segunda-feira, 30 de julho de 2012

«Adrian morreu. Matou-se.» «Achas que foi por ser demasiado inteligente?»

Fallen Angel, Depressed Angel, Angel Depression, Anjo Deprimido, Depressão






«É melhor abrires primeiro essas duas.»
A de cima continha uma breve nota de Alex. «Caro Tony», dizia, «Adrian morreu. Matou-se. Telefonei à tua mãe, que diz que não sabe onde tu estás. Alex.»
«Merda», disse eu, proferindo pela primeira vez um palavrão diante dos meus pais.
«Lamento, pá». O comentário do meu pai não me pareceu muito à altura. Olhei-o e surpreendi-me a pensar se a calvície era hereditária - se costumava ser hereditária.
Após uma daquelas pausas colectivas que todas as famílias fazem, cada uma à sua maneira, a minha mãe perguntou: «Achas que foi por ser demasiado inteligente?»
«Não tenho a estatística que liga a inteligência ao suicídio», respondi.
«Sim, Tony, mas tu sabes o que eu quero dizer.»
«Não, de facto não sei.»
«Então põe a coisa assim: tu és um rapaz inteligente, mas não tão inteligente ao ponto de fazer uma coisa dessas.»
Olhei-a fixamente, sem pensar. Julgando-se encorajada, prosseguiu:
«Quando alguém é muito inteligente, acho que há algo que pode transtorná-lo, se se descuidar.»


Julian Barnes, em «O Sentido do Fim»

Ultimamente todos os livros que leio me parecem demasiado fraquinhos; interrogo-me como é que este «O Sentido do Fim» ganhou o Man Booker Prize 2011, da mesma maneira que continuo a interrogar-me como é que «O Teu Rosto Será o Último», de João Ricardo Pedro, ganhou o Prémio Leya. É verdade que este «O Sentido do Fim» tem alguns parágrafos, algumas frases, de indescutível beleza. Mas e a história, e o conjunto, a obra final? 

(Ou então sou eu que ando num estado de espírito miserável... E para a alma com defeito não há medicamentos... quanto à parte do inteligente, não sei; quanto à parte do descuidar-se, sem dúvida... o mínimo descuido e fica a alma arruinada, sem hipótese de retorno, rendenção, ou salvação...

Ou, socorrendo-me das palavras de Álvaro de Campos:

Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Versos de «A Passagem das Horas».)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho

A Amante Holandesa, J. Rentes de Carvalho, José Rentes de Carvalho, Amante Holandesa





E de repente tive uma epifania - andava há dias a entrar nas livrarias em busca do único livro que me faltava comprar, da lista que fizera antes de vir até Portugal, e por coincidência, também o último livro que me faltava comprar de José Rentes de Carvalho; e de repente lá encontrei um exemplar de A Amante Holandesa. E então a epifania - de repente compreendi que comprara o último livro, no que à Literatura Portuguesa diz respeito, que queria mesmo comprar. Já tenho tudo do Mário Sá-Carneiro e do Fernando Pessoa (vá, ignorando claro os meus devaneios de empedernido pessoano que vai logo atrás do mínimo aroma de inédito - agora que os direitos de autor da obra de Fernando Pessoa são do domínio público é uma descarada vergonha: aparecem inéditos como cogumelos - mas isso daria pano para mangas, e um post apenas, escrito nesta linguagem corrida e descuidada - com que escrevo quase sempre no blog -, sem preocupações gramaticais nem científicas ou académicas, não daria para o explicar, e para outro não tenho paciência); também tenho tudo do José Saramago (ou quase tudo, mas dum mentiroso nunca se pode desconfiar - sim, minto muito, só me falta escrever um livro a sério, para ser um mitomaníaco a sério), e do José Cardoso Pires. E do Mário Cesariny de Vasconcelos - eu sei que ele deixou cair o último apelido - mas eu gosto mais do nome assim. Do Jorge de Sena tenho tudo o que me interessa, embora talvez devesse reler alguma da obra que não tenho, que li há muitos anos nos meus desocupados anos de solitária adolescência. O mesmo no que ao Vergílio Ferreira diz respeito. De Sophia de Mello Breyner Andresen tenho tudo - pronto, os livros de contos é a minha irmã que os tem - e sim, só os li já adulto, não sei como saberão aquelas histórias a uma criança; a mim souberam-me bem. 

Agora que penso melhor no assunto, e enquanto verificava mentalmente que tinha tudo do Luiz Vaz, lembrei-me que não tenho tudo do Francisco Sá de Miranda - mas neste país para encontrar uma edição decente da obra completa de um dos nossos maiores poetas... se a houver, se a houver... (Ninguém se oferece para fazer uma reedição da Fénix Renascida, não?). É verdade que me faltam alguns livros do Eça, mas não dos essenciais, posso bem morrer sem os ter lido, embora o faça de boa vontade, se surgir a oportunidade. Do Aquilino tenho aqui o Romance da Raposa para ler. Talvez seja injusto com ele - mas não, não sinto aquela urgência... Agora, pensando melhor - talvez ainda haja muitos livros que quero compar, ou pelo menos ler. De qualquer modo quando acabei de pagar A Amante Holandesa senti que era o último livro de Literatura Portuguesa que tinha mesmo que comprar.


terça-feira, 24 de julho de 2012

mudar de país é fácil... difícil é mudar de alma...




Não sei se estranharam a minha ausência. Tenho andado discreta e silenciosamente de blog em blog, sem nenhuma vontade de deixar aqui alguma coisa escrita. Dito em forma de lugar-comum é assim: «a felicidade vem de dentro». Porém, como a minha alma veio estragada, e não há fabricante que a concerte, não há maneira de a iluminar, nem por dentro nem por fora. E nos intervalos de jogar  no Euromilhões***, é isto:


Prosa de Álvaro de Campos - Edição da Ática. A lembrar as antigas edições, da primeira tentativa de obra completa de Fernando Pessoa. Dizem por aí que é a novidade pessoana mais importante desde a saída da primeira edição de O Livro do Desassossego. Ou estes pessoanos andam loucos, ou os gajos do marketing tomam-nos por parvos. 

O teu Rosto será o Último, de João Ricardo Pedro - o título convida, a capa é belíssima, a leitura fácil, a história continuo sem entendê-la, 92 horas depois de ter concluído a leitura. Não me recordo da última vez que isto me aconteceu - a não ser que tenha apagado algum livro da minha memória, tal nunca me tinha acontecido.

La Coca, de J. Rentes de Carvalho. É o que tenciono ler a seguir. Agora só me falta um livro de J. Rentes de Carvalho, dos publicados em Portugal: A Amante Holandesa, que não há maneira de a encontrar.

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Dizem que «neste livro a ideia comum de que estaríamos perante um namoro platónico, sem réstia de erotismo, desfaz-se por inteiro». Humm... Quer então dizer que havendo erotismo, não há platonismo? E sexo, senhores, e sexo?

Histórias de um Raciocinador, de Fernando Pessoa. Mais um para juntar à estante, que de momento ando sem paciência para ler fragmentos.

O Estudante de Coimbra, de Guilherme Centazzi. O Alexandre Herculano e o Almeida Garrett ainda andam às voltas no túmulo, ou é o Estudante de Coimbra que vai voltar ao túmulo por mais alguns séculos?

Fernando Pessoa, uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho. Ainda não comecei a ler. Para quase-descobrir se Fernando Pessoa era quase-gay, quase-sexual, ou se era apenas o Álvaro de Campos que era quase-parvo.

O Seminarista, de Rubem Fonseca. Há bastante tempo que queria ler qualquer coisa deste autor brasileiro. E como a cada autor brasileiro que leio, gosto mais da literatura portuguesa do Brasil, agora queria ter a restante obra do autor para ler. Mas o orçamento para livros já se esgotou.

O Rebate, de J. Rentes de Carvalho. Lerei depois de La Coca. 

O Sentido do Fim, de Julian Barnes. Estou quase, quase a acabar a leitura.

refracções em três andamentos, de Daniel António Neto Rocha, edição de autor. Comprado directamente ao autor.

O Mendigo e outros contos, de Fernando Pessoa. O que me irrita no Fernando Pessoa é que parece que ele fazia questão em atirar textos inacabados e incompletos para a arca. Que raio de ideia, essa ideia de que o mytho é o nada que é tudo.

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Nunca me canso de comprar este livro. Não para mim, que para mim já tenho três edições diferentes, mas para oferecer. Algum psicanalista de pacotilha arrisca uma explicação para o facto de gostar tanto de oferecer este livro (e O Principezinho)?

Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Luigi Pirandello. 

Todas as Palavras - poesia reunida -, de Manuel António Pina. 

O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro. Há vinte anos que queria este livro. Agora tenho um para mim, e com ilustrações a cores. 

Contos da Infância e do Lar, dos Irmãos Grimm. Ou melhor, a recolha é deles, os contos são tradicionais. Finalmente uma edição completa. Finalmente - 200 anos depois da edição original, em alemão. Em três volumes.

O Cânone Ocidental, de Harold Bloom. Este gajo tem umas teorias interessantes. Há dez anos encomendei a edição original numa livraria dedicada a livros em inglês. O diabo do livro nunca chegou. Agora em Português, para quando andar com paciência para o canône dos outros. Que o meu, por esta altura, já está praticamente definido. E sim, o cânone é uma questão de gosto. A maneira como se forma o gosto, essa já outra questão.


***Não, não tenho a ilusão de que 112 milhões de euros me fariam feliz. Mas ajudavam - ai se ajudavam! - a pagar a conta no lobby do hotel...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ainda há bons empregos em Portugal...

Desemprego, Licenciatura, Mestrado, Doutoramento, Portugal, Mendigo


Sofres de Licenciatura, Mestrado, ou Doutoramento? Quem te mandou estudar, quando podias ter pedido equivalência? Agora aguenta...

Perdeste anos na Faculdade? Mais valia ter feito a inscrição num Partido Político - tinhas emprego garantido, e não pagavas propinas...

MINISTÉRIO DA DEFESA NACIONAL (2)

Cargo: Assessora
Nome: Ana Miguel Marques Neves dos Santos
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.069,33 EUR

Cargo: Adjunto
Nome: João Miguel Saraiva Annes
Idade:28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.183,63 EUR

MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS (1)

Cargo: Adjunto
Nome: Filipe Fernandes
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.633,82 EUR

MINISTÉRIO DAS FINANÇAS (4)

Cargo: Adjunto
Nome: Carlos Correia de Oliveira Vaz de Almeida
Idade: 26 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.069,33 EUR

Cargo: Assessor
Nome: Bruno Miguel Ribeiro Escada
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.854 EUR

Cargo: Assessor
Nome: Filipe Gil França Abreu
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.854 EUR

Cargo: Adjunto
Nome: Nelson Rodrigo Rocha Gomes
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA (2)

Cargo: Assessor
Nome: Jorge Afonso Moutinho Garcez Nogueira
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Assessor
Nome: André Manuel Santos Rodrigues Barbosa
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.364,50 EUR

MINISTRO ADJUNTO E DOS ASSUNTOS PARLAMENTARES (5)

Cargo: Especialista
Nome: Diogo Rolo Mendonça Noivo
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Adjunto
Nome: Ademar Vala Marques
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Especialista
Nome: Tatiana Filipa Abreu Lopes Canas da Silva Canas
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Especialista
Nome: Rita Ferreira Roquete Teles Branco Chaves
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Especialista
Nome: André Tiago Pardal da Silva
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

MINISTÉRIO DA ECONOMIA (8)

Cargo: Adjunta
Nome: Cláudia de Moura Alves Saavedra Pinto
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Tiago Lebres Moutinho
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: João Miguel Cristóvão Baptista
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Tiago José de Oliveira Bolhão Páscoa
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: André Filipe Abreu Regateiro
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Ana da Conceição Gracias Duarte
Idade: 25 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: David Emanuel de Carvalho Figueiredo Martins
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: João Miguel Folgado Verol Marques
Idade: 24 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 EUR

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA (3)

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Joana Maria Enes da Silva Malheiro Novo
Idade: 25 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Antero Silva
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 EUR

Cargo: Especialista
Nome: Tiago de Melo Sousa Martins Cartaxo
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 3.069,33 EUR

 MINISTÉRIO DA SAÚDE (1)

Cargo: Adjunto
Nome: Tiago Menezes Moutinho Macieirinha
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,37 EUR

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DA CIÊNCIA (2)

Cargo: Assessoria Técnica
Nome: Ana Isabel Barreira de Figueiredo
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.198,80 EUR

Cargo: Assessor
Nome: Ricardo Morgado
Idade: 24 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.505,46 EUR

SECRETÁRIO DE ESTADO DA CULTURA (1)

Cargo: Colaboradora/Especialista
Nome: Filipa Martins
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 2.950,00 EUR

Mais bons empregos aqui. É começar a enviar CV's!!!

[PARTILHEM ESTA POUCA VERGONHA...]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Anotação número 59: passagem das horas

Passagem das Horas, Relógio, Tempo, Horas,

59.

Quando damos por nós à espera da passagem das horas, envolvidos pelo tédio no seu limbo de marasmo e melancolia, a existência transforma-se num interminável e sorumbático suplício. A única esperança reside no súbito aparecimento de um dia melhor – firme ilusão com que subsistem os canalhas. Não surgirá melhor dia. Quando o presente não nos satisfaz, foi derrubada a barreira entre nós e o absurdo. Demo-nos conta do exílio a que nos encontramos condenados. Para os canalhas o futuro é a fuga ao absurdo. Mas como qualquer outra é uma ilusão também. E incapacitante. A esperança de que um dia melhor virá resgatar-nos do exílio, do absurdo, do presente, prende-nos ao que há, impedindo-nos de lutar contra essa angustiante alienação com a única arma de que dispomos: nós mesmos.

Anotação número 59 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

A Passagem das Horas

Salvador Dali, Persistência da Memória, Passagem das Horas, Álvaro de Campos

A Passagem das Horas, talvez o melhor poema de Álvaro de Campos, provavelmente o melhor poema alguma vez escrito. Também há a Tabacaria, eu sei. Também existem as Odes, e a Saudação a Walt Whitman... Mas apenas A Passagem das Horas têm os half-holidays inesperados; e Seja o que for, era melhor não ter nascido,/ Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/ A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/ A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/ Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/ E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/ Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/ E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,/ Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida. Enfim, aqui deixo o poema completo para quem o quiser ler:


Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

domingo, 8 de julho de 2012

Palavras - Por Alexandre O'Neill e Eugénio de Andrade

Palavras, Palavras que Ferem, Violência, Violência Verbal

Há palavras que nos beijam...

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Poema de Alexandre O'Neill


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Poema de Eugénio de Andrade

O Muro

Muro, Wall

o muro

agora, que os dias se acumularam
e ergueram, entre nós, este muro
(este silêncio) que nos rodeia
que nos resta? para dizer
ao Outro que, atento, nos ouvia


as palavras perderam. o significado
entre elas, e o que representam
um enorme abismo. foi cavado,
entre nós, com as mãos e o suor
que este muro (este silêncio) deixaram

Poema de André Benjamim

Nunca se abandona um amigo nem um camarada de armas...*

Foto do facebook, de Manuel Adriano Rodrigues

*Muito teria a dizer sobre isto, mas deixo aqui apenas esta foto de que gostei muito; e o comentário do Manuel Adriano Rodrigues à mesma: «Eu já pensei em matar alguns amigos, mas em abandoná-los nunca.»

memórias pequenas #6


Uma das memórias mais dolorosas que guardo comigo é do dia da minha primeira-comunhão - sim, aluno de colégio interno, católico, já fui obrigado a todos esses rituais que desprezo. Tinha entrado para o colégio no ano anterior e, se a maioria dos alunos ali fazia a primeira comunhão na primeira classe, na segunda aqueles que à primeira não conseguiam passar no exame de memorização dos pecados capitais, mandamentos, e umas quantas orações de que já nem sei o nome (e não me apetece procurar), no meu caso apenas na terceira classe: na aldeia já a podia ter feito, mas eu fugia às aulas de catequese.
Ainda assim com a preciosa ajuda da catequista que lá meteu uma cunha ao padre. Não, nunca consegui decorar os dez mandamentos, nunca fui capaz de saber aquela oração enorme de cujo nome não me recordo, nem quero ir procurar, embora tal fosse estranho para quem sabia que não tinha a menor dificuldade para decorar coisa alguma.
Mas a minha pequena memória desse dia é esta: a mãe do Davide tinha vindo ao colégio (estava na Suíça) para assistir à primeira-comunhão do filho, e tinha trazido um bolo e outras sobremesas. Logo fui convidado, veio o João e o Davide, primeiro, e depois a irmã Gaspar falar com a minha mãe para ir à festa. Mas a minha mãe não deixou, nunca percebi porquê - mas também nunca percebi a minha mãe.
Há pequenos momentos, inocentes, inócuos, nas nossas vidas, que imaginamos que poderiam ter alterado uma vida, que podiam ter reescrito o destino. Claro que a vida não teria sido menos injusta e ingrata connosco, mas...
Anos depois, quando me reencontrei com o Davide, ele levou-me uma fotografia, a única em que vi o João desde então. Também lá está o Nuno, e outro rapaz que - penso - fosse o irmão mais velho do João...
Desse dia guardo o momento em que, horas mais tarde me encontrei com o João, cerca das 17 horas, pouco antes da hora do lanche, e a frase e o olhar acusador: - Porque é que não foste, meu maricas?

Da Vinci - Conquistador


O João e o Davide adoravam esta música. Sempre que a ouço, lembro-me deles. E sempre que me lembro deles há algo que brilha dentro de mim; mas também há algo que - morto e podre - me deprime. Puta de vida.

sábado, 7 de julho de 2012

Desejo

Face, Rosto, Cara


DESEJO

queria escrever um verso
límpido claro transparente
como o reflexo da luz
numa lágrima cristalina
a descer pelo teu rosto


queria dizer um verso
forte robusto dilacerante
que cingisse as palavras
num voluptuoso amplexo
e te arrebatasse um beijo

Poema de André Benjamim.

Post-Scriptum: O meu romance registou as primeiras vendas em formato e-book. O meu obrigado aos corajosos compradores e (espero) futuros leitores.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

sessão de lançamento e apresentação de refracções em três andamentos - poesia de Daniel António Neto Rocha

refracções em três andamentos poesia de Daniel António Neto Rocha
Primeiro livro publicado por Daniel Rocha


No próximo dia 7 de Julho, pelas 16 horas, será apresentado o livro «refracções em três andamentos», na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda. É a obra de estreia de Daniel Rocha, blogger n' o tempo das silenciosas discussões. A apresentação está a cargo de Joana Duarte Bernardes, que é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Coimbra e Mestre em Teoria e Análise da Narrativa. Atenção que consta que é uma licenciatura a sério. E o mestrado também. Quem quiser comprar o livro ao autor, e não puder ir à sessão de lançamento, veja AQUI como o pode fazer.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Palavra do Senhor, Amén!

Anjo, Angel, John Milton, Gustave Doré, Paraíso Perdido, Paradise Lost
Ilustração de Gustave Doré para O Paraíso Perdido, de John Milton


Quando Deus fez o mundo, para que todos os homens prosperassem, decidiu dar apenas duas virtudes a cada um. Assim:

- Aos Suíços fê-los estudiosos e respeitadores da lei. 
- Aos Ingleses, organizados e pontuais..
- Aos Japoneses, trabalhadores e disciplinados.
- Aos Italianos, alegres e românticos.
- Aos Franceses, cultos e sedutores
- Aos Portugueses, inteligentes, honestos e políticos.

O anjo anotou, mas logo de seguida, cheio de humildade e de medo, indagou: 

- Senhor, a todos os povos do mundo foram dadas duas virtudes, porém, aos Portugueses foram dadas três! Isto não os fará soberbos em relação aos demais povos da terra?

- Muito bem observado, bom anjo! - exclamou o Senhor. - Isto é verdade! Façamos então uma correcção! De agora em diante os Portugueses, povo do meu coração, manterão estas três virtudes, mas nenhum deles poderá utilizar mais de duas simultaneamente, tal como os demais povos!

- Assim, o que for político e honesto, não pode ser inteligente.
- O que for político e inteligente, não pode ser honesto.
- E o que for inteligente e honesto, não pode ser político....

Palavra do Senhor.

Amén!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Filhos-da-Puta

Professor Herrero, Merda, Merda na Tola, Merda e Mosca, Merda na Cabeça



Há uma diferença entre o senhor da imagem e os filhos-da-puta que governam (passados, presentes, e - provavelmente - futuros) em Portugal. Talvez não seja óbvio para toda a gente, portanto eu clarifico: é a posição da merda! Na cabeça dos que governam em Portugal, a merda está dentro da cabeça. E mais: esses filhos-da-puta não passam de uns grandes cagalhões...

Ou, como comentei no post do Carlos, há que chamar os bois pelos cornos que ostentam! Já não estamos em tempos de falinhas mansas... 

(Desculpem lá a cropografia deste post - mas já não há pachorra para o cheiro pestilento que sopra de Portugal)

domingo, 1 de julho de 2012

a época das ceifas...

Trigo, Ceifa do Trigo, Ceifeira, Ceara de Trigo, Campo de Trigo, Fernando Ikoma
A Colheita do Trigo, de Fernando Ikoma.


Era Julho, época das ceifas
Quando os sorrisos percorrem
Alegres, os campos e cearas,
De boca em boca, e o voar
Das borboletas vai de flor em flor
Beijar as faces das ceifeiras.
Ouvia-se o seu límpido cantar
Vozes rumorejando pelo ar
O murmúrio estival do amor.
Sussurei baixinho o teu nome
Por entre o trigo e o centeio
- Ainda ouves a brisa fresca,
O lento gorgolejar da ribeira? -
E fiquei quietinho à espera,
A imaginar as tuas carícias,
O teu olhar e os teus beijos...


Poema de André Benjamim

Pintura de Fernando Ikoma.

Euro: Espanha vs. Itália

España, Espanha, Spain, Vencedor do Euro, Campiã da Europa, Campeão Europeu, Euro 2012, Euro Champion, Crise, Futebol

As aparências iludem... ou, por detrás de uma bela fachada pode estar uma mansão em ruínas...

chegavas e partias como um ténue sonho...

Flauta, Criança, Gato, Tocador de Flauta,

chegavas e partias como um ténue sonho
um aroma uma brisa uma palavra alada
dizias palavras delicadas imperceptíveis
notas murmuradas como se contivessem
segredos bem guardados envergonhados
escondidos na algibeira vazia rasgada
onde guardavas a flauta e partias


ias e vinhas como as notas da tua flauta
tocando com ternura e delicadeza a melodia
com que me aconchegavas nas noites frias
soprando segredos que escorriam suaves
pelo meu rosto como gotas de orvalho
até que um dia não voltaste e aquela melodia
tornou-se numa memória triste que persiste


ias e vinhas até que um dia partiste
guardando para sempre a velha flauta
na algibeira vazia, apertaste o sobretudo
e partiste indiferente ao meu pedido:


– toca uma vez mais aquela melodia triste


da flauta saíam notas aladas que depois de tocadas
voltavam à pauta como se fossem segredos
eram palavras delicadas que eram murmuradas
enquanto trauteavas a tua melodia ao meu ouvido 

Poema de André Benjamim