terça-feira, 19 de março de 2013

Falar de Barriga Cheia*

Belmiro de Azevedo, Clube dos Pensadores

Belmiro de Azevedo, no Clube dos Pensadores (leiam Clube dos Pensadores entre aspas, e em itálico):

«Temos sido engenhosos para fazer essas manifestações, que é quase um Carnaval, mais ou menos permanente e não tem havido grandes desastres.»
«Enquanto o povo se manifesta, a gente pode dormir mais descansada. O pior é quando não se manifesta.» Difícil não concordar. Só um cego ou um idiota é que ainda não percebeu que estas manifestações não têm tido nenhuns efeitos práticos de relevo. Podem mudar uma ou outra medida pontual, mas em geral continua tudo na mesma.

«Para os trabalhadores é que neste momento, sobretudo, infelizmente, para os muitos desempregados, aquilo é um divertimento. Como sabem aquilo não é inocente, alguém paga os autocarros. É preciso ver o que é que está por trás das manifestações.» Não sei se tem havido autocarros a levar pessoas para as manifestações - refiro-me àquelas que não são organizadas por sindicatos. Dizer que são um divertimento para os desempregados é falhar completamente o alvo; que têm servido de catarse, sim. Agora divertimento? O que está por trás? O descontentamento, a frustração, a desilusão, o cansaço, sei lá. Divertidas talvez fossem as Greves Gerais que durante longos anos eram mais um feriado...

«Diz-se que não se devem ter economias baseadas em mão-de-obra barata. Não sei por que não. Porque se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém.» Portanto, se não for a mão-de-obra barata, pára o País todo. Se não fosse a mão-de-obra barata não haveria fortunas desmesuradas, nem empresas que valem mais que o PIB de muitos países...

«A economia só pode pagar salários que tenham uma certa ligação com a produtividade.» Pois. Desde os anos 70 que a produtividade não parou de aumentar, no entanto os salários estagnaram. Ligação há, claro que há. Não me parece é que seja a correcta.

«Há muitas actividades, nomeadamente no sector primário, em que a mão-de-obra, que Portugal tem muita e em excesso, é indispensável para que possam continuar.» Para que as empresas de distribuição possam comprar produtos ao preço da chuva e vendê-los ao preço do ouro.

«Numa sociedade democrática o Estado não devia ter o direito de confiscar.» Não podíamos estar mais de acordo. Confiscar é um direito que ninguém deveria ter. Mas confiscar não é apenas taxar os depósitos bancários... Há muitas outras formas de confiscar, nem todas realizadas pelo Estado, e com outros nomes...

*Falar de barriga cheia é fácil. Em Portugal muita gente o faz. Parece até que é um dos desportos de eleição das elites económico-sociais de Portugal. É que falar de barriga cheia é uma actividade que se pratica facilmente, sentado no conforto de uma cadeira. Exercitem-se um pouco, e deixem-se de discursos moralistas e paternalistas. Se não têm nada de novo a acrescentar, pratiquem golfe. O País e o Turismo agradecem.

Post-Scriptum: Já levantaram o vosso dinheiro? Se o Vítor Gaspar diz que em Portugal está fora de questão uma medida desta natureza  - já se sabe - vai acontecer o contrário. Diz ele que foram as autoridades cipriotas a propor a taxa sobre os depósitos bancários - proposta entretanto chumbada no parlamento cipriota. Eu na Comunicação Social já tenho muita dificuldade em acreditar. Mas aqui dizem o oposto. Quem mente?

2 comentários :

  1. Respostas
    1. Isto vai dar merda, mais cedo ou mais tarde, em Portugal e na Europa. Não sei é se aqueles que irão para a merda serão aqueles que deviam ir... E mesmo que sejam, antes de dar merda, já muito foram e outros terão ido, que nada fizeram para se verem agora na merda, por culpa de merdosos... Enfim, é uma merda.

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