sábado, 8 de junho de 2013

Crónicas de Zwahlen #14 - Dê um rumo à sua vida

à deriva, João Castilho
Morte Súbita, videoinstalação de João Castilho


Enquanto viveu K. Z. sempre soube a forma como que lhe chegaria o fim comum que a todos está destinado. Morreria como morrem aqueles que estão condenados - sem direito a qualquer julgamento, sem hipótese de defesa - a uma existência errante, desamparada, de sobrevivência. Morreria como morrem aqueles que estão mortos antes de terem morrido. Agora que tinha morrido pensava que poderia escrever as suas memórias póstumas, como Brás Cubas, porém o receio de plagiar Brás Cubas impedia-o de pegar na pena - modo de dizer, que os mortos não pegam em nada, servem-se de intermediários. K. Z. teria que encontrar um escritor que escrevesse as suas memórias póstumas, como Brás Cubas havia encontrado Machado de Assis - mas enquanto vivo, K. Z. nunca encontrou um escritor, e agora que estava morto via-se impedido de encontrar um, porque os mortos não podem encontrar nada. A somar a tudo isto, para um diletante o receio de plagiar é uma desculpa tão boa para não escrever um romance quanto outra qualquer, e se o corpo já não podia ser acometido pelas monumentais preguiças das tardes estivais, o espírito permanecia procrastinador no limbo do eterno esquecimento. Enquanto viveu, K. Z. sempre soube que um dia havia de se suicidar. Agora que estava morto não conseguia lembrar-se como é que tinha morrido. A vida fôra uma recordação à deriva num imenso oceano de esquecimento. Dê um rumo à sua vida, K. Z. cogitava que tinha ouvido estas palavras pouco antes de morrer.

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