segunda-feira, 27 de maio de 2013

«Sistema de Requalificação da Administração Pública, nome orwelliano para o despedimento»

Tento sempre arranjar uma imagem para juntar ao texto, o que por vezes é difícil. Foi este o caso. Pensei em publicar o post sem imagem - depois foi ao Paint, e fiz a que vêem acima. Para este post, primeiro uma citação de José Pacheco Pereira (podem ler o texto completo aqui), com alguns negritos da minha responsabilidade, que o autor não colocou no texto - depois um excerto de um e-mail de uma pessoa Grega, cuja identidade não é nem será revelada, por motivos de segurança:
Ou seja, não faltam temas para escrever a gosto. Mas há os temas a desgosto, há "outra" semana, mais cruel e dura e conforme com os tempos. Na rua, as pessoas que me falam, e são cada vez mais, transmitem desespero, medo e muita raiva. Querem ter "voz", porque não a tem.

Uma completa desmotivação, uma forma elegante de referir uma invisível greve de zelo, atravessa o Estado e a sociedade, resultado da perda de tónus social que vem do empobrecimento. Funcionários públicos aviltados que quereriam fazer greve, mas sabem que vão ser as "chefias" a decidir quem vai para o Sistema de Requalificação da Administração Pública, nome orwelliano para o despedimento. 

Há quem perceba que, pela primeira vez, não tem dinheiro para pagar impostos e percebe que a partir de agora a vida vai ser um calvário do "outro lado da Lua". Há quem, reformado e idoso, receba uma carta ameaçadora de um senhorio pedindo cinco, dez vezes mais, com ameaça de o pôr na rua da sua habitação de há 30 anos. Isto já depois de ter actualizado a renda. Há quem, como toda a correnteza de pequenas lojas comerciais da Baixa de Lisboa, restaurantes, cafés, alfarrabistas, clubes centenários, vá para a rua nos próximos meses, porque os senhorios decidiram "fazer obras". O mais dramático disto tudo é que a lei está tão mal feita que vai acabar de certeza por ser corrigida e muitos aspectos mais gravosos serão suspensos, mas deixando para trás um rastro de sofrimento e insegurança escusada. 

À minha volta, no centro de Lisboa, vai fechar dentro de dias uma mercearia que aguentou várias décadas de "proximidade", ou seja, de fiado e vizinhança. Várias lojas de uma urbanização trendy, que foi prevista para restaurantes da moda, lojas de roupa fina, galerias de arte, agências de viagem e de real estate, já desapareceram há muito. Uma muito activa e numerosa família paquistanesa vai ocupando com os seus negócios, malas e géneros, quinquilharia e pequenos serviços, as lojas preparadas para serem gourmet e venderem apartamentos de luxo. Ironia das ironias foi a rápida mudança de uma agência imobiliária para pequena mercearia com um jovem que mal fala português vendendo aquilo que as lojas de conveniência indianas e árabes vendem: refrigerantes, bolachas, latas de conserva, fruta e, num armário fechado, umas versões bizarras de whisky e vodka de marcas desconhecidas. 

Por mim até está bem, dá-me mais jeito. Porém, a maioria das lojas permanece fechada, e, para além desta pequena Islamabad, desaparecerem as lojas de informática, as tabacarias, e há agora umas lojas brasileiras oferecendo depilação integral, umas pedras para colocar nas costas e uma loja de unhas e cabelos fulvos, também brasileira. Não vão durar muito.

Os meus interlocutores e amigos das outras classes mais de cima, chamemos-lhe assim, também não sabem para onde se virar. Alguns, patrões e trabalhadores em uníssono, contam-me como são ao mesmo tempo dramáticas e ridículas as reuniões da concertação social, onde, com a política demagógica de "acabar" com as chefias, se entregou as assessorias e consultadorias a uns jovens das jotas cuja incompetência é "épica" para tratar de questões sérias

A inutilidade de todo o esforço das pessoas, a quem milhares de milhões já foram retirados não se sabe para quê e com que resultados, leva a tudo que pareça autodefesa face ao poder. Muita gente tira o dinheiro dos bancos para o colocar no colchão, e, como se sabe, nos balcões mais populares, encenam-se mil e uma estratégias para dificultar tal retirada como se o dinheiro fosse do banco e um crime retirá-lo. Irá, a seu tempo, aparecer nas estatísticas. Gente pequena que tinha pequenas poupanças que sabe estarem agora inseguras. Para eles ser abaixo dos 100.000 euros ou acima é irrelevante: os bancos deixaram de ser fiáveis e o Governo parece ser capaz de tudo "para ir buscar dinheiro"

Podia continuar sem limite, olhando à esquerda, direita, centro, para cima e para baixo. Compreendam que, neste contexto, eu quero pouco saber das habilidades de Portas, ou das sistemáticas fugas de informação destinadas a nos enganar, ou de um governo que parece estar nas vascas da agonia, mexendo-se sem nexo, mas com muito ruído, ou de uma agenda comunicacional que aceita sem reservas a linguagem, os temas e os limites do poder. E as distracções. 

Voltando a Roma, haverá um tempo em que a damnatio memoria apagará estas faces patéticas e fugazes. Só que depois de muitos estragos e depois de muito tempo. E custa.
José Pacheco Pereira, no blog Abrupto.


(...) the situation in Greece is out of control and nobody knows how it reflects everyday in our lifes. (...) In my job i had problems me and all the others (...) Everybody is frightened here (...) Can you believe that greek people dont go on strike? (...) they are afraid of loosing their money and their jobs. (...) the greek goverment wants to fire people who work in puplic services, thats why it will start in few months the "evaluation" for everybody, through "special reports", "interwies" of their directors. Do you know what this means? The director of your work, can decide if you will continue your work or not. The same will happen for the level of your... salary. (...) Only the director. Can you imagine what this system bring through the relationships in the employees? (...) if the employees have diferent ideas or different political ideas of the director, the director has the power say to "the report evaluation" that the employee is "useless". This already happened and (...) people lost their jobs. 

Excerto de e-mail de uma pessoa Grega, sem qualquer correcção, retiradas todas as referências que possam possibilitar qualquer identificação. Ao ler estas palavras - Funcionários públicos aviltados que quereriam fazer greve, mas sabem que vão ser as "chefias" a decidir quem vai para o Sistema de Requalificação da Administração Pública, nome orwelliano para o despedimento. - no texto de José Pacheco Pereira foi deste e-mail que me lembrei, por isso aqui publico este pequeno e truncado excerto.

3 comentários :

  1. Nunca é demais falar destas coisas, embora o ideal fosse agir.
    Mas agir, como?

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    1. Pois... Mas como? Estamos a viver um filme de terror... Com milhões de vidas suspensas, arruinadas, futuros negros...

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  2. Em vez de baterem sempre nos pobrezitos que trabalham, alguns investiram tempo e dinheiro na sua formação académica e na generalidade até são competentes (mesmo que subavaliados por chefes mal formados e sem escrúpulos), concebam medidas no sentido de tornar a administração menos hierarquizada (eliminando chefias inúteis e antiquadas que grassam o serviço publico) e mais amiga dos cidadãos. Essas medidas permitem poupar sem mandar ninguém para o desemprego e gerar valor acrescentando através do aumento da produtividade.

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