sexta-feira, 17 de maio de 2013

Eu também deixava de fora o António Lobo Antunes.

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral

António Lobo Antunes deve ser o escritor português mais inflacionado de sempre - temo que seja mesmo uma bolha especulativa - não sabendo se é efectivamente uma bolha especulativa, não sabemos se ou quando vai rebentar. Mas isto sou eu que digo; não sendo crítico literário - posso dar-me ao luxo de ter o meu gosto pessoal, deixando de lado critérios académicos e científicos: António Lobo Antunes é o autor que mais vezes deixei a meio. Não é problemático: há muitos autores que deixei a meio e que passados uns anos li de fio a pavio com grande entusiasmo. Penso nos livros que quase li de António Lobo Antunes, e não consigo encontrar nenhuma personagem interessante. Provavelmente teria que ler até ao fim - ou com mais atenção - para encontrar algum interesse no António Lobo Antunes. Não sei se o João Gaspar Simões ou o Eduardo Prado Coelho encontraram algum interesse no António Lobo Antunes ou não. Do João Gaspar Simões, além do que escreveu sobre Fernando Pessoa, pouco mais li. Do Eduardo Prado Coelho, lia as crónicas que escrevia no Público, quando o Público era um jornal, e se escreveu sobre António Lobo Antunes, não me recordo; mais que isso não li. Não tenho tempo, nem dinheiro, nem disponibilidade das obras, para tudo. Gostava de ler este Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral. Tempo é a única coisa que tenho disponível para o efeito - mas quando falta o resto, o tempo não serve para nada, e torna-se um fardo. Bom - é o ponto em que tenho que me deixar de lamurias. Se o António Lobo Antunes ganha o Prémio Nobel estou tramado - tenho quatro ou cinco - ia dizer amigos, mas fico-me por conhecidos - que neste tempo de pobreza, mais que nunca temos que valorizar aquilo que nos resta - e as palavras - por enquanto - ainda não arranjaram forma de as taxar - tenho quatro ou cinco conhecidos que vão zurzir-me aos ouvidos durante muito tempo. Se tiverem que o dar a um autor de Língua Portuguesa, que o dêem ao João Ubaldo Ribeiro ou ao Rubem Fonseca. Pedir que o dessem ao único escritor português que eu julgo que o devia ganhar, talvez já seja pedir demais. Embora arrume o António Lobo Antunes a um canto. Ah, para ser justo tenho que dizer que gosto muito da maioria das crónicas do António Lobo Antunes, e que tem alguns dos títulos mais fantásticos que conheço - embora emprestados. É tudo.

(Quanto ao Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, espero que não estivessem à espera que eu me metesse a falar de uma obra que não li.)

Adenda: Cada vez mais gosto de ver, nas cidades ao longo do mundo por onde passo, os livros de Lobo Antunes expostos. Quer sejam usados em alfarrabistas, quer sejam novos nas livrarias. Lobo Antunes, queiramos ou não, goste-se ou não do seu estilo, tem um trabalho admirável de dar voz através dos seus romances - e no âmbito da sociedade portuguesa - a quem não a tem: loucos, abandonados, pobres, encalhados na vida, falhados na profissão; e pretos – como no caso de O Meu Nome é Legião. É, tem sido, para além de uma obra de arte literária, uma instituição representativa. Os seus romances têm sido em tantos casos como que um «empréstimo de voz»: o que o torna um exemplo de humanismo numa terra desumana. Num país que calca a voz dos seus naturais, e as suas razões. (soliplass, no blog Âncoras e Nefelibatas)

«loucos, abandonados, pobres, encalhados na vida, falhados na profissão» - tenho mesmo que voltar a António Lobo Antunes...

2 comentários :

  1. Nada li ainda dele. Tenho cá dois livros para ler...Quando será?

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    1. Eu quando puder, se puder, quero ler os primeiros que publicou. Entrei a meio - e como aquela escrita me parece em vez de a múltiplas vozes cada vez mais fragmentada... É difícil de acompanhar...

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