terça-feira, 19 de março de 2013

Pai*

Eu e os meus cães, Farrusco e Lassie

Já era noite. Talvez sete, ou oito, ou mesmo nove horas da noite. Talvez fosse mais tarde. Na memória resta-me apenas o frio, o escuro e o último olhar. Agarrei-lhe o tecido das calças, e abracei-o pela cintura. Tocou-me na cabeça e disse que não podia ficar. Nunca fui pessoa de insistir. Mas insisti. Uma, duas ou três vezes. Talvez mais. Voltei para junto da minha mãe, e da minha tia. Ele afastou-se alguns passos. Olhou para nós, aquele último olhar que me resta na memória. Ou talvez já nem seja esse último olhar, não sei. Virou-se e caminhou lentamente, subindo a rua empedrada. Uma lágrima queria sair-me dos olhos, mas eu não deixei. Queria que ele ficasse, a minha mãe insistira. Eu também. A minha tia aconselhara-o igualmente a ficar. Ele disse que não, que não podia ficar. Já era noite.

Acordei, à pressa vesti-me, empurrei os cadernos, os lápis e borrachas, os livros, a tralha para dentro da mochila vermelha. Ainda anda aí por um canto. Uma prima minha oferecera-ma. Era vermelha e branca, e no bolso de fora tinha escrito, a letras garrafais, vermelhas e maiúsculas, QUEEN. O nome da banda de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Comi pão migado em leite com café. Era sempre o meu pequeno-almoço. Por nada deste mundo aceitava outro. Tinha que ser pão migado em leite com café, na minha tigela preferida. A tigela partiu-se meses, ou anos, depois. Anos depois a minha avó, que me dera aquela, deu-me outra igual. Ela não sabia, mas tinha pintado o desenho de um boneco animado de uma série alemã, ou talvez austríaca, que eu via todos os dias na televisão. A televisão era a preto-e-branco, comprada pouco tempo depois de eu ter nascido. Mas ali o boneco era a cores. O cabelo e o nariz são vermelhos, a t-shirt é amarela e as calças são verdes. Não sei se na televisão as cores do boneco eram as mesmas, mas a tigela está aqui para comprovar a minha memória. Acabei de comer, despedi-me da minha mãe e corri para a escola. Não era que tivesse muita vontade de ir para a escola; fugia do frio da rua.

Ia a manhã a meio quando a minha vizinha veio ter comigo à escola. Bateu à porta, a professora calou-se, a sala ficou imersa no nosso silêncio. A professora foi abrir a porta. O silêncio dera lugar ao barulho. A professora conversava com a minha vizinha. Ela apontava para mim, queria falar comigo, mas não queria dizer o que se passava. A professora não a queria deixar entrar, mas ela insistia. E quando a minha vizinha insistia, não havia nada que a demovesse. A professora teve que aceitar, resignada. Ela chegou-se à minha beira e disse-me, depois de me agarrar, me fazer uma festa na cabeça, com os olhos vermelhos de lágrimas que tentava segurar nos olhos, directa ao assunto, sem meias palavras, que ela não sabia muitas, havia quem a achasse louca, porque era gaga e tinha dificuldades em exprimir-se: o teu pai morreu.

Levou-me com ela para fora da sala. Foi falar à professora, trouxe a minha mochila, e fomos para minha casa. A minha mãe não estava. Aos poucos chegaram alguns familiares. Ninguém sabia como dizer-me; houve até quem tentasse mentir-me, dizendo-me que o meu pai estava muito mal no hospital, que ainda não se sabia nada, que estavam à espera que a minha mãe chegasse. Eu até queria acreditar nisso, mas eu já sabia. Não chorei. Nunca, em toda a minha vida, chorei no momento, na hora. Às vezes choro uma semana depois, outras meses, algumas anos depois. Nunca chorei de dor, de saudade, de pena ou alegria. Há quem me ache frio por isso. Quando choro é raiva. Raiva por me sentir impotente. Choro de raiva, quando finalmente admito que nada posso fazer, nem mesmo chorar, por isso choro, mas choro pouco. Depois chorei, sozinho. Dois ou três dias após o meu pai estar enterrado. De raiva, como quem dá um murro de cima de uma mesa. Ele subiu a rua empedrada. Estava uma noite escura e fria. Ainda olhou para trás uma última vez, o último olhar que recordo, subiu para o tractor e partiu. Dez, ou quinze, ou mesmo vinte minutos depois estava morto. Estávamos no dia 14 de Novembro de 1988.

*Quando tu morreste, parte de mim morreu contigo. Texto originalmente publicado AQUI.

4 comentários :

  1. Recordo-me perfeitamente deste teu texto, tão tocante.
    Mas fui lê-lo de novo, e reparei que "naquele tempo" ainda havia 30 comentários...pobre blogosfera, que também está numa grave crise.

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  2. Sim, os comentários diminuíram imenso. A actividade de qualquer blog/blogger era muito maior; mas também havia muito menos blogs... As pessoas concentravam-se mais nos mesmos lugares...

    Enfim, a Crise é geral, não é apenas económica. Aliás, se fosse somente económica, há muito que estaria ultrapassada... Abraço.

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