domingo, 12 de maio de 2013

Desesperança. Poema de Manuel Bandeira. Citação. Devaneios. Machado de Assis.


Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo. . .

O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia...
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.

Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.

Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.

Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto...

- Ah, como dói viver quando falta a esperança!

Desesperança, Poema de Manuel Bandeira.

Dir-me-ão que os meus lamen­tos nada acres­cen­tam, que o meu cep­ti­cismo só agrava a depres­são que é já de todos. E eu, humil­de­mente, con­cedo que sim. Estou tão per­dido nesta mal­dita encru­zi­lhada como qual­quer outro. Con­fesso mesmo que há dias em que tento acre­di­tar no meu país e não consigo.

Mas que­rem saber o que faço quando acordo assim? Fecho os olhos, cerro os den­tes e relem­bro a mim mesmo que a deses­pe­rança é um luxo dos que não tem filhos.

Refexões Sobre a Desesperança, de Pedro Norton, no blog Escrever é Triste.


A última frase era escusada. Escusada porque muitos haverá que não se podem dar ao luxo de ter filhos. Pessoalmente, foi coisa que nunca desejei - ter filhos. Por diversas razões, a principal deixou-a Machado de Assis escrita na última frase de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o único livro que quase li electronicamente, vai para um bom par de anos, ainda não havia Kindle, mas já havia pdf's e eu descarreguei-o dum site Brasileiro onde são disponibilizadas gratuitamente obras cujos direitos de autor são já do domínio público. Quase li electronicamente porque depois de algumas páginas não consegui ler mais no computador, e imprimi aquilo tudo - convém dizer que a leitura num monte de folhas A4 não é mais agradável. Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Eis a principal razão porque nunca desejei ter filhos. A condição humana é miserável, e - não fosse como na música dos Queen, I don't want to die/ I sometimes wish I'd never been born at all - muitas vezes teria já passado à condição do Brás Cubas. Certamente não chegarei aos seus 64 anos; e se não for de cianeto ou estricnina, será de desesperança - espero no entanto viver o suficiente para ver algumas cabeças penduradas em praça pública: a desesperança não é um luxo de ninguém.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Machado de Assis, último parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas.





2 comentários :

  1. Amo esse poema de Manoel Bandeira. Adorei encontrar aqui. Ainda bem que existe pessoas como vcs que postam boas coisas.

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  2. Ah, Machado de Assis! Quanta profundidade!

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