segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

As velas ardem até ao fim



Podia tecer diversas considerações sobre esta obra. Mas iria mais uma vez derivar para o meu caso particular: sim tive (tenho) um destes amigos fatais de que fala Sándor Márai. As velas ardem até ao fim não é um tratado sobre Amizade, é o tratado. Por ter esse amigo fatal a que estou unido como a um irmão gémeo, em cada linha lia-me. E após acabar a leitura deste romance, só me apetece enviá-lo a todas as pessoas que alguma vez me chamaram amigo. Porque amigo é uma palavra tão cara, mas tão mal empregue, tão mal gasta, tão mal aproveitada - que quando damos conta estamos com dívidas astronómicas. Porque amigo não é uma palavra acessível a todas as carteiras-almas; não há igualdade nem democracia na amizade, porque a amizade escolhe, exclui, ou ignora - sem nenhum critério além da própria amizade.
As velas ardem até ao fim - e no fim de tudo resta apenas a chama bruxuleante, dum pavio decrépito, que já quase não emite luz nem calor - e de repente se apaga. Todas as paixões, amores e ódios, alegrias e tristezas, mágoas, angústias, derrotas e conquistas... Tudo se transforma em cinza inútil.

As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Uma pessoa imagina - e o meu pai entendia as coisas dessa maneira - que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. (p. 82)

- Falas de fuga - diz Konrád. - Essa palavra é forte. Afinal de contas, não devia nada a ninguém. Renunciei ao meu cargo, como era devido. Não deixei dívidas sórdidas atrás de mim, não prometi nada a ninguém que não tivesse cumprido. Fuga é uma palavra forte - diz com seriedade, e endireita-se um pouco.
Mas a sua voz trémula revela que a emoção, que nesse momento torna essa voz séria, não é inteiramente sincera.
- É possível que a palavra seja forte - diz o general com um sinal de consentimento. - Mas se olhares de longe aquilo que aconteceu, tens de admitir que é difícil encontrar uma palavra mais suave, mais branda. Dizes que não devias nada a ninguém. Isso é verdade e não é verdade. Naturalmente, não devias ao teu alfaiate, nem aos usurários da cidade. Também não me devias dinheiro, nem promessas. E todavia, naquele momento, naquele dia de Julho - vês, lembro-me do dia também, era uma quarta-feira -, quando abandonaste a cidade, sabias que deixavas dívidas atrás de ti. (p. 84)

E às vezes cheguei a pensar que a amizade talvez seja uma ligação semelhante à união fatal dos gémeos. Uma identidade singular da inclinação, da simpatia, do gosto, da cultura e da paixão une duas pessoas no mesmo destino. Faça o que fizer um deles contra o outro, os seus destinos são comuns. É inútil que um deles fuja do outro, porque sabem tudo, que é essencial, um do outro. (...) O destino dessas pessoas cumpre-se paralelamente, mesmo que vá um deles para longe do outro, bem longe, por exemplo, para os trópicos. (p. 86)

Sándor Márai em As velas ardem até ao fim, Publicações D. Quixote, 24.ª edição.

7 comentários :

  1. Respostas
    1. E para usar uma palavra utilizada pelo narrador eu diria: e fatal...

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  2. Respostas
    1. João, a minha avaliação: 19/20. O valor que não lhe dou refere-se apenas a isto: há momentos em que o narrador podia ir um pouco mais além, ser mais radical. Há momentos em que podia tocar no ponto, ao invés de apenas o mostrar. Mas talvez a obra perdesse enquanto romance... Abraço.

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  3. O excerto da página 82 diz tudo o que há a dizer sobre a amizade. A amizade é a aceitação plena do outro. E é rara, muito rara.

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    1. Carlos, o Sándor Márai escreve que «a amizade é um serviço». Eu sempre tive para mim, e ouvi isto de outros, pelo que não é nada original, que «a amizade é um posto». E um posto nunca se abandona. Sim, é muito rara... Abraço

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    2. Sim, André, é um posto; é dizer «presente» sempre que seja necessário. Abraço.

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