quinta-feira, 13 de junho de 2013

Aniversário. 125 de Fernando Pessoa. Mudar. Coisas.

Mudar, Mudar de Vida, Fábio Moon, Gabriel Bá, Cartoon
© Fábio Moon & Gabriel Bá

Este cartoon já o havia publicado no blog (aqui), mas pensei em voltar a publicá-lo, porque estava para publicar um post a recordar o nascimento de Fernando Pessoa, republicando o poema de Álvaro de Campos, No tempo em que festejavam o meu dia de anos, mas já tantas vezes foi publicado, que quem tiver interesse em lê-lo uma vez mais, pode ir ao link.
Tirando o «Vou mudar de time», que serve muito bem um qualquer jogador, mas nunca serve a um adepto, tudo o resto me assenta que nem uma luva. Sim, quero mudar, mudar para um lugar onde não tenha mais que mudar. Mudar é bom, muito bom, quando mudamos porque queremos, não quando mudamos porque somos empurrados para a mudança, isso já não é mudar, é fugir. 
A propósito de mudar, lembrei-me do texto de Bernardo Soares, a anotação 42 do Livro do Desassossego. Não tenho a minha edição em papel comigo, tenho um pdf, que diz seguir a edição da Assírio & Alvim:


42.

Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência.
São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela.
Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou.
Partir da Rua dos Douradores para o Impossível... Erguer-me da carteira para o Ignoto... Mas isto interseccionado com a Razão - o Grande Livro que diz que fomos.

...

Coisas. Tanta coisa que queria dizer, mas até a pachorra para as dizer se esvai...

1 comentário :

  1. Também não estou com cabeça para comentar este texto do heterónimo do Fernando Pessoa.
    O texto que tu estavas para publicar, mas que já publicaste variadas vezes, até eu já o publiquei.

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