quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Crise e Empreendedorismo

Crise
Gráfico 1 - Crise (fonte)


Empreendedorismo
Gráfico 2 - Empreendedorismo (fonte).


Decidi agarrar na ideia que tinha expressa aqui, e tentar encontrar dados.Nestes gráficos apresento-vos os primeiros dados recolhidos. Os dados foram recolhidos do site do Diário de Notícias. O Gráfico 1 refere-se ao número de notícias com a palavra «crise», entre 2000 e 2013. Os dados de 2013 são uma estimativa, tendo em conta o números de notícias até ao dia 28 de Fevereiro, às 17h00. O Gráfico 2 apresenta o número de notícias com a palavra «empreendedorismo», entre 2004 e 2013. No site não aparecem dados relativos aos anos 2000-2003 para a palavra «empreendedorismo»... Portanto, daqui julgo que se pode concluir que a palavra «empreendedorismo» entrou no vocabulário corrente de jornalistas, políticos, e vendedores de banha de lagarto após a entrada em cena da palavra «crise». Claro que esta é uma análise muito superficial. Assim de repente, nas minhas reflexões, esta análise peca em dois aspectos: a palavra «crise» pode não se referir à «crise» em análise. Em 2009 e em 2011 houve subidas muito grandes no número de notícias com esta palavra. Provavelmente referem-se à «crise política». Foram anos de eleições. Um segundo aspecto: à pesquisa da palavra «empreendedorismo» deve juntar-se a pesquisa da palavra «empreendedor». Optei por não o fazer, pois muitas notícias podem estar duplicadas. Seria necessário fazer uma análise minuciosa de todas as notícias - em ambos os casos. Na pesquisa pela palavra «empreendedor» existem apenas 2 entre 2000 e 2003. Em 2004 há 78... Tirem as vossas conclusões e partilhem o que pensam... No Gráfico 3 (abaixo), fiz uma rápida comparação entre as notícias com a palavra «crise» e as notícias com a palavra «empreendedorismo»...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O meu Amigo matou-se: texto de Isabel do Carmo



Tinha empregados a quem tinha que pagar salários todos os meses. Tinha empréstimos ao banco, crédito a cumprir, letras. Tinha clientes que não pagavam, porque por sua vez não lhes pagavam a eles.
Os filhos trabalhavam, mas havia um apoio indispensável, por causa da precariedade e por causa de situações de doença.
O senhorio acabava de, em concordância com a nova lei das rendas, passar-lhe a renda para o dobro.
Tinha solução para esta espiral que todos os dias se agravava? Não tinha.
Declarava insolvência, renunciava a todos os pequenos bens, ia para a rua, abandonava pais e filhos ao destino? Claro, tudo é possível.
Mas a dignidade tem um preço.
Os amigos podiam ajudar? Muito pouco.

Texto de Isabel do Carmo. Texto Completo AQUI.

{Em Portugal, em 2009, houve um suicídio a cada 4 horas; em 180 dias houve mais mortes por suicídio que mortes por acidentes de viação no ano todo. Os dados, afirmam os especialistas, devem pecar por defeito, porque só são considerados aqueles que são dados como suicídio nas certidões de óbito. E os dados de 2010? E os dados de 2011? E os dados de 2012? - fonte.}
Talvez os indivíduos que nos governam se fiem demasiado nesta lição e tenham entendido que, num país com um desemprego galopante como o nosso, as pessoas estão tão ocupadas em imaginar um modo de sobreviver que não terão tempo para se opor ao constante acosso de que vão sendo vítimas. Mais preocupados em assegurar, ao menos, o jantar do dia seguinte, queremos lá saber se, em 2015, ainda haverá alguma coisa a que possamos chamar nossa e que não tenha já sido entregue à grande roda dos amigalhaços instalados, a troco de férias no Copacabana Palace e lugares em conselhos de administração.

Texto de Manuel Jorge Marmelo. Texto Completo AQUI.

5. Saúde pública
Ela entrou na nossa sala, como se fosse uma pequena ventania que se libertasse e disse: «eu e o Óscar, foi já demasiado tarde que nos apercebemos que ela não aviava na farmácia as receitas por inteiro. Agora sei que deitá-los de lá abaixo já não é só um objectivo político, tornou-se uma necessidade urgente de saúde pública».

Texto de Manuel Gusmão. Texto Completo AQUI.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Que se lixe a Troika! Tiago Rodrigues.

Que se lixe a troika, o povo é quem mais ordena, manifestação 2 de Março


Já que falamos em tragédias, na «Antígona» de Sófocles há uma cena em que Hémon, filho do rei Creonte, diz ao pai que, se ele quer governar sozinho, devia governar uma cidade deserta. Quando os portugueses olham para o seu governo é isso que pensam: este governo merece um país deserto. É isso que pensa o meu irmão enquanto continua a procurar um primeiro emprego onde possa dar uso à licenciatura que conquistou. É isso que pensa a minha amiga que trabalha a recibos verdes há mais de uma década. É isso que pensa a minha mãe quando faz as contas e percebe que a reforma não vai chegar. É isso que pensam os meus primos que emigraram para Angola. É isso que pensam muitos colegas meus, sem trabalho e sem subsídio de desemprego. É isso que pensa a minha avó quando espera dias para ter assistência médica na sua aldeia. E isto são só as pessoas que estão à minha volta, bem pertinho de mim. Cada um dos que continuou a ler este texto terá a sua colecção de escândalos para enumerar. Sejam as crianças de Elvas que vão à escola só para poder almoçar ou os trabalhadores desesperados nos estaleiros de Viana do Castelo, são muitos os dramas que nos empurram para a rua. E por isso é que acredito que são milhões os portugueses que também pensam que este governo merece um país deserto.

Texto de Tiago Rodrigues. Texto completo AQUI.

Curricula Vitae

Uma das coisas que faço, quando não tenho mais nada que fazer, é pesquisar o Curriculum Vitae de algumas «personalidades», algumas bem conhecidas, outras nem tanto. Tenho dado comigo a analisar o Curriculum Vitae até de pessoas que são apenas do meu conhecimento, e que de «personalidades», enquanto figuras públicas, nada têm. Fico abismado com a facilidade com que algumas pessoas se movem de uns lugares para outros, fico espantado com as funções, cargos, posições que acumulam. E sabem que mais? Já devem saber, mas eu vou dizer-vos novamente: o Curriculum Vitae é uma treta.

PSI 20: 2002-2012

Desde o agora longínquo ano de 2002 que a palavra «crise» entrou no vocabulário dos Portugueses - é uma expressão linguística, pois a palavra «crise» sempre existiu, está claro. Desde aí tenho imaginado para mim mesmo que seria interessante fazer uma estatística que contasse o número de vezes que a palavra «crise» foi escrita, por mês ou por ano, nos principais jornais Portugueses. Seria uma estatística tão inútil como outra qualquer. Em 2002, em que o PSI 20 parecia não querer parar de descer, muito lamentei não ter dinheiro para «investir» numas acções que chegaram a estar a 0,15€. Teria sido um investimento do catano! Poucos meses depois começaram a subir, até alcançarem valores superiores a 6,5€. Não tenho em mente o valor exacto, mas era superior a este. Teria ganho bastante. Mas eu não tinha dinheiro, nunca tive, nem nunca vim a ter. Estranho mundo este em que quem tem dinheiro pode ganhar muito mais dinheiro sem fazer rigorosamente nada. E quem não tem dinheiro, nem sequer tem trabalho para ganhar dinheiro... para sobreviver.

Entretanto, como podem ver no gráfico acima, o PSI 20, depois de ter subido, está agora - ou em finais de 2012 - a valores abaixo dos valores de 2002.

A minha década, ao contrário da do PSI 20, foi sempre a descer. Nem sequer tive subidas como as do gráfico. E continuo a descer - não sei até onde. Provavelmente até ser um miserável sem-abrigo. Olho para todos os lados - tento encontrar uma solução para a minha vida. Mas nada. Não tenho nada, nem ninguém. Não sei que fazer, nem para onde ir. Não tenho presente, nem vislumbro futuro. Apenas o «fim», ou um milagre. Em milagres não acredito, em mim já não encontro forças.

Curiosamente, a par da palavra «crise», houve outra cuja frequência de utilização cresceu - a par-e-passo, por assim dizer: «empreendedorismo». Se algum dia alguém se der ao trabalho de realizar o trabalho estatístico que referi, seria interessante comparar. Nem era preciso analisarem os jornais ao pormenor. Bastava utilizar os títulos das notícias. Outra coisa interessante seria verificar quantos anúncios «oficiais» do fim da crise já houve.

Camilo Lourenço - Um Inútil pago para dizer Inutilidades




Um inútil com olho - ou cunha, ou network - para o negócio muito provavelmente acaba por ser pago para dizer inutilidades. Este indivíduo, que não aponta uma única solução para um único problema, limita-se a vomitar lugares-comuns. Provavelmente queria estar no lugar doutro inútil. Mas mesmo entre inúteis a competição é feroz, e não há lugares para todos.

Maria João Branco, professora de História Medieval, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, lido no Aventar, dá-lhe resposta:

Também talvez alguém lhe devesse contar que, por exemplo, em Oxford consideram Economia o curso menos útil e mais estupidificante de todos. Até Gestão teve grande dificuldade em imperar, embora agora a Said Business School tenha bastante prestígio. O presidente de um dos colégios mais prestigiados era licenciado em Filosofia e foi o chefe do Tesouro da Thatcher durante vinte anos. Quando lhe perguntei como tinha feito para compreender as complexidades da Economias, olhou-me com espanto e disse-me: “- mas isso aprende-se em qualquer estágio de 3 meses, é uma idiotice passar anos a estudar uma coisa tão óbvia”. Os cursos mais valorizados para tudo, especialmente para o civil service, diplomacia o bolsa de mercados são, em primeiro lugar Clássicas e logo a seguir História, pela capacidade de compreender problemas complexos, equacionar dados múltiplos de forma crítica e produzir respostas e soluções inovadoras. Seria de pedir um comentário a este senhor, sobre esta e outras realidades de países com bastante tradição em eficiência e profissionalismo?

Luís M. Jorge, no Declínio e Queda, há muito que lhe tirou o retrato:

Entre as luminárias do regime resplandecem os espíritos sempre airosos dos Camilos Lourenços. Enquanto outros encontram dificuldades, os Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação. Há dividas? Paguem-se. Há despesas? Cortem-se. Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos. Há desemprego? Emigrem. Há pobres? Trabalhem. Há fome? Comam brioches. Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas. Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais. Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis. Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se. Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.

O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião. Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.

Carlos Azevedo, no The Cats Scats, publica um poema de Gonçalo M. Tavares, O Desempregado com filhos; É um retrato fidedigno daquilo a que chegamos. Os Camilos Lourenços deste país dirão simplesmente, sem um estremecimento: esgotou a sua utilidade económica.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

O Desempregado com Filhos, de Gonçalo M. Tavares.

O «Caos Político» Italiano

M. C. Escher, Estrela, Caos
Desenho de M. C. Escher


«Caos» é a palavra utilizada na actual política europeia para dizer que um resultado eleitoral não vai de encontro a nenhum arranjo esperado pelo sistema. Quando os burocratas europeus querem um resultado, e o resultado é contrário ao esperado, estamos a caminho do «caos», dizem. Se na Grécia não ganha quem eles querem, isso é «caótico», tem que haver novas eleições. Se em Itália não ganha quem eles querem, isso é «caótico». Se o resultado num referendo na Irlanda (que apenas se realiza por imperativos constitucionais) é contrário às aspirações do sistema, isso é caótico. Repitam-se eleições e referendos até que os burros dos eleitores votem no que é «certo». Porque só é «governável» aquilo que vai de encontro aos interesses instalados.

«O caos é uma ordem por decifrar»... dizia José Saramago. Há por aí alguém que decifre as opções que a Europa tem vindo a tomar?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

I Need a Job*

Jobless, Job, Unemployment, Trabalho, Desemprego, Travail

O título do post é em Inglês como os anúncios de emprego em Portugal. Mesmo que em inglês seja apenas o título do anúncio - quase sempre o nome da função, que assim resulta em algo mais pomposo ou simplesmente estrambólico: personal responsible armazém. Sales promoter, ou a versão lusa: promotor de vendas. Manager disto e daquilo.

Agora a sério, se houver por aí alguém que me queira levar para Angola, como na música, Moçambique, Cabo Verde, ou Brasil... Aqui já não há vida. E a minha, que sempre foi difícil, está cada vez mais complicada.

Vítor Gaspar.







  • Despesa com subsídio de desemprego: 255,9 milhões de euros, mais 33% que em Janeiro de 2012, mais 1,2% que o previsto pelo governo;
  • Contribuições para a Segurança Social caíram 2,5% (o governo previa uma subida de 1,3%);
  • A receita com impostos directos caiu 3,8%.

Perante isto a minha dúvida é esta: estuda-se Matemática nos cursos de Economia? Pelo semblante de Vítor Gaspar parece-me que não. Faz-me lembrar um estudante a olhar estupefacto para o quadro, como quem pergunta para si mesmo, mas não o quer deixar transparecer: «o que é que é isto?»

Heineken - The Candidate




Não sei se já conhecem este vídeo. A Heineken decidiu realizar um processo de Recrutamento & Selecção inovador, com uma Entrevista original. Estratégia de Marketing? Talvez. «Todas as Entrevistas são iguais. As mesmas perguntas. As mesmas respostas.»

As 10 perguntas mais frequentes numa entrevista de emprego:

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Que se lixe a Troika! O Povo é quem mais ordena! Queremos as nossas vidas!

Que se lixe a troika


Não podemos deixar que nos matem, nos roubem esta felicidade de estarmos vivos e juntos, não podemos adiar a nossa vida, não queremos esta vida assim, queremos apenas ser amigos uns dos outros — e livremente pensarmos e livremente viver. É difícil. Mas queremos, e assim faremos tudo para deitar abaixo quem nos impede a vida e essa coisa a que chamamos amor.

Podem ler os textos de várias pessoas AQUI. Seleccionei este, de Jorge Silva Melo, porque vai directo ao essencial. Não sou economista, não sou empresário, não tenho capital para empreender seja o que for, não sou político (também não sou apolítico), mas não é preciso sê-lo para constatar que este não é o caminho

Não confio em sondagens (se continuarem a ser feitas como no tempo em que participei na realização de sondagens - e já na altura era um problema - elas só podem ser enviesadas: a amostra que conseguíamos nunca era representativa da população: a população abrangida era quase sempre de uma faixa etária elevada - aqueles que estavam em casa, para atender o telefone - e o telefone fixo ia sendo abandonado. Desconheço a taxa da população que tem hoje telefone fixo, embora com essas promoções de televisão e internet por cabo que oferecem telefone, talvez o cenário previsto há uns anos tenha entretanto sofrido uma reversão); não confio em sondagens, não sei se há alguma que diga fidedignamente qual a percentagem do povo português que apoia este governo - e ainda que um governo não esteja vinculado a nenhuma espécie de sondagem - este há muito que perdeu toda e qualquer legitimidade. 

Há muito que rasgou o programa com que se apresentou a eleições - pelo menos o escrito. Porque o seu verdadeiro programa, acredito que o está a seguir à letra. Este governo não tem uma única proposta, um único objectivo para o país e para as pessoas que o habitam. Em nenhuma área. Portugal é governado por liquidatários financeiros cujo objectivo é pura e simplesmente salvaguardar o mais possível para os seus donos. Não existe uma estratégia para salvar o país. Não existe, nem nunca existiu por um único instante. Este não é um governo que falhou - é um governo que tinha como único objectivo falhar. Porque falhar - do nosso ponto de vista, do ponto de vista do cidadão comum, das pessoas, do povo - é aquilo que vai de encontro aos objectivos destes mercenários financeiros. A eles não lhes importa quantas pessoas - crianças, velhos, jovens, mulheres, adultos, pais, mães, irmãos, primos, sobrinhos, netos, avós, afilhados, amigos, namorados, etc, etc, etc - a eles não lhes importa quantas pessoas são atiradas para o desemprego, pobreza, miséria, desespero, suicídio.

Podia dizer que para este governo as pessoas não passam de números. Porém, para este governo as pessoas nem sequer representam a pouca dignidade de um número. Os únicos números que importam a este governo são os números que consegue sacar da boca de crianças famintas, os números que consegue tirar dos bolsos de famílias esfomeadas, os números que consegue roubar da carteira de pessoas com a corda ao pescoço. Este governo não é um governo do povo, nem para o povo. Não é, portanto, um governo democrático. Este governo não é um governo incompetente que nos conduz para o abismo; este governo é um governo que nos empurra para o abismo. Sob o olhar atento, vigilante, e aprovador de um presidente da república que faz parte da quadrilha. E com as alas abertas pela oposição cúmplice do massacre.

Manuel Alegre: “Fico espantado com as posições de alguns socialistas”


Manuel Alegre: «Fico espantado com as posições de alguns socialistas». Também eu, Manuel Alegre, permite-me tratar-te por tu, que eu trato toda a gente por tu, que é assim que se conjugam os verbos em Português. Se te tratasse de outra maneira - aí sim, estaria no mínimo a ser irónico. Também eu, dizia, fico espantado, embora nada me espante. Fico espantado com a posição do Vítor Constâncio no Banco Central Europeu, fico espantado com a posição do José Sócrates na Octapharma, fico espantado com a posição do Almerindo Marques na Opway, fico espantado com a posição de Jorge Sampaio, e com a posição de António Guterres, na Organização das Nações Unidas... Fico espantado como é que tanto incompetente chega a tantas posições cimeiras em organizações públicas, privadas, nacionais, internacionais, e assim-assim... Quanto às posições a que te referes, caro Manuel Alegre, ficas espantado... ficas espantado porque cometes o erro de lhes chamar «socialistas». O cartão de militante não faz deles «socialistas».


Post-Scriptum: apoiei Manuel Alegre nas suas duas candidaturas à Presidência da República, porque era, para mim, o melhor candidato, e porque ser escritor e poeta é sempre um ponto a favor.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Álvaro Santos Pereira, grândolado.

Álvaro Santos Pereira


Álvaro Santos Pereira é o único membro deste governo em quem ainda consigo acreditar e com quem ainda consigo concordar. Primeiro, porque diz lugares-comuns: o que não é necessariamente mau, mas é manifestamente pouco. Limita-se a dizer o óbvio, mas não vai além disso. A um ministro não basta apontar o que foi mal feito - tem que apresentar projectos, soluções, caminhos. Segundo, porque é difícil discordar com alguém que raramente é ouvido a emitir opiniões. O que me leva a perguntar o que é que ainda está a fazer neste governo? Quanto a mim apenas está a prejudicar-se a si mesmo (e à sua imagem). O mesmo que acontecia com Francisco José Viegas - caso ainda pior, em meu entender, por ter sido logo à partida despromovido a Secretário de Estado, naquela ridícula encenação de Pedro Passos Coelho a fingir que também neste governo haveria redução de efectivos (enfim, um governo pequeno em todos os sentido, portanto). Talvez esteja preso por este paradoxo: embora cada dia a mais no governo seja prejudicial para si, demitir-se é admitir a incompetência para a função que aceitou - o que também o prejudica. Francisco José Viegas saiu com uma doença conveniente (não sei se existia mesmo, e espero que esteja tudo bem), Álvaro Santos Pereira podia forçar o mal-estar: impôr-se num governo que desde o primeiro instante o silenciou. Ou era demitido por Pedro Passos Coelho, mas podia salvar a sua imagem se soubesse explorar a situação - ou mostrava o que realmente valia (pois ainda acredito que valha alguma coisa)*. O país está necessitado de alguém que valha alguma coisa - não desses parasitas que se valem do país. 

Entretanto, também foi grândolado - palavra que é forte candidata a palavra do ano.

*Ideal, claro, era ir-se o governo embora. Problemático é não se conhecer ninguém em Portugal com competências para tirar o país do charco em que se encontra; enfim, um povo que nem se sabe governar, nem se deixa governar...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

As avestruzes de Direita com a cabeça enfiada na areia


Em defesa das avestruzes que, coitadas, nada têm que ver com a cambada pretensamente de direita e pretensamente de esquerda, que entre si se reveza no poder, como no jogo em que se corre à volta da cadeira, direi que as avestruzes não enfiam, nem enterram, a cabeça na areia. E direi mais: que a carne de avestruz é para mim a melhor carne que até hoje tive oportunidade de comer. A título de curiosidade, se quiserem saber, depois da avestruz, a carne de que mais gosto é a de cavalo; seguida da de peru, a que se segue a de galinha. Por fim carne de porco, e carne de vaca. Dispenso coelho, cabrito, javali, e esses petiscos todos. Não sou grande apreciador de carne. 

As avestruzes de direita - espero pelo dia em que estas aves que chegam a atingir 80km/h não tenham mais para onde fugir - as avestruzes de direita lembram-me os padres e freiras católicos que atiram o epíteto comunista contra quem não vai nas suas cantigas de embalar idiotas. As avestruzes de direita lançam o epíteto comunista contra quem se lhes opõe, por palavras, manifestações, greves, berrarias, má educação, o que queiram, como quem atira uma pedra a um cão vadio.
Os cães vadios, senhoras avestruzes de direita, podem fugir a maior parte das vezes, podem só ladrar ao longe, mas quando mordem, quando ferram, senhoras avestruzes de direita, o melhor é não terem as vossas cabecinhas cheias de areia enfiadas na dita - na dita areia. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Portugal, Corruptocracia ou Cleptocracia?

Portugal: a bandeira ao contrário deixou de significar uma falta de respeito pelos símbolos da República
para passar a simbolizar as quadrilhas que se revezam no poder.





Portugal, lugar das nossas desilusões, frustrações, sonhos atirados para um canto, beco sem saída dos nossos projectos - pessoais, familiares, profissionais -, caixote do lixo do nosso futuro, é um território a que apenas resta o clima aprazível que a maior parte do ano se faz sentir. Governado por redes de corruptos e ladrões, feita de interesses, negociatas, arranjinhos, e que se digladiam por um posto no poleiro a que se agarram com unhas e dentes, com a força feroz de um animal que luta por uma presa. A presa são a maioria dos Portugueses, muitos deles inconscientes do seu estado de presa, outros dóceis vítimas que respeitam os carrascos (Sartre dixit), outros ainda fiéis defensores dos seus captores (reféns que defendem os seus sequestradores, esperando obter a sua benevolência - Nils Bejerot dixit). Outros que restam, fazendo claque por um ou outro ladrão que sobe ao púlpito, fazem ou querem fazer parte da rede, de uma qualquer rede daquelas que sem apelo nem agravo pesca os Portugueses, e deles se alimenta. 

Miguel Relvas foge aos protestos no ISCTE (Completo)



Como é possível que uns incompetentes destes se mantenham em funções? Qual é a função de um Governo, afinal? Um país/ povo que está não à beira, mas na mais completa miséria. Com o número real de desemprego a rondar os 25%, com a pobreza a atingir, pelo menos, 3 milhões de Portugueses (um terço da população), com a desigualdade a aumentar de forma galopante (os ricos mais ricos, os pobre mais pobres), com milhões de Portugueses sem acesso aos cuidados mais básicos - sem acesso a alimentação!
Enfim, com previsões, estatísticas, projectos, anúncios - dia após dia falhados. Um governo sem visão, sem soluções, sem nada - nada para além de manter-se a todo o custo ao leme de um navio que está a afundar: não para o tentar salvar, mas para garantir o saque. Como é que é possível?!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O meu sonho.

Máquina de Escrever, Typewriter, máquina de escribir, machine à écrire
Sonhar é bom quando sonhar não é a única coisa que te resta...

*Imagem escandalosamente larapiada do facebook da minha amiga Ev Cash.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Robbie H. Rogers: out of the closet

Robbie H Rogers, Out of the Closet, Football Player


The Next Chapter…

Things are never what they seem… My whole life I have felt different, different from my peers, even different from my family. In today’s society being different makes you brave. To overcome your fears you must be strong and have faith in your purpose.

For the past 25 year I have been afraid, afraid to show whom I really was because of fear. Fear that judgment and rejection would hold me back from my dreams and aspirations. Fear that my loved ones would be farthest from me if they knew my secret. Fear that my secret would get in the way of my dreams.

(...)

Now is my time to step away. It’s time to discover myself away from football. It’s 1 A.M. in London as I write this and I could not be happier with my decision. Life is so full of amazing things. I realized I could only truly enjoy my life once I was honest. Honesty is a bitch but makes life so simple and clear. My secret is gone, I am a free man, I can move on and live my life as my creator intended.

Texto completo no blog de Robbie H. Rogers.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Vira o Disco e Toca o Mesmo*


*Convém, de quando em quando, experimentar novas posições sexuais. Isto de ser sempre o mesmo a ser lixado com éfe grande torna-se monótono - para não dizer cansativo. Apanhaste a dica, Pedro Passos Coelho? Eu sei que não - mas também sei que tentar explicar-te seria apenas gastar o meu parco Latim.

Visto no Tugaleaks.

Ainda há alguém por aí?

© Fotografia de Daniel Rodrigues

Daniel Rodrigues ganhou prémio World Press Photo com foto tirada na Guiné-Bissau. Desempregado desde setembro, foi obrigado a vender os seus instrumentos de trabalho para se sustentar. (Notícia Visão)

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Ainda há alguém por aí?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Plantar Batatas...



Em conversa um amigo diz-me «Sim, andaste a estudar para ires plantar batatas, agora...» 

O problema, amigo, é que nem sequer a plantar batatas tenho futuro - embora já as tenha plantado algumas vezes...

O verdadeiro motivo da renúncia do Papa

Pope Benedict XVI, Papa Bento XVI, Renúncia, Lotto, Loto, 1, 3, 10, 12, 23, 28, 6, O verdadeiro motivo da renúncia do Papa


1-3-10-12-23-28+6
Num calendário de 2013, que já estava pronto desde Agosto de 2012, a folha de 10.02.2013 tinha um cartoon onde se via o Papa a ganhar o totoloto e a dizer "Santíssimo Caramba! Amanhã despeço-me!" (fonte)

E não é que o Papa se despediu mesmo!? Estranha coincidência? Que pensam disto?

É desta que eu desisto de jogar no EuroMilhões, Totoloto, Joker, Lotaria, Raspadinha, SwissLotto...

Notícia Spiegel Online (em Inglês)

A minha Vida numa Imagem, 5

The Wounded Angel, Hugo Simberg
The Wounded Angel, de Hugo Simberg

The Wounded Angel é um quadro de Hugo Simberg, de 1903. Hugo Simberg foi um pintor simbolista finlandês. Mas que simboliza o quadro? Hugo Simberg recusou-se a dar qualquer explicação, deixando a cada pessoa que o observa a possibilidade de fazer as suas próprias interpretações - possibilidade que existiria de qualquer modo. O que vejo? Um anjo cego, ferido, transportado por duas crianças precocemente adultas, não se sabe de onde, nem para onde. Aquilo que primeiro atrai a minha atenção é o olhar do rapaz da direita, um olhar simultaneamente triste, melancólico, e agressivo, acusador. Alguém resignado que expressa a raiva que leva dentro de si. Ambos parecem caminhar sem convicção. Caminham porque só lhes resta caminhar; caminham sem parecer que conheçam o caminho que percorrem, aonde conduz, qual o fim... Caminham, porque pararem não é solução - mas caminham sem vislumbrarem outra solução que não seja caminhar na esperança que surja uma solução. E o anjo? O anjo parece esperar. Como se estivesse sentado na cadeira de um consultório aguardando que o chamem, preparado para se levantar a qualquer instante - se alguém o chamar. Eis o retrato de uma geração - ou duas, ou três, ou...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

2 anos...

2 anos, segundo aniversário

O parto deste blog foi um parto difícil. Tinha deixado de escrever no meu antigo blog, como já tinha abandonado outros antes: em breve terão passado 10 anos sobre a primeira vez que abri um blog (sinceramente já nem me recordo dos nomes deles todos, entre blogs individuais e blogs colectivos - mas sim, sei o nome e endereço do primeiro: endereço que já foi ocupado por outra pessoa, mas nada lá tem escrito, actualmente). Não vale a pena dizer o quanto Portugal e o mundo mudaram nestes 10 anos. Por natureza sempre fui bastante céptico (não confundir com pessimista - embora também seja mais pessimista que optimista, e cada vez mais: mas para isso basta abrir os olhos), mas nunca pensei que chegássemos a este ponto - fazer análises sobre o que se está a passar é um exercício meramente fantasista; todos esses visionários e utopistas que ganham a vida a fazer análises e descrições, a aventar motivos, causas, consequências, e previsões, pouco passam de charlatões - ainda que na melhor das intenções. É um problema de história: ela só se pode escrever depois de ter acontecido. Sim, a história não se faz, escreve-se. Todos aqueles que dizem fizemos história não passam de egos inflacionados, cujo destino mais provável é serem apagados pela história.
Como disse, foi um parto difícil, o parto deste blog. Era para ter começado dia 11 de Fevereiro de 2011, mas como não tinha à mão o poema com que o queria começar, o poema And death shall have no dominion, de Dylan Thomas, só o comecei efectivamente a 12 de Fevereiro. A morte pode não ter domínio - mas no fim vencerá sempre. É um jogo viciado.

No primeiro aniversário as estatísticas eram estas:

284 posts, 669 comentários, 27.935 visitas (sitemeter), 58.005 pageviews (blogger), 71 seguidores (blogger), 260 amigos /seguidores (facebook).

Agora são estas:

555 posts, 1456 comentários, 82.078 visitas (sitemeter), 170.165 pageviews (blogger), 120 seguidores (blogger), 382 amigos/ seguidores (facebook).


Obrigado a todos que por aqui passam.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Padre António Vieira

Padre António Vieira

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai pagar a edição da obra completa do Padre António Vieira. 500000€ será o valor dado pelo generoso mecenas para a publicação de 30 volumes. Não sei se estes 500000€ são apenas para a edição ou se também incluem gastos com a equipa luso-brasileira que está a trabalhar no projecto há 5 anos. Suponho que não, que seja apenas para a edição*. Se forem publicados 1000 exemplares** de cada volume, fica cada exemplar na módica quantia de 16€60***, mais cêntimo menos cêntimos - isto para dizer o quê? Que a cultura é um luxo, pois claro. Mas o que é que não é luxo nestes tenebrosos tempos que vivemos? Afinal, os Roncadores, os Pregadores, os Voadores, e o Polvo são os mesmo de sempre, iguais a si próprios - podíamos esperar outra coisa?

Pode ser que eu me engane - pode. Pode ser que sejam publicados 10000 exemplares de cada volume - e então o custo por exemplar já ficaria em números razoáveis: 1€60, mais cêntimo menos cêntimo. Mas conhecendo a soberba dos roncadores, a parasitagem dos pregadores, a presunção dos voadores, e a traição do polvo - não acredito. Não se vai financiar a publicação de uma obra desta importância para a tornar acessível: isso iria ferir o orgulho dos roncadores, os parasitas onde iriam pregar?, a ganância dos voadores sairia insatisfeita - e o polvo seria desmascarado. Enfim, engane-me ou não, sejam os 30 volumes uma edição de luxo ou não - o certo é que a carapuça do Sermão de Santo António aos Peixes não entrará nas suas cabeças - o ego não deixa - ou pode ser que, como um balão demasiado cheio, um dia rebente - ou lhe espetem um alfinete.

*Afinal os bolseiros, mestres, e doutores já são pagos pela bolsa - ou pelas instituições para que trabalham, ou não?
**A maioria das edições em Portugal não deve andar longe deste número.
***Ao generoso apoio da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa há que juntar o apoio de outras instituições (logo veremos quais) - da Universidade de Lisboa - e do Circulo de Leitores...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sede de Viver, de John Joseph "J. R." Moehringer, Jr.




Há muitos anos que não compro um livro que me seja completamente desconhecido, pelo título, pela capa, pelo nome do autor, pela sinopse, seja por que motivo for. Os trocos são rigorosamente contados - e há muitos livros em lista de espera. É verdade que comprei Les particules élémentaires, de Michel Houellebecq - mas isso foi para ir lendo qualquer coisa em Francês - e para ver in loco se o barulho que fazem à sua volta tem algum sentido. E como o título da comédia de William Shakespeare, só me apetece dizer: Much ado about nothing. Este - A Sede de Viver - podia inserir-se nessa categoria de livros comprados como quem parte sem destino, à descoberta. Podia - mas não foi comprado. Ganhei-o, a este e a mais três, numa promoção - ou concurso - da Editorial Presença, no facebook. O catálogo actual da Editorial Presença pouco tem que ver com os meus gostos pessoais - e as ofertas destas promoções são sempre muito limitadas. Os outros três são policiais - e os policiais são para mim - no contexto dos livros - como as guloseimas para as crianças: como quantas estiverem à mão até ficar com dor de barriga - ou cáries nos dentes - e depois passam-se meses em que não toco em nenhum. Do que eu gosto mesmo é de bifes de cavalo. 

Sede de Viver - o título original soa-me muito melhor: The Tender Bar - a Memoir - estive a ler por aí que é um livro de memórias que podia ser um romance, ou um livro de memórias que também é um romance, ou um livro de memórias romanceadas. Não sei, ainda não li. Vou começar agora. De entre os que tenho comigo para ler - daqueles que trouxe de Portugal - este foi o único que veio pelo título. Portanto é uma semi-aventura. A sinopse diz assim: «Um belíssimo livro de memórias, que é também um retrato vivo de uma América no rescaldo da guerra do Vietname. A figura nuclear deste romance autobiográfico é um bar em Long Island, onde o jovem J. R. encontrou um sucedâneo da figura do pai ausente. Durante a sua infância e adolescência, o autor testemunha a interacção diária de todo o tipo de homens - soldados, jogadores, polícias, advogados, vagabundos - que falam de tudo, desde basquetebol, história ou livros, até sexo e relacionamentos. E embora as conversas se inflamem com o álcool, é lá que Moehringer aprende sobre a vida e encontra modelos para formar a sua própria masculinidade, assim como um extraordinário sentido de amor e comunidade. É lá que voltará depois, já adulto, para se retemperar das duras batalhas da vida.» (fonte)

Também eu tenho sede de viver - quem não tem? - e vou para os bares e cafés beber um pouco da vida. Se o livro for uma desilusão - ao menos isto: «Onde não há mar, o coração desencadeia/ as suas próprias marés» - Dylan Thomas, em «Light Breaks Where No Sun Shine». E como vocês sabem - não sabem? - o Dylan Thomas é um dos meus dilectos: Though lovers be lost love shall not...

O Vendedor de Passados


É Portugal que está cada vez mais parecido com Angola, ou Angola herdou tudo isto que se conta n' O Vendedor de Passados de Portugal? E ai de quem não queira (re)escrever passados e presentes à maneira deles...


(Não há por aí nenhum vendedor de futuros? Ah, pois - esqueço-me que não tenho dinheiro para pagar... Se por acaso houver por aí alguém com um futuro a mais, que me possa emprestar a fundo perdido...)

memórias pequenas #7

Tínhamos uma caixa mágica; uma promessa; e uma frase de código: comunicávamos numa linguagem só nossa, em que as palavras tinham uma conotação própria, uma conotação íntima, uma conotação afectiva. Quando falávamos de uma coisa qualquer era de outra coisa qualquer que falávamos. Um dia destes lembrei-me de ti (bem sei que é mentira, que para nos lembrarmos de alguém, antes precisamos de nos esquecer): no dia de anos do director do colégio havia uma festa (ainda há? suponho que sim); naquele tempo a festa era à noite - depois mudou, passou a ser à tarde - talvez tenha sido o último ano que foi à noite - era uma festa de culto da personalidade - coisas de fascistas - mas nós desconhecíamos o significado de tal palavra - e fomos jogar às escondidas. Lembrei-me de ti porque era o dia de anos do director do colégio* e, chorando por dentro, por dentro apenas, só consegui perguntar-me: Porquê? Porque é que tinhas que morrer? Se eu acreditasse num significado transcendente para tudo isto, pedir-te-ia para que me respondesses lá de onde estás. Mas eu não acredito nisto - nem em nada. E ainda assim não deixo de esperar uma resposta.


*5 de Fevereiro

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Primeiros Parágrafos. Na Colónia Penal.

Se tivesse aqui comigo o meu exemplar de Os Contos de Franz Kafka publicava aqui no blog o conto Na Colónia Penal na íntegra. Os direitos de autor já são do domínio público, portanto não haveria problema. Tentei encontrá-lo na Internet, que é como quem diz googlá-lo, mas não consegui nada. O melhor que encontrei foram primeiras páginas e primeiros parágrafos. Nunca hei-de entender o porquê de tantos bloggers se darem ao trabalho de copiar os primeiros parágrafos para os seus recantos virtuais - aquilo é publicidade remunerada, encapotada ou é mesmo saloiice? - exceptuando um caso ou outro, milhares de posts não se justificam e são iguais a outros tantos milhares: a capa do livro e o primeiro parágrafo. 
Rio-me muito com os primeiros parágrafos destes bloggers que não têm mais que fazer - exactamente como este que vos escreve, mas vamos fingir que não - rio-me porque muitos não sabem o que é um parágrafo. Rio-me porque não sei qual é o interesse - ou que interesse numa obra podem despertar - dizia, qual é o interesse de revelar aos visitantes parágrafos que muitas vezes consistem numa única frase, outras vezes até numa única palavra. Meus caros, só existe um primeiro parágrafo com interesse. E foi escrito por Leo Tolstoi.
Enfim, isto porque não encontrei o conto completo, só encontrei primeiros parágrafos e primeiras páginas, e como não tenho o meu exemplar de Os Contos comigo, não posso publicar o conto aqui. Se puderem vão lê-lo. Vão lê-lo antes de começarem a acompanhar A Colónia, uma novela de Filipe Nunes Vicente, escrita em capítulos hebdomadários, sobre um país em 2018. Qualquer semelhança com o Portugal futuro ou com a colónia penal antiga, de Franz Kafka, poderá não ser coincidência. É: quando leio George Orwell ou Franz Kafka chego a acreditar que temos políticos cultos: há momentos em que me parece que nos intervalos do cacique aparelhista-político-(bi)partidário os tipos dedicam umas horitas à leitura. Ignorantes e mal-intencionados, entendem tudo ao contrário...

P.S. Se por acaso alguém tiver por aí o conto completo em .pdf ou .txt...