sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Apenas para dizer mais uma vez: Os Idiotas, de Rui Ângelo Araújo. A publicidade é gratuita, com muito gosto.

Rui Ângelo Araújo, Os Idiotas

Vê-se tanta porcaria nos tops de vendas, coisas a que chamam bestsellers - o bestseller que toda a gente vai querer ler! - não será por decoro, mas nem livro, ou romance, ou obra, lhes chamam. E encontram-se tesouros que a muito custo conseguem que se lhes imprimam 500 exemplares.

Quando se acabou o fundo de desemprego, estive em risco de considerar, sabendo que a descartaria, a hipótese de voltar a trabalhar para viver. Isso, essa abominação, seria o meu farewell, o meu adio-adieu-wiedersehen-goodbye. Mas a alternativa não era mais saudável, não a longo prazo. Fiz cálculos: havia na casa do velho conservas para dois meses - se as utilizasse como ração de combate, imaginando-me encurralado numa trincheira com as linhas de reabastecimento quebradas. Não havia cerveja, mas a água da torneira saía razoavelmente limpa e uns seis meses de facturas acumuladas ser-me-iam por certo permitidos, o neo-liberalismo ainda não tinha chegado à província. A electricidade talvez fosse cortada mais cedo, mas encontrei abundantes velas na cave, desconfio que muitas benzidas. De qualquer modo, de nada me adiantaria dessedentar-me e ser capaz de ver de noite se o estômago não fosse minimamente confortado. Cultivar o quintal, que me lembrava de ser de terra generosa, era uma ideia louca: não saberia o que fazer, mesmo que por absurdo me propusesse fazer alguma coisa. Dois meses era portanto o tempo que tinha para viver. Não precisava de um médico para fazer este diagnóstico.

Nos primeiros dias, andei a navegar pela Internet a tentar conceber uma fraude que, se não me enriquecesse, afastasse a ideia de trabalhar ou adiasse por algum tempo o fim. Mas, em definitivo, eu não era um desses nerds que também são hackers. Acabei, inesperadamente, a voltar a um blogue que não actualizava há uma data de meses. 

Não sendo pago para isso, numa vida anterior eu tinha perdido um milhão de horas a escrever sobre livros que lia, imaginado uma pequena tribo de fãs a beber avidamente nas minhas palavras e a correr a comprar os livros que eu incensava ou alimentando a lareira com os que detestava. Tinha instalado um contador de acessos e, se aquilo não estava doido, havia umas centenas de imbecis que visitavam o sítio diariamente. Escrevi às editoras a pedir uma comissão e elas responderam enviando-me gratuitamente, com generosidade oportunista, livros para ler. Percebi a mensagem e passei só a escrever sobre os livros que me davam vontade de vomitar (a maioria deles, desde aí). Fossem aproveitar-se do caralho!

A certa altura, era um mito na blogosfera. Recebia dezenas de e-mails (a maior parte sedentos de sangue; uns poucos indignados com a virulência das críticas) e os jornais queriam os meus comentários a propósito disto e daquilo - mas não a minha colaboração remunerada. Mandei naturalmente foder tudo e todos. Fi-lo num post colérico e brutal (mais tarde famoso), e isso teve o condão de insuflar a aura já razoavelmente ostentada pela figura enfezada que, no blogue, aparecia como sendo a minha foto. (Roubara de um site de uma igreja evangélica americana, da sua lista de almas, a fotografia de um daqueles lunáticos barbudos, e essa imagem agora corria todos os sítios literários  na Internet que se prezavam disso.)

De repente, eu era mesmo uma referência, um nome tido em conta. Uma revista literária mensal, depois de também me recusar colaboração remunerada com o habitual argumento da crise, teve a lata de me convidar para um jantar da redacção com leitores e colaboradores. Disse que sim, que ia, tinha todo o gosto, porque não, cabrões de merda. Na data marcada, fui até às imediações do restaurante e paguei a um sem-abrigo que era arrumador e moderadamente parecido com o tarado de Oklahoma que eu tinha no blogue. Sacudi-lhe um pouco o pó e disse-lhe que tudo o que tinha a fazer era aproximar-se, dar as boas-noites, exibindo a cremalheira enferrujada, e desculpar-se por ainda ter de ir arrumar o carro, voltava já. O indigente apreciou a ironia, não era estúpido e não era mau actor. (Talvez tivesse sido um, não havia critério para o tipo de pessoas que caía na rua.) Da mesa onde me tinha entretanto sentado, vi como os literatos se pareciam afinal tanto com orientais pasmados, a dispararem as suas máquinas e os seus telemóveis mais rápidos do que a sombra do Lucky Luke. Dir-se-ia ter entrado naquela sala o Bigfoot, o monstro de Loch Ness, a Scarlett Johansson de mamas ao léu. No dia seguinte não havia blogue que não partilhasse a sua fotozinha do fenómeno, moi-même (ou o meu avatar), e longas teorias sobre a minha atitude, as razões por que não lavava os dentes. Bartleby!, gritaram algumas vozes pretensiosas, contentes com a sua própria analogia de almanaque. Depois da controvésia, o mistério. Estava bem lançado. Não tardei a ser despedido do emprego, embora não houvesse nenhuma relação entre uma coisa e outra.

Rui Ângelo Araújo, n'«Os Idiotas» (pp. 14-16)

Sem comentários :

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...