segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lolita, de Vladimir Nabokov - livros que nunca devia ter lido, 20

Lolita, Vladimir Nabokov
Quando comprei Lolita, de Vladimir Nabokov, nunca tinha ouvido falar nem do livro nem do autor - nem sequer tinha visto nenhuma das adaptações cinematográficas. Nem imaginava qual fosse o conteúdo. Era uma edição daquelas que se vendem com jornais e revistas. Não tenho aqui comigo o exemplar, e não estou certo com que jornal ou revista é que o comprei. Mas recordarei para sempre as palavras:

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.


As palavras que, enquanto lia, me beijavam na boca. As palavras que me percorriam o corpo, o faziam estremecer, como notas de de uma música que me tocavam. Reli, agora em voz alta. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. 


Lolita podia resumir-se assim, um romance que começa com um fogo, um incêndio imenso, que depois se vai apagando, que depois se extingue, depois de tudo ter consumido, depois de tudo ter devastado. É este o problema dos romances que conseguem o feito extraordinário de nos agarrar no primeiro parágrafo. Tudo o que vem a seguir tem menos luz, ainda que momentos de um brilho intenso surjam de quando em quando. O Narrador, Humbert Humbert, continua:

Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Humbert Humbert. Há no nome do personagem e narrador, Humbert Humbert, na repetição do nome, uma repreensão velada, resignada, uma repreensão como quando alguém fala para outra pessoa, sabendo que já não há nada a fazer, que nunca houve. Humbert Humbert, lemos. Lemos - a fatalidade - e a inevitabilidade. Humbert Humbert, como uma mãe que encolhe os ombros e abana a cabeça, perguntando sem perguntar, que hei-de fazer contigo? E Humbert Humbert continua. A sua história, a sua confissão, o seu depoimento, o seu pecado.

3 comentários :

  1. Não me arrependi de o ler, sem dúvida um bom livro.

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  2. O livro povoou de sonhos proibidos a minha juventude e puberdade, assim como O Amante de Lady Chatterley de D.H. Lawrence. Meus primeiros ensaios e tentativas de narrativas e contos, pueris, devo dizer, foram todos por legados desses autores. Sempre estará no ápice da literatura indispensável.

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