segunda-feira, 10 de junho de 2013

Crónicas de Zwahlen #15

Berne, Schwiiz, 30/03/2013

K. Z. tenta gritar de além-túmulo - A vida é uma prisão! - mas os mortos não gritam. K. Z. dizia que se é tanto mais livre quanto maior for o número de opções de que se dispõe. Para tirar a liberdade a uma pessoa não é preciso encarcerá-la, porque mesmo encarcerada uma pessoa pode ter uma réstia de liberdade. É necessário retirar a uma pessoa todas as opções, para eliminar por completo a sua liberdade. Para K. Z. ser livre é poder decidir. Uma pessoa sem capacidade de decisão está completamente acossada, o que é uma prisão pior que uma prisão: é uma prisão sem grades. À medida que os anos se iam acumulando, K. Z. pressentia que as suas opções se iam reduzindo. Um dia suicido-me, dizia para si mesmo. Era a forma que encontrava para dizer a si próprio que ainda lhe restava uma última opção, uma última gota de liberdade, optar entre estar vivo ou matar-se. Agora que estava morto, e não conseguia lembrar-se como é que tinha morrido, cogitava que a liberdade fôra sempre uma ilusão.

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