quarta-feira, 6 de novembro de 2013

J. Rentes de Carvalho sobre "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo

Os Idiotas, José Rentes de Carvalho, Rui Ângelo Araújo, Texto Apresentação

Já devia ter escrito aqui a minha impressão - a pintura instantânea daquilo que a leitura de Os Idiotas suscitou no meu pensamento - mas não ando com disposição para nada, como a minha ausência do blog pode comprovar, e tenho um artigo atrasadíssimo para o homo literatus que já vai quase nas 3000 palavras, mas que quanto mais cresce mais parece estar incompleto. Adiante - não me canso de repetir que a leitura de Os Idiotas, de Rui Ângelo Araújo, devia ser de leitura obrigatória - deixo aqui o texto de J. Rentes de Carvalho, aquando da apresentação do livro na livraria Traga-Mundos:

«Um especialista em gerontologia que me conhecesse, e me encontrasse aqui, teria motivo de preocupação. E ouvindo o que vou afirmar, talvez não chamasse logo o 112, mas de certeza abanava a cabeça, pois a repetição é indício seguro da falta de memória e, como sabem, um dos sintomas graves da degenerescência mental, e prenúncio de senilidade.
Contudo, antes de tocar esse melindroso ponto, deixem que me atrase a fazer umas breves considerações a respeito de um assunto que me interessa, e o qual, embora indirectamente, é também a razão deste encontro.


Ao contrário de para a maioria dos presentes, talvez todos, a literatura portuguesa contemporânea é, para mim, a que abarca o longo período dos anos trinta do século passado até hoje.
O acaso das circunstâncias da minha vida e da minha formação, levou-me a encará-la com um misto de estranheza e surpresa, pois quando na adolescência entrei em contacto com os romances neo-realistas dos autores então considerados grandes, não exagero se disser que sofri um certo abalo.
Fernando Namora, Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca e os seus pares, eram tidos como a fina-flor da nossa literatura, sumidades de indiscutível merecimento, não fora o serem mais do que incensados pela prestigiosa Oposição, pelos que daí tiravam proveito, ou a esses louvores eram obrigados.
Li-os, sofri, calei, achei-me um pária.
Além de que o meu parecer nada valesse, e a ninguém interessasse, era mal avisado ir contra a corrente. Mas fui. E paguei o preço do inconformismo, do que não me arrependi então, nem depois.
Acontece que, entre outras razões que tinha, e muita curiosidade de aprender, de descobrir, a respeito da escrita e da nossa língua, eu há tempos me abismava com Fernão Lopes, Camões, Vieira, Frei Bartolomeu dos Mártires, Bocage, Eça, Fialho, Oliveira Martins, Camilo, não esquecendo os muitos jornalistas e comentadores, que no tempo da minha juventude escreviam primorosamente.
Comparados aos verdadeiramente grandes, ou aos talentosos jornalistas, aqueles senhores escritores de muito nome, aqueles camaradas que então ditavam o panorama literário, na minha humilde e adolescente opinião escreviam mal, muito mal.

Também me fazia espécie descobrir que nos romances neo-realistas, nos quais, supostamente, o povo era tema, aquele povo não era a gente a que eu pertencia e me rodeava.
Aquele povo não existia, era uma imagem, nem sequer deformada, mas totalmente falsa, obtida por escritores que iam aos bairros visitar os pobres, e à província ver os camponeses, como os basbaques vão ao jardim zoológico ver os animais.
Por misteriosas razões, nos romances portugueses do Neo-Realismo, e em muitos depois dele, os personagens — populares ou não — são postos a falar com empolamento académico, ou com a pesada ênfase dos maus dramas de teatro.
Aquela linguagem não é a do povo, autêntica e rude. É um linguajar inventado, pedantesco, o autor a mentir com ele na sintaxe e nos sentimentos.
A ponto de que, os romances do Neo-Realismo e não sei quantos mais desde então, me parecem não ter sido escritos para serem lidos, ou com a intenção profunda de, ao agitar um problema da sociedade, causarem mudanças ou corrigirem injustiças, mas simplesmente para que o autor possa dar entrada num grupo de eleitos.

Como este é um dos meus cavalos de batalha, poderia continuar, mas, além de abuso, ainda aqui estaríamos amanhã à noite.
Digam que exagero, lembrem-me que cada cabeça sua sentença, facto é que a literatura portuguesa de anteontem, ontem e hoje, por razões que vão da miséria do ensino ao nivelamento pelo medíocre, da pressa de produzir, de marcar lugar, da satisfação com o superficial, raramente oferece motivo de júbilo.

Espero que discordem do que vou afirmar, e até gostaria de lhes causar um abalo do coração, pois nada é mais saudável.
Acontece que se um prémio Nobel diz alguma coisa sobre um escritor, pouco ou nada diz sobre a literatura a que esse escritor pertence.
E eu sinceramente creio que teríamos mais razão de orgulho e contentamento se, em vez de Saramago, ou juntamente com ele, pudéssemos indicar uma dúzia de escritores e poetas nossos, a quem se justificasse tirarmos o chapéu.
Escritores e poetas daqueles que, como acontecia em fins do século XIX, o público ansiava pelo próximo livro.

Os cínicos e os chamados espíritos práticos apontarão que, neste nosso tempo de pressas e descarte — livro que em três dias vende pouco sai da prateleira, ao fim da semana simplesmente desaparece - a qualidade da escrita não necessita de ser a pedra de toque. E embora não devesse sê-lo, infelizmente assim é.
Todos sabemos que trezentas páginas mal alinhavadas podem dar mais lucro e mais fama do que um trabalho feito a primor. Que importa mais parecer do que ser. Que o aplauso mais depressa cabe ao charlatão, do que ao obreiro que se aprimora na feitura e na valia do que faz.
O hábil, hábil no mau sentido, leva a melhor, tem mais êxito, sabe manipular, é cuidadoso na escolha da sua imagem, dos seus tiques, não tem tempo, vontade ou intenção de fazer trabalho bem acabado.
E o editor poderá, sinceramente, apreciar o livro de qualidade, mas, empresário, homem de comércio, o seu interesse primordial é o do rendimento e do equilíbrio da contabilidade.
Então entra aí em jogo essa espécie de escritor que não é nova, mas refinadamente adaptada às circunstâncias ditadas pelas razões do marketing e do show business.
Nada a ver com elegância da prosa ou refinamento de ideias, subtileza e humanidade de situações, mas apenas, e no mais banal, espectáculo do pior. E assim temos a obra e as actuações do escritor X a copiar o grotesco daqueles programas de televisão em que, sequioso de fama e ganho, o participante voluntariamente se rebaixa e se faz palhaço.
Tem isso, têm esses livros, algo a ver com a literatura? Nada. Nem de perto, nem de longe.

À maneira de justificação tenho ouvido dizer, e provavelmente assim é, que hoje em dia o leitor anseia por interacção, intimidade, amizade, quer comunicar, espera que no Facebook ou pelo Twitter, o escritor o mantenha ao corrente das suas intenções, da hora a que muda de roupa interior, das suas manias, pecados e pecadilhos.
Mas porque carga de água tenho eu, escritor, a ver com os anseios deste ou daquela? Alguém me força a submissões ou subserviências?
Só dobra o joelho quem quer. E muitos desesperadamente querem, levados pela ideia de que neste mundo de maquinarias e robots tudo é possível fabricar, mesmo o talento, que a primazia cabe à ilusão.

Por natureza sou de poucas falas, e quem me conhece confirmará, mas ao destravar a língua ia esquecendo o que me trouxe aqui.
Se recordam, mencionei de começo o perigo que, na minha idade, é o sintoma da repetição.
Na verdade anotei-o com o único propósito de assinalar que, desde que o conheço, vai além de uma dúzia de anos, digo e repito que o Rui Ângelo Araújo, é um dos melhores e mais argutos comentadores da política e das circunstâncias da sociedade portuguesa.
Essa argúcia transporta-a ele para os seus romances, o que, de par com a elegância e a originalidade da sua escrita, a riqueza do vocabulário, a cuidada feitura dos personagens, autoriza a que, com verdade e razão, se possa dizer dele que é um excelente escritor.
Excelente segundo o cânone. Possuindo à sobreposse as qualidades e os indefiníveis elementos que separam a prosa que simplesmente se lê, daquela que se aprecia e nos leva a pensar.
A prosa que nos obriga a mudar de perspectiva, a ver com os olhos do outro, aquele outro que não é necessariamente simpático, nem mais inteligente ou mais capaz, mas o nosso incomodativo semelhante.
O outro que julgamos diferente, queremos diferente e, cruel como é, tantas vezes nos espelha.
Aquele misterioso e desdobrado eu, que nos sussurra verdades nas noites de insónia, que de repente caminha ao nosso lado e nos obriga a ir por onde não queremos, nos obriga a ver aquilo a que de boamente fechamos os olhos.

Do Rui já li três romances. Dois inéditos e este de que agora se trata. Os Idiotas teve a boa sorte de ser publicado, mas eu gostava que tivesse sido O Hotel do Norte, e espero que isso não demore.
É que, enquanto os personagens do romance inédito abundam de carinho, emoções e vida, estes de Os Idiotas, talvez por estarem tão afastados da minha idade, da minha experiência e sentimentos, acordam em mim uma fúria irracional, uma vontade de gritar, de bater, de a eles e elas apertar o gasganete.
Numa e outra passagem também cheguei a rir, não um riso folgazão, mas aquele riso que, ao darmo-nos conta do motivo, esmorece e obriga a franzir os cantos da boca.

Nisto de reacções nunca se sabe ao certo o que as provoca, e a minha intenção era não aludir ao facto, mas sinto o dever de anotar — e ao ler Os Idiotas compreenderão melhor — que também eu tive, não um, mas dois Ford Capri, e talvez essa coincidência me tenha levado a falsear a perspectiva e a diminuir a simpatia pelo Lúcio e os seus compinchas.
É que, mesmo contra vontade, e desejando esquecê-lo, nos personagens deste romance do Rui há algo que não podemos evitar que se nos cole e perturbe.

Os Idiotas é um retrato que dói por ser fiel. Pela falta de esperança. Por dar a impressão, quase diria a certeza, de que nenhum colorido consegue sobressair no gris de certas vidas, na modorra dos seus desejos e acções, dos seus sentimentos, do ambiente dos meios acanhados.
Cheguei ao final com vontade de negar aquela gente, aquelas vivências, ao mesmo tempo sabendo que seria em vão, porque personagens assim encontram-se à nossa volta.
Que pessoalmente os conheça ou não - e conheço - que os aceite ou recuse, são eles quem, em boa parte, determina a paisagem social em que vivo.
Posso fingir que os não vejo, que passo de lado, mas o talento do autor não me permite o consolo de ignorá-los, antes força e triplica a dose do mal-estar.
Em minha opinião Os Idiotas não é livro para ler à noite em casa. Mais avisado se mostrará aquele que o levar para o jardim num dia de sol.

Se termino, repetindo o que lhe digo há mais de uma década, o Rui poderá, com razão, perguntar-se se já me atacou a senilidade. Graças a Deus ainda não.
Os parabéns e o abraço que agora lhe dou, não é porque me surpreenda a sua arte de escrever — pois essa conheço-a desde o tempo da Periférica — mas porque, finalmente, temos o testemunho público e palpável do seu talento de romancista.»

J. RENTES DE CARVALHO

(Imagem enviada pela editora; texto acima publicado em www.osidiotas.pt)

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