domingo, 30 de setembro de 2012

Ser - Porquê? Para quê?

Vida, Vie, Life, To be or not to be, ser ou não ser


Ser ou não ser - eis a questão; será maior nobreza da alma sofrer a funda e as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de infortúnios opondo-lhes um fim? Morrer, dormir... nada mais... É belo como dizer que pomos fim ao desgosto e aos mil males naturais que são a herança da carne. É esse um fim a desejar ardentemente. Morrer, dormir... dormir... e talvez sonhar. Sim, eis o espinho! Pois que sonhos podem vir desse sono da morte, depois de libertos do tumulto da vida? Eis o que deve deter-nos. Eis a consideração que nos traz a calamidade duma tão longa vida. Pois quem suportaria as chicotadas e mofas do mundo, a tirania do opressor, a insolência do orgulhoso, as dores do amor desprezado, as delongas da lei, a arrogância do poder, o desdém que o mérito paciente recebe dos indignos, quando podia buscar a própria quietude com um simples estilete? Quem suportaria tais fardos, protestando e suando numa vida dura, se não fosse o receio de qualquer coisa após a morte, dessa região não descoberta e de cuja fronteira nenhum viajante regressa, não lhe quebranta a vontade e faz que antes queira sofrer os males da Terra que voar para outros de que nada se sabe? Assim a consciência faz de nós uns covardes; assim a cor primitiva da resolução descora perante a pálida luz do pensamento e empreendimentos de grande porte e importância desviam a sua rota e perdem o nome de acção.

William Shakespeare, in Hamlet (fala de Hamlet; tradução livre de Ersílio Cardoso)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Cigarra e a Formiga

Miguel Macedo, A Cigarra e a Formiga
Miguel Macedo: nem Cigarra nem Formiga, apenas um idiota que se vive do trabalho dos outros!

A propósito de mais um bitaite de um ministro de um governo que - nos intervalos de destruir o País e matar as Pessoas (nem só com balas se matam pessoas, senhores, nem só com balas) - se entretém a mandar bitaites, naquele tom pachorrento de soalheiras alcoviteiras usado também por ditadores paternalistas, lembrei-me de uma versão de Vaz Nunes [o link original já não está disponível, mas havia-a publicado no meu outro blog] d' A Cigarra e a Formiga que esse troglodita energúmeno de seu nome Miguel Macedo talvez desconheça. A ver se esse capado demente, mentecapto, capado que mente, aprende alguma coisa:


Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra que eram muito amigas. Durante todo o Outono, a formiguinha trabalhou sem parar, a fim de armazenar comida para o período de Inverno. Não aproveitou nada do Sol, da brisa suave do fim da tarde, dos lindos pôr-do-sol do Outono nem da conversa com as amigas. Só vivia para o trabalho! 
Enquanto isso, a cigarra não desperdiçou um minuto sequer: cantou durante todo o Outono, dançou, aproveitou os tempos livres, sem se preocupar muito com o Inverno que estava a chegar. Então, passados alguns dias, começou a arrefecer. Era o Inverno que estava a bater à porta. A formiguinha, exausta, entrou na sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. 
Entretanto, alguém chamava pelo seu nome do lado de fora da toca e, quando abriu a porta, ficou surpresa: era a sua amiga cigarra, vestida com um maravilhoso casaco de lã e com uma mala e uma guitarra nas mãos. 
- Olá, amiga! - cumprimentou a cigarra. - Vou passar o Inverno em Paris. Será que você podia cuidar da minha toca? 
- Claro! Mas o que aconteceu para você ir para Paris? 
A cigarra respondeu-lhe: 
- Imagine você que, na semana passada, eu estava a cantar num restaurante e um produtor gostou tanto da minha voz que fechei um contrato de seis meses para fazer espectáculos em Paris. A propósito, amiga, deseja algo de lá? 
A formiguinha respondeu: 
- Desejo, sim: se você encontrar por lá um tal de La Fontaine, o que escreveu a nossa história, mande-o esfregar-se em urtigas...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os Amigos*

Solidão, Amizade, Loneliness, Friendship

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!


Soneto de Camilo Castelo Branco


Mazagran** - Recordações e outras fantasias de J. Rentes de Carvalho*

Mazagran, J. Rentes de Carvalho, José Rentes de Carvalho, Recordações e outras fantasias


«À infância ninguém retorna e o passado perde-se sem remédio, mas por repentes toma-me a vontade de voltar à terra onde nasci e lá, tirando da prateleira da cozinha um copo grosseiro, sentar-me num escabelo junto da pipa e beber como dantes: sem ciência nem medo de errar, só por gosto.»


sábado, 22 de setembro de 2012

Silêncio

Se duas pessoas que se amam deixam um instante que seja instalar-se entre elas, esse instante cresce - fica um mês, um ano, um século, fica tarde de mais.

Jean Giraudoux (1882-1944) 

Silêncio, Silence



Nos últimos tempos - expressão que mais não quer dizer que não sei quanto tempo ao certo - o silêncio tem tomado conta de mim, penso em dizer isto ou aquilo, mas não digo nada. Penso em publicar um post sobre este assunto ou aquele, mas acabam por ir ficando nos rascunhos, até passar o seu prazo de validade... Podia falar de Portugal - tenho falado de Portugal com os meus amigos Gregos do facebook. Portugal resume-se a isto: fizeram um revolução com flores, e queriam o quê? Até na revolução houve soberanos e súbditos, porque não haviam de continuar a ser submissos?... Podia escrever sobre os livros que queria ler. Ou sobre o Benfica. Podia inventar dores ou frustrações que não tenho (pois das que tenho não falo), ou vangloriar-me de sucessos que já não vou ter: todo o sucesso do mundo é irrelevante quando se perdeu o essencial - e a minha alma despida nunca conseguiu vestir-se com sonhos secundários. Mas no fundo admiro muito quem o faz: casados com mulheres (ou homens, conforme o género e/ou a orientação) de quem não gostam, pais de filhos que não desejam, habitantes de lugares que não suportam, bebem a sua cerveja ou o seu copo de vinho, de um trago um whiskey duplo, fumam o triste cigarro, e ai! de quem lhes pergunte se são felizes! Gosto muito da vida! Há que aproveitar a vida! A vida são dois dias! Eu tenho mulher e filhos, e tu o que tens? Oh gente cheia de lugares-comuns! E os sonhos? E os sonhos?


E na Morte seremos de novo Irmãos


Imagem de Emiliano Zapata.

As últimas palavras de Swaso Camacase

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

NÃO PODEREI NUNCA DIZER O TEU NOME*

 





Não imaginas a força que foi necessária
Para arrancarem os sonhos que havia
Dentro de mim, nem a dor que sofri
Nem o sangue que suaram para semear
Os pesadelos que todas as noites
Me inquietam. São fantasmas,
Fantasmas com o teu rosto e a tua face
Que nunca esqueci. Os traços são agora
Mais definidos e carregados, embora
A memória com que te guardo se vá
Desvanecendo. É cada vez mais difusa
A esperança que ainda me acompanha.
Às vezes questiono-me se terás existido,
Se será possível que alguém desapareça,
Assim, de repente, sem deixar rasto,
Como um sonho quando acordamos,
E não recordamos nenhuma palavra,
Nenhuma imagem, nenhuma memória
De termos sonhado. Sem ter havido
Um adeus, nem que fosse apenas um
Olhar ou expressão do rosto. Não sei,
Às vezes penso que apenas em mim
Caminhaste um dia, e deste-me a mão
E eu sonhei que seria para sempre,
Mas era apenas um sonho, um sonho...
Porém, o teu rosto, tão nítido aqui
Na minha mente, na minha imaginação
Na minha memória que nunca pára,
Que não quer deixar de acreditar.
Mas eu não deixo de me questionar
Se terás existido? Uma face assim
tão real dentro de mim, diz-me que sim:
- É quando a dor me fere e se agudiza,
E pergunta sem saber o quanto magoa,
Como foi possível ter-te perdido?


*Poema de André Benjamim

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ainda não está na hora de dizer «basta!»?

Portugal, Crise, Manifestação, 15 de Setembro

Isto não vai acabar bem - e se acabar com umas balas perdidas nas cabeças de alguns não se perde nada. Não disparem é contra o mural do facebook, pois, como vos hei-de explicar?... É que a disparar contra o mural do facebook não lhes partem as ventas. Se isto é alguma incitação? Incentivos são nos bancos, pá! De resto, parafraseando o hino, às armas, às armas, contra os cabrões disparar...

Imagem via Ministério da ContraPropaganda.

domingo, 9 de setembro de 2012

Quem são as vítimas? Quem são os carrascos?

Carrasco, Portugal, Pedro Passos Coelho, Machado
«Detesto as vítimas que respeitam os carrascos.»*


Descubra nesta frase quem são as vítimas, e quem são os carrascos. «Eles têm alma de escravos e como tal aceitam tudo»? (por JCM)


*Frase escrita por Jean-Paul Sartre, na obra Os Sequestrados de Altona.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

«Os Contos» (2º Volume), de Franz Kafka

Contos, Franz Kafka


Encontra-se finalmente disponível o 2.º volume de Contos de Franz Kafka, oito anos após a publicação do 1.º volume. Mais vale tarde que nunca, como sói dizer-se. Uma excelente notícia, nestes tempos cada vez mais kafkianos...

Kafka publicou apenas sete pequenos livros, todos incluídos n’Os Contos – 1.º volume – textos publicados em vida do autor. Paralelamente escreveu dezenas de contos, uns, mais ou menos «completos», outros, fragmentários, outros ainda em versão de esboço. As obras não publicadas em vida do autor perfazem dois volumes da edição crítica alemã da S. Fischer Verlag. O volume que aqui se apresenta corresponde ao 1.º volume da edição original de Escritos e Fragmentos Póstumos: traça um limite na selecção de textos que recai no ano de ruptura de 1917, marcado pelo diagnóstico da doença pulmonar de Kafka, que o obriga a uma longa estada no campo (do Outono de 1917 até à Primavera de 1918), na localidade histórica de Zürau, numa quinta de sua irmã Ottla, e que representa uma viragem na sua produção literária.
Franz Kafka nasceu em 1883 em Praga, de uma família pertencente à pequena burguesia judia de expressão alemã. Frequentou o liceu alemão e posteriormente a Universidade Alemã de Praga, onde terminou os estudos jurídicos, obtendo o título de Doutor em Direito, em 1906. Começou a escrever os primeiros textos
em 1907, enquanto trabalhava como assessor jurídico em companhias de seguros, onde fica até à sua aposentação por motivos de doença. Em 1917 sofre os primeiros sintomas de uma tuberculose de que viria a falecer a 3 de Junho de 1924. (do blog Livrarias Assírio & Alvim)

domingo, 2 de setembro de 2012

Prémio Nobel da Literatura: que as apostas comecem!

Nobel Prize, Prémio Nobel, Medalha Prémio Nobel, Prémio Nobel da Literatura





Quando falta sensivelmente um mês para o anúncio do Prémio Nobel da Literatura - ainda não foi comunicada a data oficial pela Fundação Nobel, mas, a julgar pelas datas em que serão anunciados os outros prémios, é provável que seja a 11 de Outubro de 2012 - as apostas estão já em aberto há alguns dias. Na famosa casa de apostas Ladbrokes o favorito é, neste momento, Haruki Murakami. Seguem-se Mo Yan, Cees Nooteboom, Ismail Kadare, o eterno candidato Adonis, Ko Un, Dacia Maraini, Philip Roth e Cormac McCarthy (será desta que um deles, ou quem sabe os dois, leva a medalha? desde 1974 que o Prémio Nobel da Literatura é atribuído apenas a uma pessoa. Os Suecos Eyvind Johnson e Harry Martinson foram os últimos a partilhá-lo), e a fechar o top ten, Amos Oz.

Quem sucederá a Tomas Tranströmer? O «meu» candidato nem sequer consta da lista, e já se sabe quem é: Michael Cunningham. Mas quem eu queria que ganhasse mesmo, é Português, não é o António Lobo Antunes [está neste momento em 39.º lugar na Ladbrokes], e quem lê o meu blog deve saber o nome...

Qual é a vossa aposta?!

sábado, 1 de setembro de 2012

Livros no Chiado*

Livros no Chiado, Rua Almeida Garrett, Assírio e Alvim, Fernando Pessoa


Rua Garrett, 10 - Lisboa [Pátio Siza, ao fundo à direita]

{segunda a sábado: 12h-19h; domingo: 14h-19h} 



*Publicidade Gratuita - Porque as boas coisas devem ser tornadas públicas!