domingo, 22 de dezembro de 2013

António Lobo Antunes. Amizade. Amor. A Chave. Crónicas.


Quinto Livro de Crónicas, António Lobo Antunes

(...) O Zé [Cardoso Pires] tinha uma relação muito angustiada com a escrita. Uma vez, virou-se para mim, com uns olhos esquisitos: «Os meus livros não são assim tão maus, pois não?» E estava a ser profundamente sincero. E ele, que era um homem duro, parecia um miúdo. 

Tinham uma grande cumplicidade?
Eu compreendo a infidelidade no amor, mas não a compreendo na amizade. E o Zé tinha uma enorme fidelidade na amizade. Com 15 anos comprei o livro O Anjo Ancorado e mostrei-o ao meu pai. E ele: «Um homem chamado Pires não pode ser um bom escritor.» Mais tarde, numa entrevista, falei nisso. Conheci-o no aeroporto e ele disse: «Eu sei que sendo Pires não posso ser bom escritor mas tu és e gosto muito de ti.» E foi assim: instantâneo e absoluto como o amor.

E porque é que entende a infidelidade no amor?
No amor, o ciúme é normal, e até posso aceitar o sentimento de posse. Na amizade, isso não existe, os nossos amigos têm outros amigos, e nós aceitamos isso. Mas talvez não sejam sentimentos tão diferentes... Para mim, a amizade é completamente assexuada, não sou capaz de sexualizar uma amizade, nunca fui, mas no amor às vezes também não. Porque o amor é tanto, que a gente fica sufocada de paixão e nem pensa em sexo, ficamos a olhar apenas, só o privilégio de poder estar a olhar... e existe aquela sensação de que se tocar vou estragar, porque posso fazer ali uma nódoa, um amolgão, qualquer coisa... Ultimamente, acho que é uma honra tão grande estar vivo... E um acaso...

(...) A amizade é como o amor, a gente encontra uma pessoa e fica amigo de infância. E o Zé [Cardoso Pires] faz-me muita falta. Ele dava-me o braço na rua, um homem seco e rugoso, com uma personalidade difícil, dava-me o braço na rua... imagine. Ele tinha gestos de uma infinita generosidade... Sempre que um pedinte o interpelava, ele, sempre com tão pouco dinheiro, parava e andava à procura nos bolsos... e dava.

Escreveu: «Ainda não aprenderam a ler-me. Tentam abrir a porta com a chave que trazem no bolso, pequenina, estreita. E surpreende-me que não vejam que basta empurrar com um dedo.» Não se sente bem lido?
Os bons escritores ensinam-nos a lê-los. As primeiras vezes que li Conrad achava aquilo muito complicado e percebia mal. O problema não era dele, era meu. Que estava a ler aquilo com a minha chave, com os meus valores, com as minhas noções... E não estava a deixá-lo levar-me para onde eu tinha de ser levado... Ontem, estava a ler a história da Literatura Inglesa a partir de Dickens, e os Ingleses são tão diferentes dos Portugueses a falarem de Literatura, tão mais profundos, com uma aparente simplicidade nos termos, na forma como expõem... Nós, Portugueses, parece que arranjámos uma metalinguagem... Quem somos nós para julgar?

Mas já citou Joyce, dizendo que gostava de «dar trabalho aos críticos por 500 anos»...
Fico sempre insatisfeito - até que ponto é possível falar sobre um livro? Posso dizer gostei, mas nós confundimos ideias com paixões: há livros que sei que são bons e de que não gosto. Não gosto do Musil e do Thomas Mann, mas sei que são bons. Há outros que são maus e de que gosto...

É uma questão de charme?
Um livro de que eu goste tem que ter charme e o Musil não tem charme nenhum... Ler um livro bom é uma alegria tão grande. Por isso, eu não entendo a inveja e a rivalidade entre escritores, porque isto não é nenhum desporto de competição. Não faz sentido a inveja na arte.

Excertos de entrevista a António Lobo Antunes, por Ana Margarida de Carvalho (Revista Visão, n.º 1085, 19 a 25 de Dezembro de 2013).

Ainda não encontrei a chave certa nos meus bolsos - e farto-me de empurrar a porta, mas os romances de Lobo Antunes continuam na estante à espera da sua vez. Contudo sempre gostei muito das suas crónicas. Talvez tenha que começar pelo princípio - só tenho romances de Lobo Antunes posteriores a 1996 - Manual dos Inquisidores - foi o primeiro que comprei - e a meio estava tão aborrecido que tive que o arrumar na estante. Voltei a insistir várias vezes, com outros romances posteriores, mas cada vez que insistia me aborrecia mais depressa. Com O Arquipélago da Insónia (2008) desisti de insistir - até porque os bolsos andam quase sempre vazios. Um dia talvez tenha a oportunidade - o tempo e o dinheiro - para regressar a 1979 e começar com Memória de Elefante ou Os Cus de Judas, que tem um título mais interessante... até lá vou lendo crónicas e entrevistas.

Desejo um Feliz Natal (pese embora a quadra não me diga nada de especial...) a todos que por aqui passam - com muita amizade, amor, e um bom livro para ler.

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