segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho*

Pedro Passos Coelho

O que leva o Primeiro-Ministro de um país a pegar no seu telemóvel - talvez sentado a uma qualquer mesa de casa com a mulher, talvez sentado a uma qualquer mesa de escritório ou restaurante, em amena cavaqueira [palavra que aqui assenta que nem uma luva] com amigos ou ministros, e escrever a mensagem abaixo?

Mensagem Natal Pedro Passos Coelho

Oh Pedro, sinceramente, não tens mais que fazer? Muito sinceramente só tenho isto a dizer-te: «Vai-te foder!» Vai-te foder, tu e o teu smartphone, vai-te foder, tu e as tuas banalidades, vai-te foder, tu e o teu ridículo sentido de oportunidade. Vai-te foder, e leva contigo os teus ministros e restante tralha humana. 
Tentar demonstrar-te que tens em mãos a responsabilidade de exercer uma função (para a qual foste eleito) para a qual não tens quaisquer habilitações [pessoais, sociais, humanas, académicas, etc], já o percebi há muito, é completamente inútil. Não tens habilitações para o perceber.


*Neste momento já não deve haver ninguém que ainda não tenha de algum modo conhecimento dela.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ernestina em Italiano

José Rentes de Carvalho, Ernestina, Ernestina in Italiano

Uma óptima notícia: já posso oferecer um bom livro aos meus amigos Suíços que falam italiano, e italianos que estão na Suíça. Esperemos que em breve apareçam edições em inglês, francês, espanhol, alemão... Além demais adoro ouvi-los falar esta bela língua. [Entretanto, estou quase a acabar a leitura de Mazagran - recordações e outras fantasias...]

Con molto talento e umorismo, in questo romanzo Rentes de Carvalho ci racconta le sue memorie d’infanzia e le storie dei suoi antenati, che hanno vissuto tra la fine dell’Ottocento e l’inizio del Novecento in un paese sperduto del Douro: l’entroterra del Nord del Portogallo. Ernestina è allo stesso tempo il vero nome della madre dell’autore e dell’intrepida protagonista del suo romanzo. Su di lei Rentes de Carvalho ha dichiarato: “Madre di un solo figlio, la sua vita è stata così triste, amara e piena di solitudine, che non scrivere un romanzo su di lei era impossibile. E così l’ho scritto. La sua morte ha spezzato l’ultimo filo che mi teneva legato alla terra in cui sono nato”. Curiosamente, Ernestina è anche il nome del primo amore con cui il bambino, una volta diventato adolescente, perderà la verginità. Una specie di ritorno alla madre, o di fuga dalla madre, il passaggio nell’età adulta che deve però, suo malgrado, superare il velo di un inconfessato incesto. Un viaggio emozionante, tenero e divertente tra le memorie e le storie di una vita familiare e la descrizione di un mondo rurale che non esiste più in Europa. Considerato un capolavoro della letteratura del Ventesimo secolo, Ernestina ha convinto pubblico e critica. (DAQUI, via Tempo Contado)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ainda não foi o fim do mundo...

Salvador Dali, Caveira, Philippe Halsman, In Voluptas Mors

Não tendo vindo o fim do mundo até nós, fui eu para o fim-do-mundo, qual profeta sem religião, sem fé, sem casa, sem amor... Por este motivo o blog ficará nos próximos tempos mais parado que habitualmente, as respostas a e-mails e comentários poderão não ser imediatas - como talvez o exigissem em muitos casos. Chegado a Portugal, perdão - ao fim-do-mundo - fui aproveitar-me das poucas coisas boas que ainda há por aqui (admiravelmente ainda por taxar e impostar): comprei o último do J. Rentes de Carvalho, o último do Américo Rodrigues (aproveitei para comprar outros dois, um de teatro e outro de crónicas), os do último Prémio Nobel da Literatura, Mo Yan, e mais uns quantos para aplacar esta fome. Em casa tinha outros repastos enviados por amigos - logo logo lhes dedicarei os devidos agradecimentos. Não aqui no blog, pessoalmente, o que nem sempre é possível. Raridades da poesia profana, e da poesia pornográfica. Já vos desejei um Feliz Natal? Já, pois já. Vou-me ali a aguentar a depressão de estar aqui no fim-do-mundo, tomar uns cafés com os amigos, passar umas horas com a sobrinha, a irmã, a mãe, a madrinha... Sejam Felizes!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Merry Christmas

Christmas Three, Árvore de Natal, Sapin de Nöel, Árvore de Natal de Livros, Books Christmas Three

Esta é a época em que no telemóvel aparecem chamadas e sms's de pessoas que durante um ano não deram um sinal de vida - que até nos evitaram, que até nos ignoraram, que até nos esqueceram e desprezaram. É a pior parte do Natal, e dá-me a volta ao estômago. Por maior que seja o «espírito natalício», às vezes a conversa tresanda tanto que me é irresistível fazer o que fiz hoje: mandar alguém para a puta que o pariu. Bem sei que é um caso extremo, mas às vezes pagam todos por tabela. Perdi a paciência para estas pessoas e para as suas espontâneas manifestações de amizade. Que não queiram saber - estão no seu direito, ninguém é de ninguém - agora era de bom tom que não se dessem ao trabalho de nos dizer que existem. Que tenham a dignidade de morrer longe.

Sabemos muito bem distinguir quem está "longe" porque quer de quem está "longe" porque não pode estar perto, mas negamos isso a nós mesmos como forma de não deixarmos morrer dentro de nós aquele pedaço que foi daquela pessoa e que foi deixado ao abandono como um animal de estimação que já não se deseja. Eu por mim prefiro morrer à fome que aceitar migalhas. Que vão praticar a caridade - real ou metafórica - para a puta que os pariu. Não aceito que venham lavar a consciência à minha casa. "Amor", "Amizade", "Família", são palavras bonitas. Agradeço a estas pessoas apenas que não as conspurquem - já que não as querem valorizar e apenas as utilizam se e quando delas precisam. Não tenho mais pachorra para a prática da hipocrisia.

Desejo-vos um Feliz Natal junto daqueles que amam e que respeitam e valorizam (correspondem) o vosso amor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Amigos para sempre como nas histórias de encantar...

Amigos, Amigos hasta la muerte, Amigos para sempre, friends forever,

Nas histórias de encantar os amigos são para sempre, o amor também, e o mais pobre e feio dos pedintes encontra a mais bela e rica das princesas, casam, têm muitos filhos, e são felizes... para sempre. O lenhador, o moleiro, o pastor, o caçador, pobres, viúvos, e com muitos filhos a seu cuidado, encontram a fortuna. A velhinha, o órfão, o mendigo, tristes e solitários, descobrem uma família que os acolhe. Os maus, os avarentos, os cruéis, os mentirosos, os vilões, as bruxas, os ingratos, os salteadores, são castigados. E às vezes tudo corre mal...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Suíça: Swiss-ídios

Suiça, Switzerland, Svizzera, Schweiz, Svizra, Suisse

Deve ser do conhecimento de muitos, mas para mim foi novidade lê-lo no jornal holandês de Volkskrant. E porque perturba a noção bucólica que eu tinha da Suíça - montanhas, neve, lagos plácidos, rios de dinheiro - é melhor tocar já no caso, do que voltar a remoê-lo, como esta noite, na escuridão da insónia.
Juntamente com a Finlândia e as nações da antiga União Soviética, a monótona e bem arrumada Suíça encabeça no mundo inteiro o número de suicídios.
Nela, uma média anual de 1.500 desesperados acaba com a vida, quase o dobro do número das vítimas de acidentes de trânsito e abuso de droga, o qual ronda os 800.
O particular desses suicídios é 40% deles serem cometidos com armas de fogo, e essas armas fazerem parte do incrível arsenal que o Estado oferece aos cidadãos. Sujeito que acaba a recruta leva a arma para casa, não vá o inimigo aparecer de repente, de modo que cerca de dois milhões e meio de pistolas, carabinas, metralhadores, se encontram, por assim dizer, à mão de semear dos sete milhões de almas.
Transtorno nos amores ou na cabeça, chatices da vida, desesperos, desenganos… o suíço só precisa de ir à cozinha e tirar de lá a Parabellum. Não está certo. Não devia ser tão fácil. 

J. Rentes de Carvalho, no blog Tempo Contado.

Os Cadernos Secretos de Sébastian


Quem quiser deitar dinheiro fora este Natal já pode comprar o meu proto-romance, em versão IMPRESSA ou E-BOOK


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

«A amizade é uma espécie de amor que nunca morre.»*

Samuel Johnson and James Boswell, James Boswell, Samuel Johnson


Descobri hoje a maravilha que é ter uma máquina de lavar louça, e assim ganhei tempo para tomar banho** e começar a folhear Life of Johnson, biografia de Samuel Johnson escrita pelo seu amigo James Boswell. A melhor biografia jamais escrita em inglês, de acordo com a opinião de Harold Bloom, opinião que traduzida de bloomiano para português quer dizer que é a melhor biografia jamais escrita. "Boswell is the first of biographers. He had no second." Afirma Thomas Babington Macaulay, conforme escrito na contracapa do livro com mais de 1500 páginas - enviado por amigo que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente - que fui levantar ontem à La Poste.

Diabo! Como é que se agradece isto? Obrigado.

*Mario Quintana, em Porta Giratória (fonte). Porque a biografia também é sobre a amizade; porque eu gosto muito desta frase lamechas, q.b.; porque a amizade é algo que me dói no fundo ferido da alma - porém não é o lugar nem a hora de tabelar a palavra amizade pela bitola do dejecto humano a que chamo melhor amigo.

**Tenho pena que os meus amigos não entendam o non-sense. Nunca leram Alice nem sabem quem seja Boris Vian. Pedir-lhes que conheçam Edward Lear talvez já fosse um pouco demais, mas ao menos Vian, ou Lewis Carroll...

Adenda. Harold Bloom, no capítulo 8 - Dr. Samuel Johnson, o Crítico Canónico - de O Cânone Ocidental:

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Notas de Escudo que substituirão o Euro...

Nota de 100 Escudos com imagem de Fernando Pessoa (versão antiga aqui)


O Euro vai acabar? E se o Euro acabar? Gonçalo Alho redesenhou algumas das antigas notas de Escudo, fazendo-as literalmente regressar do mundo dos mortos...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

facebook offline

facebook, facebook offline
O facebook está offline, e ninguém sabe o que se passa. Desta vez nem sequer dá para aceder a uma página de aviso, está simplesmente inacessível. Alguém tem alguma informação?

Actualização: 15 minutos depois, o facebook está de volta. Pelo menos para mim. Alguém com dificuldades em aceder?

domingo, 9 de dezembro de 2012

O Amigo Dedicado - Conto de Oscar Wilde

Friends, Amigos, Melhores Amigos, Best Friends, Graffiti



O AMIGO DEDICADO

Certa manhã o velho Rato d'Água pôs a cabeça fora do buraco. Tinha uns olhos redondos muito vivos e uns duros bigodes cinzentos, e sua cauda parecia um comprido elástico negro. Os patinhos estavam a nadar na lagoa, semelhantes a um bando de canários amarelos, e a sua mãe, toda branca com patas vermelhas, esforçava-se por ensinar-lhes a manter a cabeça dentro d'água.
- Vocês nunca poderão frequentar a boa sociedade se não aprenderem a manter a cabeça dentro d'água - dizia-lhes. E de vez em quando mostrava-lhes como devia ser feito. Mas os patinhos não lhe prestavam atenção alguma. Eram tão jovens que não sabiam que vantagens existem nisso de frequentar a sociedade.
- Que criaturas desobedientes! - exclamou o velho Rato d'Água. - Mereciam realmente afogar-se.

Palavras - Poemas de Carlos Drummond de Andrade



A Palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

In «A Paixão Medida»

sábado, 8 de dezembro de 2012

I'm Watching You: Amazing Mind Reader Reveals his Secret...

O Rouxinol e a Rosa - Conto de Oscar Wilde

O Rouxinol e a Rosa, Oscar Wilde

Post n.º 500. Para celebrar a marca, um conto que fala de Amor e Morte:

— Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas — exclamou o Estudante — mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
— Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! — repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas. — Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! — disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Casa Incendiada, de Américo Rodrigues

A Casa Incendiada, Américo Rodrigues
© Fotografia Américo Rodrigues

A CASA INCENDIADA | Américo Rodrigues
Tiragem 250 exemplares | 140 Páginas
Capa e Trabalho Gráfico: Jorge dos Reis
Impressão: Oficinas de São Miguel | Guarda



8 de Dezembro | 17h30
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço | Guarda
Lançamento do livro “a casa incendiada” de Américo Rodrigues
Apresentação por José Manuel Mota da Romana

8 a 31 de Dezembro
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço | Guarda
Exposição “Américo Rodrigues: palavras em voz alta”

8 de Dezembro | 21h30
Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda
“Fugir de casa”, leituras e música por Américo Rodrigues e Victor Afonso

15 de Dezembro | 21h00
Galeria e Livraria “Fabula Urbis” | Lisboa (Rua Augusto Rosa, 27)
Lançamento do livro “a casa incendiada” de Américo Rodrigues
Apresentação por Manuel Poppe
Leituras e música por José Neves, José Tavares e Rogério Pires

Organização: Luzlinar e Bosq-íman:os

Informação: Café Mondego.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Indiferença à Saüdade*


Escrevo-te esta carta em plena solidão… desde que foste embora tudo ficou tão cinzento por aqui, o meu rosto enruga-se, o meu coração aperta-se cada vez mais pela falta que fazes do meu lado… tenho medo que quando os nossos olhares se voltarem a cruzar se tenha perdido aquela magia que nos ligava, e apenas as tuas fotos e milhares de memórias são o pouco que tenho para me ajudar a matar o tempo enquanto estás longe.

Sinto falta dos momentos em que a nossa simples troca de olhares dizia tanto… dizia tudo! O teu olhar, o teu sorriso eram contagiantes. Perdia-me neles horas a fio sem que tu notasses, eram como alimento para um coração que tinha desacreditado de amar, e tu devolvias-me a crença apenas por seres tu mesma.

A distância é amarga, deixa-nos como um menino vadio sem saber para onde ir e sem saber o que fazer, sem porto de abrigo… Invades os meus sonhos, trazes neles aquele carisma que te caracteriza, respiro-te em tudo à minha volta nos aromas que ressuscitam momentos antigos, ouço a ecoar-te no meu pensamento com as palavras genuínas que tinhas para todas as situações. Vejo-te em todo o lado meu amor… e quem dera ver-te.

Já é Outono… e por mais que as folhas do calendário vão caindo, os dias sem ti parecem sempre os mesmos… nostálgicos, lentos, como se fizessem realmente questão de mostrar o quanto estamos longe um do outro. Enquanto me divido pelos espaços vazios da casa que me despertam lembranças da tua voz que os completavam, sinto o pesar da saudade a crescer a cada movimento dos ponteiros do relógio, sinto o frio miudinho das noites em que não tenho o teu aconchego, e só o cigarro é o meu cúmplice fiel enquanto te escrevo estas palavras. Dava o mundo para sentir um abraço teu… Fico sem o meu mundo sem o teu abraço.

O Relógio rompe tão devagar o tempo que conto com a incerteza… isto é uma carta de amor! A que tu nunca recebeste… a que tu te reservas a ler com medo de chorar… chorar é o amargo que desflora a saudade que se sente da doce presença de um passado… aperta bem estas palavras a ti, não agora , mas quando elas te encherem com o seu sentido… construímos na cumplicidade de simples olhares o que destruímos aos poucos por disparidades… foi só mais um dia solitário por não te ter perto.

Texto do meu brother in arms Trëk.

Procissão, texto de J. Rentes de Carvalho

Procissão, Militão dos Santos
Procissão, de Militão dos Santos

Francisco José Viegas regressou ao A Origem das Espécies - de onde nunca devia ter saído - a tempo do regresso de J. Rentes de Carvalho ao Tempo Contado. Francisco José Viegas regressou com um post de homenagem a J. Rentes de Carvalho, reproduzindo o texto lido por J. Rentes de Carvalho na cerimónia de entrega do Grande Prémio de Literatura Biográfica APE/Câmara Municipal de Castelo Branco, atribuído à obra Tempo Contado, que já havia sido publicado no blog da Quetzal, editora em que Francisco José Viegas decidiu, em boa hora, (re)publicar a obra de J. Rentes de Carvalho com o rigor e visibilidade que merece. Só por isso, já o disse, perdoo ao Francisco José Viegas ter-se deixado arrastar por gente tão enlameada. Talvez não esteja a dar nenhuma novidade aos meus leitores, mas convém sempre repeti-lo, não exista por aí algum menos avisado. A Quetzal tem vindo a publicar livros apetecíveis. Eu não voltarei a comprar nem um enquanto não publicarem Portugal, a Flor e a Foice. Boicotes são boicotes. Não será preciso dizer que as obras de J. Rentes de Carvalho que venham a ser publicadas não entram neste boicote. O blog A Origem das Espécies regressou também à minha lista de links, o Tempo Contado nunca de lá saiu, pois mesmo que J. Rentes de Carvalho não voltasse a escrever lá, uma visita aos posts antigos é sempre recomendada. Como uma procissão, o texto lido por J. Rentes de Carvalho chega agora a este postigo em que me refugio tantas vezes das dores existenciais da vida comezinha. Procissão, de J. Rentes de Carvalho:

"Os tolinhos. Os bufos. Os convencidos. Os pategos. Os membros e as suas esposas. Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e  não é sério. Os fanáticos. Os sinceros. Os que foram maoístas. As bruxas. Os inimigos do povo. As irmãs do Salazar. Os compadres. Os hesitantes. O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina. Os que comem peixe à sexta-feira. Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis. O médico dos Raios-X. A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime. O clarim de Caçadores 9. Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (Marquês de Leça, Irmão da Ordem Terceira, Diplomé des Palmes du Mérite Agricole). O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga. Os heróis do mar. Os gloriosos combatentes anti-fascistas. Os gaseados de 1914-1918 (Flandres). A tia da D. Amália Rodrigues. O cauteleiro de Cinfães. Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300-444  Lisboa. Os que só gostam de cerveja. O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952. A mulher do filho do vizinho do Marcelo. As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas. O emigrante que construiu aquela casa. Os visitantes do Jardim da Estrela. Os dez mais elegantes. Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados. Os manetas e os gagos. O locutor da Rádio Renascença. O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria. O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada. Os três da panelinha. Os três. Os que dizem trinta e três. A Trindade. O senhor Pimpim. Os que leram Marx. O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver. O eléctrico dos Anjos. Os senhores guardas. As senhoras guardas. As gentes da autoridade. Os defensores da ordem. A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas. Os tocadores de violoncelo. Os fascinados pelo destino do proletariado. Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve. O ex-ministro. A Rosa que gosta muito de crianças. Os enfermeiros. As calistas a domicílio. A menina do quiosque. O bispo de Aveiro. Você e eu."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Citação, 18: os estigmas e os mares

Fisco, Confisco, Ratos

Lembro-me por vezes da história desta mulher que coxeou e que simboliza na história do seu país o sofrimento e a determinação de tantos, quando vejo uma colega portuguesa que conheço há vinte anos, empregada, como eu, na marinha mercante norueguesa. Já ultrapassou há muito os cinquenta, coxeia também, em certos dias. Benevolente e correcta, vai arrastando o que lhe resta das forças por turnos de 12 horas de trabalho. Contava-me, há três ou quatro dias, balbuciando por vezes, vermelha, confusa, com as lágrimas a aflorar aos olhos, uma outra guerra: com o fisco português. Que lhe veio devassar os rendimentos obtidos na Noruega, tendo ela, por seu azar, residência em Portugal. E querem, agora, depois da correcção que fizeram após reclamação da interessada, pouco menos que 18 mil euros de IRS referentes a dois anos. Porque inicialmente eram eram três dezenas. Às dezenas é mais redondo.

Isto, é claro, depois de o Estado norueguês já lhe ter cobrado os impostos devidos. Não é sistema que falhe nisso. O que lhe oferece, é um bónus (como a mim ou a qualquer outro que trabalhe no mar em embarcação sob bandeira do país) é uma série de deduções, entre as quais, uma substancial de 80 mil coroas. Que os senhores do fisco português, obviamente, não contemplam nem dela querem ouvir falar. Muito simplesmente, pegam no rendimento bruto, consideram o que foi pago a cada mês de impostos, e exigem o resto, sobre o que noutro país é um salário normal e em Portugal um salário elevado. Quanto ao que a colega paga de aviões, hotéis, comboios, a cada mês que se dirige ao trabalho, não estão nem “prá i” virados. Taxam, como se a colega camareira, saísse a cada dia de sua casa e entrasse na empresa ali ao virar da esquina no fundo da rua. Resultado… um pouco menos que 18 mil euros. Ou seja, a pobre mulher que arrasta o corpo e a tristeza por aqui, terá que se deslocar de sua casa até Oslo onde embarca (a expensas suas) durante os primeiros seis ou sete meses do próximo ano para amealhar o que o fisco português lhe exige de impostos referentes a dois anos passados. O que virá daqui para a frente é incógnito. Que tenha filhos para cuidar e educar, é irrelevante, pais para agasalhar na velhice, idem, se estiver ausente durante os prazos que estipulam, problema seu. E para isto, exigem, ameaçam, espiolham e devassam. Aproveitando-se, é claro, de alguém que não auferiu de educação, nem tem “contactos” que a defendam, ou que a aconselhem.

Destes casos, ao contrário do de Helga Åbel, nenhum cronista croniqueia. Temos o cuco do pinhal da Azambuja que arrulha não-estigmas da vida do mar, os tribunais que entrincheirados em alíneas e parágrafos protegem quem torpedeia vidas alheias e tem tido interesses em minas de esterco. O advogado da minha colega, em Portugal, diz que talvez se consiga impugnar, mas que pague, e pague já, ou lhe penhoram os bens. Os tais, obtidos a coxear levemente, a lavar, a limpar, ausente dos seus, deixados num país que dos seus naturais faz órfãos. E que se justiça lhes der (nos tribunais) passada foi já uma década. A canalha somos nós, afinal.

soliplass, no post os estigmas e os mares, do blog Âncoras e Nefelibatas. Aconselho - obviamente - a leitura do post na íntegra, no link citado.

Mais de um ano depois, retomo a série de Citação, em que fui citando maioritariamente outros blogs. Curiosidade, coincidência, ou nem uma nem outra coisa, retomo com o mesmo autor. Da última vez tinha sido o post Vint’cinco tostões; a imagem que escolhi para ilustrar este post, um cartoon encontrado na internet (cuja autoria não consegui determinar), ilustra aquilo que eu penso do fisco Português (não, não é o único no mundo, mas tem requintes de chico-espertismo, saloiice, subserviência para com os ricos e poderosos, e tiques ditatoriais para com os pobres e indefesos, que envergonham qualquer país minimamente civilizado). 
Para ser perfeito na sua podridão, ao País falta-lhe legislar uma lei que institua a Taxa de Nacionalidade; assim será mais fácil, transparente, e legal taxar aqueles que tiveram que partir para não morrer à fome, ou sobreviver da sopa dos pobres. (Um parêntesis para dizer a algum portuga inflamado de súbito nacionalismo, patriotismo, ou o raio que o parta, que por aí apareça, porque quando falo disto há sempre algum que levanta a voz: não fomos nós, os que saímos de Portugal, que abandonámos o País, foi o País que nos abandonou a nós.) Ao Governo - esse mesmo, que de dedo em riste aponta a porta da saída - quando perceber que as remessas não serão como antigamente, e que o aumento agora verificado se deve às contas que deixámos para pagar, talvez lembre esta ideia...

domingo, 2 de dezembro de 2012

Segundo Soneto da Morte

Long Way Home, Longo Caminho
© Fotografia Floriana Barbu


Este longo cansaço irá ser grande um dia
e a alma dirá ao corpo que não quer
arrastar o seu peso ao longo desta via
por onde os homens vão, felizes por viver.

Sentirás que ao teu lado cavam brutalmente,
que outro hóspede chega à serena cidade.
Vou esperar que alguém me cubra completamente
e depois falaremos uma eternidade!

Só então saberás porque é que, ainda imaturo,
para as profundas fossas o teu corpo iria
aí dormir tranquilo, aí permanecer.

E então far-se-á luz no campanário escuro.
Saberás que entre nós sinais de astros havia
e que, quebrado o pacto, tinhas de morrer.

Poema de Gabriela Mistral

Quando eu morrer, se me fizerem uma lápide, gostaria que a primeira estrofe fosse o epitáfio...

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Feliz Natal, Presépio, Árvore, Árvore do Conhecimento

Agora que entrámos no mês dele, permitam-me todos os leitores e leitoras deste cantinho - os assíduos, os ocasionais, e os acidentais - que lhes deseje um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Sei que ainda é cedo, mas como sói dizer-se, o Carnaval é quando o Homem quiser. E o resto não digo, para que não me chamem brejeiro - embora eu lhes chame interjeições. Um Natal Feliz, para mim, seria ter de presente uma árvore como a da fotografia, ou como a desta fotografia; porém o habitual é não receber nenhum - e dar cada vez menos. De tudo o que a vida nos leva, o que (me) dói mais são os amigos - que de qualquer forma não o terão sido. Acabamos por nos cansar de bater a portas cada vez mais emperradas, portas que ainda que nos esforcemos por lhes olear as dobradiças, vão rangendo cada vez mais, vão ficando cada vez mais pesadas, mais difíceis de abrir. Mas não falemos disto - a hipocrisia da época assim o determina. Aqui podia introduzir uma expressão em francês. Ficava mais bonito e dava um ar intelectual à coisa - coisa que mais não é que juntar palha para o presépio - aquele em que afinal não havia vaca nem burro, embora candidatos ao lugar haja muitos; talvez deva processar as minhas catequistas. Ou pelo facto de não acreditar em nada disto talvez me devesse remeter ao silêncio. Reparo agora que só tive catequistas. Longos nove anos até me livrar desse enfado. Nunca gostei que me pregassem. Menos quando os actos contradizem as acções - porcaria do corrector ortográfico a tentar induzir-me em erro! E é isto. Apenas uma miscelânea de frases parcamente ligadas entre si, para vos desejar que tenham - ao menos no Natal - uns dias de Felicidade e Comunhão - porque uma e outra são a mesma coisa. O resto é o vil metal, arma com que uns quantos seres, desmerecedores do humano substantivo, jogam com a vida de milhões (biliões) de pessoas, do alto do seu conforto, do seu egoísmo, da sua retórica de teorias nunca experimentadas na pele. Que sejam, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras, Felizes. Nesta quadra e no resto do ano. Porque com li há uns meses num blog que agora não recordo, citando um autor, ou autora, de que não me lembro, o único falhanço na vida é não ser feliz. E a felicidade, a felicidade é isto, a comunhão. A possibilidade de partilhar com outras pessoas o curto tempo em que existimos entre duas inexistências, a possibilidade de comungar com família e amigos as nossas alegrias e as nossas tristezas, os nossos sucessos e as nossas derrotas, as nossas vitórias e os nossos fracassos, enfim, a possibilidade de comunicar, de partilhar - porque só é verdadeiramente nosso aquilo que damos, já alguém disse. E com isto, se fosse o Miguel Relvas, já tinha direito a uma ordenação num religião qualquer, quiçá em qualquer uma. Pronto, é isto, tinha que falar do Relvas para borrar completamente a pintura, se é que não estava borrada desde o início.