se pede a colaboração de todas as pessoas que emigraram dos países da União Europeia afectados pela crise. Se algum dos meus queridos e caras (ou caros e queridas, como queiram) leitores e leitoras se encontram nesta situação, respondam ao inquérito que não custa nada - se conhecem pessoas nesta situação (devem conhecer, quem não conhece?), divulguem. O enunciado, antes de ir ao ponto que quero focar, no capítulo dos mitos e mentiras da comunicação social:

Este inquérito é parte de uma pesquisa sem fins lucrativos, com o objetivo de compreender se e de que forma a crise atual tem afetado a migração e a mobilidade no conjunto da UE e, em particular, a Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal.
É parte de um projeto conjunto coordenado pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, incluindo ainda o Real Instituto Elcano, em Madrid, o Trinity College Dublin e a Universidade Técnica de Lisboa.

Os resultados e conclusões da pesquisa serão utilizados tanto para fins académicos como para recomendações políticas. Agradecemos o seu contributo para este esforço. O inquérito levará cerca de 15 minutos para ser preenchido.

Será estritamente respeitado o anonimato, todos os dados serão protegidos e nenhuma das informações que fornecer serão compartilhadas com qualquer outra pessoa, ou para qualquer outra finalidade para além deste projeto específico.

Se desejar ser informado dos resultados da pesquisa, pode inserir o seu e-mail no final do inquérito. Para obter informações adicionais, por favor contatar:

Prof. João Peixoto, ISEG/Universidade Técnica de Lisboa: jpeixoto@iseg.utl.pt

Agradecemos antecipadamente a sua colaboração.

Quem leia, escute, ou veja, as notícias nos jornais, rádios, ou televisões de Portugal fica com a nítida impressão que emigrar é um mar de rosas, basta comprar um bilhete de avião (só de ida), fazer as malas, embarcar, e há até um comité de recepção dos futuros emigrantes nos seus destinos - pronto, estou a exagerar, mas é quase isto. Vou ser muito breve: 

- Não é fácil encontrar trabalho, muito menos nas áreas de estudo, ou trabalhos que correspondam ao nível das qualificações académicas, especialmente se se tem um curso superior. O melhor, na maioria dos casos, é "ocultar" o excesso de qualificação. Falando de números, contas por alto, em cerca de 100 casos, de pessoas que conheço, com habilitações superiores, as da área de saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, etc) trabalham na sua área, a maioria em escalões inferiores, e mais três ou quatro pessoas de outras áreas, mas que não são a regra. Arquitectos, professores, engenheiros, animadores sócio-culturais, a trabalhar na agricultura, hotelaria (fazer camas, limpar quartos, etc), restauração, indústria (operários, não se animem demais), limpezas, etc, etc... Não vem mal nenhum ao mundo por isso, é apenas uma questão de verdade. O grosso da emigração não tem nada que ver com aquele indivíduo que vai trabalhar para a City, ou que desenvolve aquele projecto magnífico em New York. Obviamente a melhor maneira de encontrar trabalho é o networking.

- Na maioria dos trabalhos (qualificados ou não, por assim dizer), exige-se conhecimentos básicos da língua do país, e esqueçam o Inglês (nos países não-anglófonos); os emigrantes não vão todos trabalhar em investigação num Instituto ou Universidade. A realidade daqueles que emigram para os países de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Moçambique), desconheço-a. Aí a língua não será uma dificuldade, e os poucos casos que conheço conseguem trabalho nas suas áreas de estudo, ou que correspondem ao nível das suas habilitações.

- Quando se parte para um destino onde não se conhece ninguém, nem sempre é fácil encontrar alojamento (por vezes é bastante difícil), especialmente se não se tiver um contrato de trabalho (já nem falo dos países em que, para emigrar, é necessário um visto de trabalho, para o qual é necessário um contrato de trabalho). Claro que podem ir lá uma ou duas semanas de "férias", antes de emigrarem. Sim, porque emigrar é uma decisão que se toma de ânimo leve, e quem emigra, emigra porque lhe apetece. Não! Quem emigra, na maioria dos casos, está já numa situação de enorme fragilidade. Conhecer alguém no local de destino não significa que seja mais fácil arranjar alojamento, mas pelo menos tem-se onde ficar... e tem-se alguém que ensine como é que as coisas realmente funcionam, no dia-a-dia, e na burocracia das instituições... Eures e sites oficiais disto e daquilo são na maioria dos casos como em Portugal, são para Inglês ver...

Pergunta 33 do questionário: «Inscreveu-se no consulado do seu país de origem desde que se mudou para o seu novo país de residência?» Não, claro que não.