segunda-feira, 27 de maio de 2013

Servidões, de Herberto Helder

Servidões, Herberto Helder, Poesia, Assírio & Alvim

Novo livro de Herberto Helder, Servidões. Servidões, palavra que convoca para o meu cérebro a imagem de multidões de servos, as multidões de escravos dos tempos modernos que nada têm de moderno, e que fazem fila para serem comprados, e que competem entre si para ser comprados: oferecendo mais, mais trabalho, mais competências, mais conhecimentos, mais esforço, mais tempo, mais produtividade, por menos, menos remuneração, menos direitos, menos tempo, menos vida, porque são apenas um produto que tem que se vender; palavreado bonito - eufemismos - para dizer exploração, escravatura.

Mas era do novo livro de Herberto Helder que queria falar. Servidões terá apenas 5000 exemplares. Depois, os poemas que compõem esta nova obra integrarão - provavelmente - uma nova edição da sua poesia completa, Ofício Cantante. Algo me dizia, quando comprei Ofício Cantante, que não devia comprar ainda. Se um dia sair desta condição de escravo e for viver para a quinta, talvez tenha maneira de adquirir os poemas de Servidões. Um livro de poesia de 5000 exemplares, algo muito raro em Portugal, mas que provavelmente esgotará num instante. Porque não terá reedição, e para aqueles sujeitos estranhos, estratosfeéricos - tenho que registar a patente desta palavra - que se estão a marimbar para os livros, Herberto Helder é um bom negócio.

Dizem que houve exemplares de A Faca não Corta o Fogo, a obra anterior de Herberto Helder, que poucas semanas depois do lançamento eram vendido a preços três vezes superiores... Estou aqui a pensar para comigo se tenho o A Faca não Corta o Fogo...? Sinceramente não sei... Se um dia voltar a Portugal, tenho que ver nas minhas estantes...

Como não tenho Servidões, não vos posso deixar aqui nenhum poema para poderem refrescar a curiosidade. No entanto, deixo aqui o poema com que descobri Herberto Helder, há muitos anos, o primeiro poema de Herberto Helder que li, e aquele que ainda hoje é o que mais gosto:


São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no seu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.

Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.

Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.

- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonadamente; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.

Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras -
cantando, pensando, dormindo loucamente.

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vinganças não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes - enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.

Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite - extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.

7 comentários :

  1. É quase com vergonha que confesso que tenho cá em casa, por ler, desde há quase 8/9 anos o seu livro "Ou o poema contínuo", que é afinal a sua "Poesia Toda".
    Um dia destes vou acabar com este crime de lesa-cultura.

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    1. Gosto mesmo muito de alguns poemas - mas sinceramente penso que é um poeta endeusado...

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  2. o André refere-se ao poeta ou assim à sua poesia?

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    1. A pergunta é relativa ao primeiro parágrafo do post?... Nem uma coisa, nem outra. É apenas o que a palavra «Servidões», num processo de associação de ideias, me faz lembrar. O livro «Servidões» não tenho, provavelmente não vou ter, talvez um dia leia numa nova edição de «Ofício Cantante», pois certamente vai esgotar depressa, que os coleccionadores a alfarrabistas compram logo diversos exemplares, devido ao facto de saberem que não haverá reedição (daí Herberto Helder ser um bom negócio)...

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  3. Penso que Chambel se referia ao seu comentário de pensar que é "um poeta endeusado".. :)

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  4. Herberto é um rei e eu dava muito para ter o Servidões, mas dar centenas a quem as pede por ele na Internet, isso não!

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    1. Pois... Esses que têm exemplares à venda na internet foram aqueles que esgotaram o livro, comprado às dezenas, porque sabem que os livros do Herberto não têm segunda edição...

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