terça-feira, 30 de outubro de 2012

Correspondência em Dia...

Correspondência, Carta com Selos

Gosto muito de receber cartas. Cartas daquelas que já não se enviam, com selos e tudo, com as rigorosas fórmulas de apresentação e despedida, com os sinceros - ou nem tanto - desejos de boa saúde, boa fortuna, e bom sexo. Pronto, exagero. Para que servem as regras, se não as pudermos quebrar? Cartas com postais lá dentro, com fotografias, com perfume, com beijos e abraços, cartas inesperadas, cartas mui aguardadas, e cartas desesperadas. Cartas apaixonadas, cartas abandonadas, cartas resignadas. Cartas enviadas, cartas rasgadas, cartas perdidas. Cartas...
Há quanto tempo não recebia uma carta! Em tempos escrevi muitas - não tinha outro meio de comunicar. Infelizmente, poucas tiveram resposta - e respostas não vieram às perguntas que faziam. Adiante. Recebi uma carta de uma amiga. Obrigado! Trazia lá dentro alguns poemas. Deixo aqui um deles, espero que a minha amiga não se importe:

A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte.

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate.


José Tolentino de Mendonça, in A Noite Abre Meus Olhos

A resposta à carta, embora tardia, que tenho tempo para nada, e vontade para coisa nenhuma, vai a caminho. Dedico este post à minha amiga. E aos 100 seguidores deste blog. Se quiserem também me podem escrever. Prometo responder a todos. Só não prometo ser rápido na resposta.

domingo, 28 de outubro de 2012

Francisco José Viegas

Francisco José Viegas



Francisco José Viegas diz que regressa em breve. Talvez, então, ele nos queira explicar por onde andou neste último ano e meio, mais coisa menos coisa. Talvez. Francisco José Viegas é, entre outras coisas, o editor que ressuscitou a editora Quetzal, transformando-a (na minha opinião, claro), na melhor editora Portuguesa, a par da Assírio & Alvim - e eu sempre pensei que fosse impossível igualar a Assírio & Alvim. Vá, falta-lhe a poesia. Mas também não podemos pedir tudo: J. Rentes de Carvalho, aquelas capas fantásticas, letra em tamanho, tipo, e espaçamento decente...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, Primeira Edição, Ática, Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Jacinto Prado Coelho

Em todo o caso, nesta revisão e classificação dos meus papéis, vou achando e arrumando o que pertence ao Caeiro.


Na verdade, chegou a compilar, metendo-os em maços, os versos deste heterónimo, as prosas daquele personagem que era Bernardo Soares, as poesias de ele-mesmo Fernando Pessoa. Muitas composições foram dactilografadas. Não chegou, porém, a fazer tudo, tanto mais que em muitos casos havia tudo a fazer - as próprias obras que não estavam feitas. É o caso do Livro do Desassossego, de que ficaram pouco mais que os capítulos publicados na Presença, na Contemporânea, no Descobrimento, na Solução Editora, etc.*

João Gaspar Simões, em Vida e Obra de Fernando Pessoa, 1954

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A minha Vida numa Imagem, 4

Nighthawks, Edward Hopper
Nighthawks - Edward Hopper


Nighthawks é um quadro de 1942 que Edward Hopper começou a pintar após o ataque a Pearl Harbor, assim reza a lenda. Nighthawks é uma expressão que pode ser traduzida como «Falcões da Noite», e que designa pessoas que ficam acordadas até tarde. Os quadros de Hopper são atravessados por uma estranha solidão que quase nunca é solitária. Uma solidão quieta e resignada, sem os laivos de desespero ou angústia, que tantas vezes acompanham a solidão. Como o homem sentado ao balcão, costas viradas para quem observa o quadro, muitas vezes deambulei pelas ruas de cidades desertas para ir acabar assim, a pedir um café ou um whiskey duplo sem gelo ao balcão de um café. Cogito que talvez este homem espere sem esperar que chegue alguém, alguém que partiu há muito, ou alguém que nunca existiu. Imagino-o a puxar dum último e melancólico cigarro, a fumá-lo lenta e sofregamente até ao último trago, enquanto faz um discreto sinal ao empregado para que lhe diga quanto deve. Não tem pressa, espera que o empregado demore, para que a demora lhe ocupe mais alguns minutos dos seus muitos e longos minutos. Recebido o troco sairá para a rua, olhará uma última vez para o casal do outro lado do balcão, imaginando um casal feliz e, embora pressinta dolorosamente a melancolia que consome o casal, imaginará o quarto do hotel onde irão passar o resto da noite, enfastiados do sexo que lhes consumirá o resto das forças, e deixará os seus corpos extasiados sobre uma cama estéril dum quarto vazio. Sairá, tentado olhá-los mais uma vez, de soslaio, sem chegar a vê-los. Irá para casa pelo caminho mais distante.

domingo, 21 de outubro de 2012

Por Outras Palavras

Manuel António Pina, Por Outras Palavras, Jornal de Notícias, Crónicas

«Chegou a hora de nos despedirmos do Manuel António Pina.
A dor é sempre grande quando morre alguém que brilha no nosso céu.
O Pina era a mente mais brilhante que escrevia nas páginas do Jornal de Notícias.
Enquanto eu tiver a honra de dirigir este jornal, ninguém mais escreverá opinião neste espaço que era dele mas que ele fazia questão que fosse sempre tão nosso.
Obrigado, Pina.»

Manuel Tavares, na última página do JN de 20-10-12 (via Aventar)


Não sei o que diria Manuel António Pina deste gesto. Mas que é um gesto bonito é!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina, 1943-2012

Manuel António Pina, Gato


TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina, morreu esta tarde, com 68 anos, no Hospital de Santo António, no Porto, onde estava internado. Obrigado pelas tuas crónicas, pelos teus poemas, pelas tuas histórias. Obrigado pelas palavras que nos deixaste. Até Sempre.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Enforcados*

Mussolini e Clara Petacci enforcados
Mussolini e Clara Petacci pendurados.

*Senhores, ia dizer «Senhores», mas que «Senhores»? Nem sequer «Garotos» ou «Catraios», nem sequer «Gaiatos». Bestas que estão à frente do Governo desgovernado de Portugal: ponham os olhos nestes dois: Mussolini e a sua amante Clara Petacci, fuzilados após tentativa de fuga de Itália. Não vos desejo menos. Talvez apenas que vos capem os genitais e os atirem aos tubarões - para que fiqueis equilibradamente capados, capados na mente e no sexo**.

(E PARA QUEM ACHAR QUE ESTOU A SER SANGUINÁRIO OU - VÁ, PARVO - DIGO: O QUE ESTE GOVERNO DE MERDA ESTÁ A FAZER AO POVO DO MEU PAÍS CHAMA-SE GENOCÍDIO. QUE VÃO PARA A PUTA QUE OS PARIU, COM UM TIRO NOS CORNOS.)


**Em retribuição pelas inúmeras vezes que foderam os Portugueses!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

o amor e a morte

Amor, Morte, Death, Love






Não é sobre amor, este blog, equívoco que o nome propositadamente deixa entender; não é sobre amor, é sobre morte, sobre luta contra a morte, como saberá quem for ler o primeiro post, onde está publicado um poema de Dylan Thomas, de onde foi retirado um verso, o verso que apadrinha este blog, numa tradução muito livre. É assim o verso: Though lovers be lost love shall not; Ainda que os amantes se percam, o amor permanecerá. É um poema sobre a luta inglória contra a morte: And death shall have no dominion. E a morte perderá o seu domínio. É sobre a luta diária contra a morte, este blog. Uma luta viciada com vencedor anunciado. E o amor é a suprema, sublime ilusão, que quase nos leva a acreditar que nunca nada terminará. Amor, ilusão de eternidade. É feito de ilusões, devaneios, pedaços desfocados do dia-a-dia, migalhas de vida, memórias selectivas, recordações do que nunca aconteceu, do que nunca acontecerá, fantasias, sonhos, desejos, narrativas interiores constantemente reescritas, este blog. Enfim, uma desesperada luta contra a morte. 

(Desfeito o equívoco - que o espectáculo continue. E quem quiser que assista ao lento fragmentar dessa substância que chegou inteira e se vai desfazendo entre caminhos percorridos e caminhos perdidos.)

domingo, 14 de outubro de 2012

PENUMBRA

Penumbra, Poesia, Anjo, manuel a domingos

PENUMBRA
de manuel a. domingos
Tem fotografia de capa de manuel a. domingos
e desenho de Carla Ribeiro.
Foi composto e paginado por Pedro Ribeiro.


Penumbra. O meu exemplar já chegou a casa... coube-me o número 38 em sorte, se o autor não se enganou.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mo Yan: Prémio Nobel da Literatura 2012

Mo Yan, Nobel Prize, Literature, Prémio Nobel Literatura


«The Nobel Prize in Literature 2012 was awarded to Mo Yan “who with hallucinatory realism merges folk tales, history and the contemporary”»

(link)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Prémio Nobel da Literatura 2012: o anúncio



Amanhã, dia 11 de Outubro de 2012, quando forem 13 horas na Europa Central, 12 horas em Portugal, será anunciado o novo Prémio Nobel da Literatura. Podem assistir aqui em directo ao anúncio.

domingo, 7 de outubro de 2012

Prémio Nobel da Literatura 2012

Tomas Tranströmer, Prémio Nobel da Literatura 2011



A data ainda não foi anunciada - como é tradição - mas tudo indica que seja na próxima quinta-feira, dia 11 de Outubro de 2012, que será conhecido o nome do Prémio Nobel da Literatura 2012. Em quem apostam para suceder a Tomas Tranströmer? Um ano depois de ter ganho o Nobel da Literatura, o Poeta e Psicólogo Sueco já tem traduções portuguesas dos seus trabalhos. A Relógio d'Água publicou uma selecção de 50 Poemas, e a Sextante Editora publicou As minhas lembranças observam-me, o único trabalho em prosa do autor, um pequeno livro de memórias, como o título indica.
No site de aposta Ladbrokes, Haruki Murakami é o mais apostado (2/1), seguido por Mo Yan (8/1), e William Trevor e Bob Dylan, ambos com 10/1.

101 livros que ainda não li - e quero ler



Isto das listas fez-me pensar noutras listas que tenho, rascunhadas algures em diários e moleskines, onde vou apontado títulos e autores de livros que quero ler (melhor: que quero comprar para depois ler, porque se há coisa em que sou irremediável, arraigada, e irreversivelmente materialista, é no que há posse de livros diz respeito), uma wishlist privada. Não a tenho comigo; serão muito mais que 101 - mas gosto do número; não cabem todos, mas fazer uma lista com 1001 era já excessivo. Aqui vos deixo então uma amostra da longa lista, elaborada ao sabor da memória:


  1. Ulysses, James Joyce
  2. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
  3. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
  4. Contos, Hans Christian Andersen
  5. Pedro Páramo, Juan Rulfo
  6. A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
  7. A Montanha Mágica, Thomas Mann
  8. O Jogo do Mundo (Rayuela), Julio Cortázar
  9. Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry
  10. O Mar da Fertilidade (tetralogia), Yukio Mishima
  11. Cores Proibidas, Yukio Mishima
  12. Laranja Mecânica, Anthony Burgess
  13. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
  14. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
  15. O Paraíso Perdido, John Milton
  16. Frankenstein, Mary Shelley
  17. Grandes Sertões: Veredas, Guimarães Rosa
  18. Drácula, Bram Stoker
  19. Ao Amigo que não me Salvou a Vida, Hervé Guibert
  20. Na Patagónia, Bruce Chatwin
  21. O Velho Gringo, Carlos Fuentes
  22. Diana Ou a Caçadora Solitária, Carlos Fuentes
  23. Conversa n'A Catedral, Mario Vargas Llosa
  24. A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, Selma Lagerlöf
  25. O Tambor, Günter Grass
  26. Descascando a Cebola, Günter Grass
  27. Ratos e Homens, John Steinbeck
  28. Por Favor Não Matem a Cotovia, Harper Lee
  29. O Monte dos Vendavais, Emily Brontë
  30. Austerlitz, W. G. Sebald
  31. Afirma Pereira, Antonio Tabucchi
  32. A Idade da Inocência, Edith Wharton
  33. O Céu Que Nos Protege, Paul Bowles
  34. Herzog, Saul Below
  35. Navegação Ponto por Ponto, Gore Vidal
  36. Palimpsesto, Gore Vidal
  37. Autobiografia, Mark Twain
  38. Joseph Andrews, Henry Fielding
  39. As Aventuras Extraordinárias do Sr. Pickwick, Charles Dickens
  40. O Nonsense Completo, Edward Lear
  41. Feira das Vaidades, William Makepeace Thackeray
  42. O Homem Que Era Quinta-Feira, G. K. Chesterton
  43. O Nascimento da Tragédia, Friedrich Nietzsche
  44. Contos Completos, Nikolai Gogol
  45. Os Moedeiros Falsos, André Gide
  46. As Palavras, Jean-Paul Sartre
  47. Os Caminhos da Liberdade (trilogia), Jean-Paul Sartre
  48. Os Dados Estão Lançados, Jean-Paul Sartre
  49. Palavras, Jacques Prévert
  50. O Fio da Navalha, William Somerset Maugham
  51. Servidão Humana, William Somerset Maugham
  52. Pan, Knut Hamsun
  53. O Labirinto da Saudade, Octavio Paz
  54. Morte de um Caixeiro-Viajante, Arthur Miller
  55. Trabalhar Cansa, Cesare Pavese
  56. Os Nus e os Mortos, Norman Mailer
  57. Poesia Completa, Bertolt Brecht
  58. Teatro Completo, Bertolt Brecht
  59. Histórias Completas, Flannery O'Connor
  60. Contos, J. D. Salinger
  61. O Feiticeiro de Oz, L. Frank Baum
  62. A História de um Sonho, Arthur Schnitzler
  63. Menina Else, Arthur Schnitzler 
  64. A Zona de Desconforto, Jonathan Franzen
  65. Liberdade, Jonathan Franzen
  66. Esfolado Vivo, Edmund White
  67. Paris, os Passeios de um Flâneur, Edmund White
  68. Mr. Norris Muda de Comboio, Christopher Isherwood
  69. Um Homem Singular, Christopher Isherwood
  70. Adeus a Berlim, Christopher Isherwood
  71. Bom Dia, Tristeza, Françoise Sagan
  72. História da Sexualidade, Michel Foucault
  73. A Oeste Nada de Novo, Erich Maria Remarque
  74. As Velas Ardem até ao Fim, Sándor Márai
  75. 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade
  76. Justine ou Os infortúnios da Virtude, Marquês de Sade
  77. Contos Libertinos, Marquês de Sade
  78. A Filosofia na Alcova, Marquês de Sade
  79. Os Buddenbrook, Thomas Mann
  80. A Dama das Camélias, Alexandre Dumas, filho
  81. Os Versículos Satânicos, Salman Rushdie
  82. As Mil e Uma Noites (versão/tradução de Joseph Charles Mardus)
  83. Suicídios Exemplares, Enrique Vila-Matas
  84. Os Detectives Selvagens, Roberto Bolaño
  85. U.S.A. (trilogia), John dos Passos
  86. District of Columbia, John dos Passos
  87. Os Sonâmbulos, Hermann Broch
  88. O Solitário, Eugène Ionesco
  89. Contos, Jack London
  90. O Apelo da Selva, Jack London
  91. Os Meninos Diabólicos, Jean Cocteau
  92. O Mundo que Eu Vi - Memórias de um Europeu, Stefan Zweig
  93. Reviver o passado em Brideshead, Evelyn Waugh
  94. Declínio e Queda, Evelyn Waugh
  95. Três Tristes Tigres, Guillermo Cabrera Infante
  96. A Ninfa Inconstante, Guillermo Cabrera Infante
  97. A Linha da Beleza, Alan Hollinghurst
  98. Fogos, Raymond Carver
  99. Meu Destino é Pecar, Nelson Rodrigues
  100. Núpcias de Fogo, Nelson Rodrigues
  101. Teatro Completo, Nelson Rodrigues

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Isto de ter que fingir (ou imaginar) que morreste...*

Ser ou não ser, to be or not to be


Imagino que morreste. Finjo para mim mesmo e para os outros. É a única maneira de suportar a dor. Imagino tantas vezes que morreste, que chego a convencer-me que morreste mesmo. Imagino tantas mortes para ti, que muitas vezes me esqueço de que maneira morreste. É a minha forma hipócrita de dizer que eras boa pessoa: de modo fúnebre, digo para mim mesmo que eras boa pessoa, como nos enterros em que toda a gente era boa (especialmente aqueles que de bom nada tinham).

O tempo e o desprezo. O tempo e o modo. Não há retorno possível num espírito (alma? mente?) quebrado - nem num que seja ainda inteiro. Tudo na vida é inexorável. Um momento apenas, um segundo somente, uma simples palavra - e não há segundas oportunidades. Na vida não se podem testar hipóteses, porque só temos uma. E tu partiste, e tudo o que ficou foi o desprezo. O desprezo e o terrível silêncio que o acompanha.

Gostaria de te ter dito tanta coisa. Gostaria que por um segundo entendesses isto tudo. Mas sei, sei bem demais, sei fisicamente esta dor que vem de dentro. Sei que nenhuma palavra que te tenha dito, que nenhuma palavra que te dissesse, que nenhuma palavra que pudesse ter deixado por dizer, iria mudar alguma coisa. Porque o desprezo é a pior forma de odiar alguém. Nada serve de atenuante. É mesmo assim, e por mais narrativas interiores que construa, nada vai mudar. Não mudo nenhuma palavra. Fica assim: o que te não disse, não vale a pena dizê-lo. Que tudo vale a pena, quando a alma... Tentei convencer-me disso tantas vezes, tanto tempo. Mas há um momento em que temos que desistir - até do essencial. E isso é tão triste. 

Tento não pensar em ti. Tento não pensar no que podia ter sido a vida. Tento não pensar nos caminhos que ficaram que percorrer, caminhos que se desfizeram sob os meus pés trementes. Tento não pensar nos destroços que deixaste dentro de mim. Tentei tantas vezes limpar a alma. Mas desisti. Vou aprendendo a viver sobre os destroços, esperando que o tempo vá limpando aquilo que eu não tive forças para limpar. Serás feliz? Cogito. Fecho os olhos e suspiro. É a minha maneira de chorar, mas já não choro. Chorei tantas vezes, tantas vezes em silêncio, por dentro, sem verter lágrimas. Chorar é um hábito que perdemos. Deixamos de chorar quando chorar não tem nenhuma consequência. Quando o choro não tem ninguém que nos possa limpar as lágrimas. E então, pareço forte. Mas por dentro tremo. Sofro - silenciosamente - e deixo que o espectáculo continue. O espectáculo tem que continuar, o espectáculo tem que continuar sempre. Mesmo que à volta tudo rua, a orquestra não pode deixar de tocar. Até que a orquestra caia também. E que a música continue para outros depois de nós.

Todas as pessoas que passam nas nossas vidas têm um lugar no nosso coração - um lugar único e especial que nunca nenhuma outra pessoa poderá ocupar. E o coração divide-se em tantos pedacinhos! E que o teu lugar ali está, para sempre abandonado - terrivelmente inabitado. E inabitável. É como um quarto cujo habitante foi para outra morada: de vez em quando abro-o e suspiro «espero que estejas bem», e volto a fechá-lo. Mas minto. Não espero que estejas bem. Espero que a vida te traga metade desta dor. E um dia tudo ruirá. E este silencioso ruído desaparecerá para sempre.