domingo, 14 de abril de 2013

Pensar.

Pensar, Parar de Pensar, Stop Thinking, Thinking
Cabeça Pensante, de Marcel

Pensar. Em breve terei a idade que o meu pai tinha quando morreu. Tenho pensado muito nisto. E isto faz-me olhar para a (minha) vida. E por vezes a vida - e o pensamento - ou o contrário - tornam-se insuportáveis. Coloco-me de lado; penso(-me) como quem observa de fora uma realidade que lhe é alheia. Divago, penso noutras coisas, tento não pensar em nada, mas o pensamento é desobediente, não se queda como se suspende um movimento, fica sempre como um ruído de fundo, o mesmo ruído que agora não me deixa dormir. Tento distrair-me com outras actividades, mas todas as actividades por que nutro algum interesse obrigam-me a pensar ou são demasiados caras para a minha conta bancária. Movo-me de um lugar para o outro, vou ao café, passeio pelas ruas desertas da vila, tento ler algumas páginas dum livro cuja leitura ficou suspensa, mas se me detenho mais um pouco nalguma coisa ou nalgum lugar, logo a intensidade do ruído se torna insuportável.

Vida. Procuro uma imagem na net; podia ser uma fotografia de obra maior de Auguste Rodin, mas encontro a que está ali acima. Agrilhoado pelos pensamentos. Sem presente - nem futuro. Sem esperança em nada. Longe de tudo o que um dia quis - ou sonhei. Prisioneiro de sonhos secundários. Leio as notícias nos sites dos jornais, aquelas que são grátis - que ainda são grátis - talvez não se perca nada em deixarem de o ser - já nem são notícias, são uns artigozecos alienantes a falar daquilo que as pessoas querem ouvir - como um produto igual a outro qualquer, à disposição numa loja conforme aquilo que pedem os fregueses, sem qualidade, que os clientes querem é uma refeição rápida e barata. Passo pelos blogs que frequento. Política - nada de novo - as mesmas claques de sempre. Literatura - um vazio abismal, umas capas espampanantes, algumas sinopses - os mesmos adjectivos - por ordem diferente - todos génios. Ciência - astronomia. Detenho-me nos seis ou sete - podia dizer quatro ou cinco - oito ou nove - podia contá-los - os que frequento com mais assiduidade e muito estimo. Volto de quando em quando àqueles que se silenciaram silenciosamente - que não pese a redundância - que se finaram sem dizerem uma palavra, sem um ponto final. Que será feito das pessoas que por detrás de outro ecrã dum computador escreviam aquilo que eu lia. Nos últimos meses com mais intensidade - nos últimos dois ou três anos - apagaram-se muitos assim. Tento não associar o facto com a crise. Porque isso obrigar-me-ia a pensar mesmo "que será feito das pessoas que por detrás de outro ecrã dum computador escreviam aquilo que eu lia?" Penso nisto e preocupo-me, angustio-me.

Escrever. Não tenho nada para fazer. Vou escrever a «Biografia» do about.me. Escrevo - reescrevo - apago tudo. Volto a escrever. Blogger, Escritor, Poeta, Sonhador. E muitas outras coisas. Nenhuma que me renda dinheiro - fama, reconhecimento, ou posição - ou outra coisa qualquer - daquelas coisas que são valorizadas nesta sociedade anti-social. Uma "Biografia" só devia ser escrita depois de morrermos - se alguém considerasse que tinha, para outras pessoas, valor que merecesse o esforço de ser escrita - e partilhada. Se quiserem saber algo sobre mim, enviem-me e-mail. Podem ler este post, e este. Mas não se esqueçam que uma biografia será sempre um retrato desfocado que se tira ao lado errado da pessoa retratada. A vida - a verdadeira vida de uma pessoa - está por dentro. E o lado de dentro - é como o lado escuro da lua: não existe o lado escuro da lua - na verdade, tudo é escuro.

3 comentários :

  1. Gostei muito desta tua reflexão.
    Pensei em como será perder um pai... Compreendo cada uma das tuas preocupações. Acredita que tens valor. Quantos foram os artistas/génios com reconhecimento ainda em vida?
    Continua!

    ResponderEliminar
  2. Ninguém sabe como é perder um pai - nem quem perde - vamos aprendendo ao longo da vida.

    Génio não sou - e a arte já a abandonei. Continuar - tenho continuado - porque, não tendo - como Alice - para onde ir, qualquer caminho me serve.

    Obrigado pelo comentário. Abraço.

    ResponderEliminar
  3. Um dos teus melhores posts dos últimos tempos.
    Muito pessoal, que é uma das tuas características, e que prezo muito, mas também deixas correr a escrita, como um escritor faz (e nem toda agente é escritor).
    Curioso que eu também penso muito acerca da idade com que o meu Pai morreu; tu tiveste a infelicidade de perder o teu demasiado cedo
    Para o ano completarei a idade que ele tinha quando ele faleceu, e ponho-me a pensar que apesar de não se poder dizer que morreu "tão novo", também não era tão velho assim...cada vez penso mais em coisas assim...

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...