quinta-feira, 11 de abril de 2013

Dia dos Irmãos


Ultimamente tenho dado comigo muitas vezes quase a chorar, eu que nunca fui de chorar, nem me recordo da última vez que efectivamente chorei. Provavelmente isto não importa a ninguém, só a mim, e às pessoas mais chegadas - mas depois de ver tantas manifestações públicas de fraternidade no facebook, o meu lado piegas impede-me de me manter silenciosamente discreto. Nem sabia que hoje (ontem) é Dia dos Irmãos, nem sequer sabia que existia um Dia dos Irmãos, mas isto - já se sabe - há dias para tudo. [A propósito, chegaram visitas ao blog, através dos motores de busca, à procura do «Dia Mundial da Pedra» - alguém me esclarece se esse dia existe, e a que pedra se refere?]

Tenho no computador uma pasta com digitalizações de quase todas as fotografias de família e amigos - e outros que no acaso do sabor do momento foram fotografados por mim - que possuo. De vez em quando abro a respectiva pasta e dou uma vista de olhos. E interrogo-me: «qual o sentido de tudo isto. O que é que andamos aqui a fazer? O que procuramos? Andamos atrás de quê? Para quê? Que vida é esta, se não podemos estar ao pé da nossa família? Que vida é esta se não podemos estar ao pé dos nossos amigos? Que vida é esta se não podemos fazer o que gostamos? Que vida é esta...?» 

Interrogo-me muitas vezes, a propósito de tudo e mais alguma coisa - a propósito de um aniversário ou a propósito de coisa nenhuma. Pergunto-me de que vale a pena a vida se não posso estar perto da minha mãe, da minha irmã, dos meus tios e primos, da minha madrinha, dos meus amigos. A vida é tão curta, e passa tão depressa - fará sentido que andemos todos a correr atrás de coisa nenhuma, a sobreviver em vez de viver, levados por sonhos secundários, por necessidades e expectativas criadas por uma sociedade demente? Mas como escapar a tudo isto? Como quebrar as grilhetas?

Como medrar nesta sociedade domada pelos interesses neo-liberais que nos sub-humanizam, obrigando-nos a trocar a zona de conforto por zonas de sobrevivência, obrigando-nos a escolher entre ficar na zona de conforto - que destroem até ficar insuportavelmente desconfortável, tentando sobreviver ou morrer à fome - ou uma zona de sobrevivência - onde vivemos com a ilusão de algum dia ter algum conforto.

Mas era do Dia dos Irmãos que eu ia falar. Para mandar um grande beijinho à minha irmã - de quem a vida me separou quase sempre - mas isso é demasiado pessoal e intransmissível. Sorte malvada! Não ganhar o Euromilhões. Ou ter uma daquelas ideias malucas desses empreendedores neo-liberais da treta que julgam que as grandes ideias nascem assim de um dia para o outro, que não precisam dum contexto para se formarem e desenvolverem, que tomam a regra por excepção, e a excepção por regra; e de repente vamos todos criar uma startup e ficar todos milionários e viver felizes para sempre...

6 comentários :

  1. Estranhos os afectos entre irmãos. Eu dou-me bem com todos, mas há clivagens entrealguns deles entre si e eu sou uma espécie de pára raios familiar.
    Mas sou dos que acredita que os laços de sangue se sobrepõem sempre a pontuais querelas.

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    1. João, só tenho uma irmã, e nem tenho tempo nem oportunidade para clivagens ou querelas. (Só não sei se a minha irmã não me vai matar por meter assim uma foto dela no blog, heheheh). Abraço.

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  2. Depois de ler este texto segui o link e li o outro, o da sua vida difícil. Para além de lhe dizer que escreve muito bem só lhe quero enviar um abraço.

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    1. Obrigado Um Jeito Manso. Sou um piegas, é o que é. Abraço.

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