segunda-feira, 11 de março de 2013

A praga dos Estágios Curriculares

Mercado de Trabalho, Portugal, Desemprego, Estágios Curriculares, Crise, Valores, Moral, Ética, Escravatura, Slavery, Unemployment,

É a nova moda dos "empregadores". Precisam de trabalhadores, empregados, colaboradores - os nomes são tantos - para realizar um qualquer trabalho, e o que procuram? Estagiários. Estagiários Curriculares, mais especificamente, com horário de trabalho completo, responsabilidades totais, e remuneração zero.

O que é, afinal, um Estágio Curricular?

Os estágios curriculares são uma parte integrante de uma determinada formação académica, e para serem realizados tem que existir um protocolo entre a Instituição de Ensino e a Entidade Empregadora. Nos currículos académicos, os estágios têm uma determinada duração (p.e., 1000 horas), e são considerados estágios curriculares aqueles que têm um carácter obrigatório para a obtenção de um grau académico; associada à realização do estágio está habitualmente a realização de monografias ou teses sobre o mesmo.

Habitualmente o estudante é acompanhado por dois orientadores (um orientador interno, designado pela Instutuição de Ensino Superior, de acordo com a área de estudo a desenvolver no estágio; e um orientador externo na Empresa/Instituição onde for realizado o estágio) na realização do seu estágio. Para a realização de um estágio curricular, além do Protocolo de Estágio entre a Instituição de Ensino e a Entidade Empregadora, deve haver um Protocolo a celebrar entre o estudante/estagiário e o empregador, bem como indicação do orientador externo; deve existir um formulário de qualificação do orientador externo; e a realização do estágio deve ser feita de acordo com um Plano de Estágio.

Os Estágios Curriculares não são remunerados. 

Os Estágios Curriculares não são remunerados, embora há alguns anos fosse prática corrente de muitas empresas darem uma "gratificação", chamemos-lhe assim. Nesse tempo, na maioria das Empresas, a admissão de um Estagiário Curricular era vista mais como um sacrifício - algo que se fazia mais por responsabilidade social, que por vontade. A maioria das Instituições de Ensino têm protocolos com diversas entidades nas quais é possível aos seus estudantes realizar os estágios curriculares. Algumas permitem aos estudantes, se estes assim o entenderem, a procura de outras entidades para a realização dos seus estágios. No entanto, os estágios nessas entidades têm que cumprir os pressupostos/objectivos dos demais. Também há Instituições de Ensino que apenas permitem a realização dos estágios nas entidades com quem existem protocolos. E há outras que não têm quaisquer protocolos, ficando os estudantes com o ónus de encontrar um entidade que lhes permita a realização dos estágios.

O que não era prática corrente, de todo, é aquilo a que se assiste hoje: empresas de todos os géneros e feitios, desde empresas unipessoais, empresas de prestação de serviços, pequenas, médias, e grandes empresas, empresas privadas e empresas públicas, associações, fundações, e etc, etc, etc, a procurar activamente candidatos à realização de estágios curriculares. Candidatos esses que têm que ter - isto é a título de exemplo, basta fazerem uma pesquisa num motor de busca ou em sites de emprego - 3 anos de experiência, falar 2 ou três línguas, serem especialistas nisto ou naquilo. Candidatos que têm que passar por um longo processo de Recrutamento e Selecção, como qualquer outro candidato a um emprego. Candidatos que não frequentam qualquer Instituição de Ensino.

Não sei como é que estas empresas enquadram legalmente as pessoas que aceitam trabalhar de graça durante quatro, seis, nove, doze meses (seja o que for) na esperança de futura integração na empresa. Sim, os anúncios dizem isto mesmo: com possibilidade de integração. Afinal, tem que haver sempre uma pequena contrapartida, ainda que seja uma miragem, para manter as pessoas motivadas - por menor que seja a motivação. Embora também existam muitos anúncios destes em que a contrapartida é a generosa obtenção de experiência.

Os estágios curriculares podem ser ou não realizados com horário de trabalho completo - em termos de horário de trabalho, o importante é que o estagiário realize o número de horas exigido pelo currículo académico. 
Os estagiários curriculares, com maior ou menor independência na actividade, função, ou trabalho, que vão realizar devem ser orientados - os estágios curriculares são uma oportunidade para os estudantes porem em prática os seus conhecimentos académicos/científicos e aprenderem a desempenhar a função na qual vão estagiar. Isto é, a responsabilidade nunca pode ser totalmente do estagiário. 
Por serem parte integrante de um plano de estudos, os estágios curriculares não são remunerados. Não serem remunerados é o único aspecto em que não há nada de anormal nisto tudo. Porque tudo o resto é a tão pretendida flexibilização do mercado de trabalho. Os escravos agora são-no voluntariamente, e para serem escravizados ainda têm que competir pelo lugar. 

Nesta nova era - em que há cada vez menos postos de trabalho - ética, moral, valores, e vergonha têm sido destruídos mais rapidamente que os postos de trabalho...

2 comentários :

  1. É a situação actual do Déjan, na Sérvia durante um ano.
    Ao menos que dessem uma ajuda para deslocações...

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    1. Olha, o Blogger tinha enviado este comentário para o SPAM, e só agora - por mero acaso - é que vi... Abraço

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