quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

memórias pequenas #7

Tínhamos uma caixa mágica; uma promessa; e uma frase de código: comunicávamos numa linguagem só nossa, em que as palavras tinham uma conotação própria, uma conotação íntima, uma conotação afectiva. Quando falávamos de uma coisa qualquer era de outra coisa qualquer que falávamos. Um dia destes lembrei-me de ti (bem sei que é mentira, que para nos lembrarmos de alguém, antes precisamos de nos esquecer): no dia de anos do director do colégio havia uma festa (ainda há? suponho que sim); naquele tempo a festa era à noite - depois mudou, passou a ser à tarde - talvez tenha sido o último ano que foi à noite - era uma festa de culto da personalidade - coisas de fascistas - mas nós desconhecíamos o significado de tal palavra - e fomos jogar às escondidas. Lembrei-me de ti porque era o dia de anos do director do colégio* e, chorando por dentro, por dentro apenas, só consegui perguntar-me: Porquê? Porque é que tinhas que morrer? Se eu acreditasse num significado transcendente para tudo isto, pedir-te-ia para que me respondesses lá de onde estás. Mas eu não acredito nisto - nem em nada. E ainda assim não deixo de esperar uma resposta.


*5 de Fevereiro

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