domingo, 13 de janeiro de 2013

A Praga

Paris, Notre Dame


Dos livros que comprei nas minhas férias houve um que li de imediato: «Mazagran - Recordações e outras fantasias». Apesar disso não pude separar-me dele, tive que o trazer comigo para a Suíça, para ir lá de vez em quando reler algumas das crónicas que o compõem. Entre os 104 textos que integram este livro, muitos houve que saboreei lentamente; houve um que teve um sabor especial. Recordou-me daquilo que eu havia escrito aquando da minha viagem a Paris (onde fui para visitar a minha sobrinha, então recém-nascida, sem que tenha conseguido escapar ao rebanho - ou multidão - levado pela busca desenfreada da companhia que apenas queria riscar lugares no seu mapa mental dos lugares onde já esteve): 

(Os turistas, supostos viajantes na sua ideia, abandonam países. Trazem consigo um mapa, onde riscam lugares: neste já estive, este já fotografei, aquele já vi. Correm como ovelhas de um louco rebanho a assinalar locais. A foto com a Torre Eiffel em plano de fundo, a posse frente ao Moulin Rouge, a triunfal fotografia ao Arco do Triunfo, a rápida mirada à Catedral de Notre-Dame, a passagem pelos jardins e museu do Louvre, a ida apressada ao Sacré Coeur. Aos turistas, supostos viajantes no conceito que têm de si mesmos, mais valia procurarem imagens no google e transferi-las para o cartão de memória da máquina fotográfica: ficavam a conhecer o mesmo e ficava-lhes mais barato).
 
Um excerto da crónica de J. Rentes de Carvalho, «A praga» (pp. 222-224):


Por vezes penso que ainda há esperança e que o bom senso levará a melhor. Mas ao ler que este ano, em torno do mundo, mais de 600 milhões de turistas terão atravessado as fronteiras e ido de praia para museu, de catedral para ruínas romanas, de parque de estacionamento para parque de atracções, de porto típico para gruta pré-histórica, mergulho em desalento.
Perseguem-me as imagens que todos conhecemos dos monstruosos ajuntamentos. Meio milhão de corpos numa praia, meio milhão ou mais na seguinte. Filas de automóveis com dezenas de quilómetros. Os onze milhões de basbaques que anualmente passam as portas da catedral de Notre Dame em Paris. Onze milhões!
Para ir ver e dizer que viram. Para poderem escrever para casa o postal com as palavras imortais: «Esplêndidas férias. Vamos bem».
Mas Notre Dame e milhares de outros monumentos, reservas naturais, praias e florestas, não vão bem. Por toda a parte são visíveis os estragos que lhes causa a desenfreada «admiração» do turista. (...)

(...) nenhuma força contrariará o instinto poderoso de rebanho que os leva a procurar na Costa Brava o mesmo sol que brilha nos seus quintais. Nenhum sermão os convencerá de que o seu comportamento não é o dos indivíduos que eles próprios julgam ser, mas o de eternos carneiros, tão dóceis que nem precisam de pastor: vão porque os outros vão ou porque os outros foram.
Nesta ânsia de movimento e imitação, de ver e palpar, pela simples força do seu número conseguem destruir o que tinha resistido séculos. (...)

Felizmente, ainda nem tudo está perdido. Pelo menos na Itália - a Itália de quem sempre se diz que é desleixada, que não sabe cuidar - as autoridades tomaram a sábia medida de pôr a bom recato as obras de arte mais frágeis, substituindo-as por réplicas. (...)

(...) A indústria e o comércio enfeitiçam-no com folhetos sobre paragens exóticas, onde o sol brilha em permanência e todos os dias são de festa. Onde o mar é sempre calmo, o bosque sempre verde, o amor e a amizade sempre à mão. E ele, crente, só sonha em partir.
Por isso não há esperança, o que entristece. Mas há um prazer malicioso em imaginar o turista, macaqueador por excelência, caminhando em massa para os museus de réplicas num mundo de pacotilha.

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