quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tenho cada vez mais vontade...

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Don Quixote and Sancho setting out, de Gustave Dore (1863)


Um dia vou partir pelo mundo fora de mochila nas costas, dizendo adeus até nunca mais a tudo quanto se cruzar comigo... vou despir-me desta corda asfixiante de esperanças e expectativas, de sonhos e objectivos, de desejos e pretensões, que me tolhe a vontade, e partir... vou partir, só, e sem direcção, rumo ao pôr do sol como Lucky Luke; abandonar os meus livros como Dom Quixote, o fidalgo cavaleiro de La Mancha; vou desapertar a gravata das contas, das prestações, dos cumprimentos, rasgar as camisas dos papéis que tenho aceitado desse encenador cínico chamado Vida, homem com nome de mulher, como nas personagens de Vian. Vou queimar esta roupa encharcada de hipocrisia e partir. E a cada passo direi olá adeus até nunca mais alegre ou triste não sei pessoa que te cruzas comigo. E conversarei também com os objectos, os prédios e os carros, prisões que inventámos e a que chamámos Liberdade, e caminharei na companhia das árvores e dos pássaros, sob a sombra das nuvens, as maravilhosas nuvens que passam... E a cada passo ir-me-ei despindo para que a Morte me encontre nu e eu me possa entregar por completo.

... mas aquilo que me sobra em vontade, falta-me em coragem...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Procura-se um Pedro Almodóvar*

La Mala Educación, A Má Educação, Pedro Almodóvar
 
O Luís escreveu sobre o livro feito romance a partir de fragmentos e anotações:

La Mala Educación, A Má Educação, Pedro Almodóvar


«Em Nome do Desejo», «Má Educação» e «Os Cadernos Secretos de Sébastian» abordam — todos — a mesma problemática: a amizade extrema entre companheiros adolescentes que redunda em amor e explode em incontido desejo. O primeiro escreveu-o o brasileiro João Silvério Trevisan em 1983 (...); o segundo foi filme do espanhol Pedro Almodóvar (...); o terceiro é o primeiro livro publicado do português André Benjamim, encontrando-se à venda desde há quase um ano. Eu comprei-o e acabei de o ler há bem pouco tempo. É sobre ele que me venho manifestar, para aconselhar a leitura a quem o tema possa interessar.
(...) E Sébastian é a outra voz que se faz ouvir no romance. São duas histórias paralelas, que em certos momentos se encontram e noutros se separam: as memórias que André recolhe de apontamentos escritos na sua passagem pelo internato, os diários que Sébastian escreveu a partir dos seus 13 anos.
"Este romance é em grande parte uma reflexão sobre o modo como nos relacionamos uns com os outros, e com nós mesmos; sobre o modo como nos enganamos a nós próprios e aos outros... O que muitas vezes é quase natural, no sentido em que as trocas que estabelecemos uns com os outros estão sempre sujeitas ao equivoco... Há uma impossibilidade de comunicar, porque aquilo que para nós tem um significado, no Outro pode ter um significado completamente díspar... Gosto dos romances que são como laboratórios sociais, onde se testam hipóteses sobre como seria, ou como será, o relacionamento entre os seres humanos, se certas variáveis estiverem presentes..." disse-o o André a propósito do seu livro «Os Cadernos Secretos de Sébastian»

La Mala Educación, A Má Educação, Pedro Almodóvar

E sobre futebol, hoje isto é tudo o que tenho a dizer:

Observava com delícia o prazer com que aqueles corpos atléticos corriam atrás de uma bola gasta, quase a rebentar. E, de quando em quando, corria também para aquela esfera misteriosa que nos unia de uma forma transcendente, ignorando os nossos vícios e virtudes, méritos e defeitos, medos e desejos, unindo-nos num todo denso e uno, num todo aconchegante e suado; era provavelmente esse o prazer do futebol, não nos distinguia: no momento da vitória festejávamos todos com a mesma alegria e euforia; e no momento da derrota o desânimo e as lágrimas eram partilhados na mesma dor.


(Cena de Futebol, no filme A Má Educação)


Fragmento, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.

O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.


*Pena que o Pedro Almodóvar só realize filmes a partir de argumentos escritos por si mesmo...  

sem título porque há imagens que dizem tudo

Euro, Europa, Crise

terça-feira, 26 de junho de 2012

Da infância perdida à vida reencontrada (de um Homem a enlouquecer)*

Psycho, Alfred Hitchcock, Psicose, Loucura, Madness, Going Crazy
Fotograma do filme Psycho, de Alfred Hitchcock


Todos os seres, meus semelhantes, pelos quais torci algum dia algum esboço de paixão, ou que estiveram presos a mim pelos sagrados laços do Amor, ou morreram ou partiram... O Santuário do Amor foi profanado; no seu altar os deuses do Ódio e da Inveja receberam o sangue da virginda-de de tenras crianças, cujos sorrisos foram penetrados pela luxúria de perversos pederastas... Sodomizada a infância da minha memória, violada, assassinada assim tão cruelmente, perpassada pelo olhar frio, penetrante, incisivo da pedófila religiosidade das aparências, deixada a minha vida sem escolha com um destino apenas, que sorrindo lhe ofereceram; tinha que o aceitar estoicamente, já sem sentir nem vontade de sentir, já vazio o meu corpo e a minha alma da dourada Sensibilidade... Arrefeci, como arrefece qualquer Homem só. Arrefeci, como arrefece qualquer Homem a quem se oferece como único caminho, o da sinuosa Solidão.
Não sei exactamente quando deixei de me apaixonar; a minha vida tornara-se diletantista havia muito, até que por fim, mesmo nas esferas do hipotético, se deixaram de fabricar as paixões; deixei assim de me apaixonar e de me querer apaixonar.
Iniciei então a mais longa fase da minha vida, na qual o único relacionamento – que fugia assustado da minha misantropia – que mantive foi comigo mesmo... Masturbado o olhar cândido da minha casta infância nada mais havia a fazer; entrei na mais desregrada das vidas; sem leis, regras, valores ou princípios. A única ética desses tempos consistia em odiar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Se eu fosse milionário...

Farmhouse Among Trees de Vicent Van Gogh, Quinta, Quinta Isolada
Farmhouse Among Trees, de Vicent Van Gogh
 
Há quase vinte anos, procurava ansiosamente um novo impulso para o meu livro; aquele que sonhara que seria a obra de arte da minha vida. Era jovem e ambicioso, mas estúpido. Estúpido por acreditar que já tivera sucesso, de forma a poder coroá-lo com o livro da minha vida, o ponto mais alto de uma grande carreira. Mas não passava de uma criança com alguns trocos nos bolsos, pensando que podia realizar todos os meus caprichos. Enganei-me! Mas ainda bem que assim foi; pelo menos, por uma vez na vida, aprendi uma grande lição...

Escrevera três volumes de poesia erótica, de uma só enfiada. Pornográfica em muitas das suas estrofes, embora na maioria dos versos apenas sublimasse o sexo. Juntara ao prazer a total desinibição, violara todas as fronteiras,  rompera com todos os limites - ou assim pensava. Masturbação e orgias deliciaram as mentes mais envergonhadas. Um pouco de sado-masoquismo libertara os tímidos. Sexo aqui e acolá, sexo ali e além, sexo em todo o lado; sensualidade e perversão.

A arte da voluptuosidade, ou a voluptuosidade da arte; a voluptuosidade-arte como Mário de Sá-Carneiro confessara na sua Confissão de Lúcio.

domingo, 24 de junho de 2012

Euro: Inglaterra vs. Itália

Itália, Italy, Italie, Greece, Grécia,




As notícias que dão a queda de Itália como certa são claramente exageradas? Pelo menos por enquanto não se juntam à Grécia...

IRS

IRS, Ministário das Finanças, Ladrões

Foi depositado na minha conta dia 20, apenas um mês depois daquilo que estava estipulado, mas lá chegou. Dinheiro que estes gajos tiveram adiantado durante um ano e três meses. Cheguei a pensar que já não me fosse depositado - não fossem lembrar-se de escrever algum roubo-lei, ou decreto-lei, como eles dizem.


Um àparte: o Blogómetro pifou. O Aventar criou uma versão alternativa, ainda em fase experimental. Lá está este blog na modesta 326ª posição. Nada mau para um pobre desconhecido. Obrigado a todos os que me visitam.

um fragmento: palavras que nos salvam

Boys Playing on the Shore de Albert Edelfelt, Albert Edelfelt, Boys, Shore, Beach,

Entrou no pequeno Citroën vermelho, que rodou vagarosamente pela rampa em espiral, desaparecendo na curva da minha vida. Como poderei algum dia esquecer este instante que, de certo modo, mudou a minha vida para sempre; que alterou por completo tudo aquilo que pensava das pessoas e do mundo; como poderei voltar a confiar em alguém, se a pessoa que mais amei me abandonou de forma absolutamente vil e imprevista?

Fragmento, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

sábado, 23 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Euro: Grécia vs. Alemanha

Greece, Germany, Euro, Grécia, Alemanha, football, futebol, Angela Merkel
Às vezes o futebol não tem nada que ver com a realidade da vida mesquinha do dia-a-dia. É pena.

Anotações número 94 e 95. e-book

O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

Abaixo deixou as anotações número 94 e 95 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Prólogo: a Rua do Encontro

Hugo Simberg, The Wounded Angel, Anjo, Anjo Ferido, Angel
The Wounded Angel, de Hugo Simberg



PRÓLOGO*


Aproximam-se dois vultos do jardim que se estende frente aos edifícios da Polícia de Segurança Pública e do Governo Civil do outro lado da rua
Descem dando passos calmos pequenos decididos
Contornam a esquina e param
Um Mercedes cor de azeitona verde vira para a rua estreita e passa por eles a rasar quase tocando-os
O mais pequeno dá um pulo assustado para trás
O maior não se move continua impávido
Quando o rouco roncar do motor se silencia distante o maior suspira olha para o lado de mãos enfiadas nos bolsos e atravessa a estrada a correr retomando as passadas lentas no passeio que orla o jardim
O mais pequeno segue-o apressado
Estão de novo lado a lado
Caminham mais alguns metros sentando-se depois num dos velhos bancos abandonados e vermelhos do jardim
Instantes passados o mais velho volta a levantar-se
O outro segue-o resignado
Param junto ao busto que jaze no centro do jardim
Continuam descendo para o passeio oposto aos laicos edifícios da República
O mais velho detém-se para ler as inscrições grava-das numa pedra de mármore cravada no granito
Alta cidade da vetusta beira
Entalhada na monstra serrania
Chamam-te feia, falsa, fria
Mas és também fidalga hospitaleira
Voltam ao jardim
O mais novo roda o corpo sentando-se com uma perna dobrada sob as tábuas carcomidas do banco
Coloca as suas mãos cruzadas pálidas púberes sobre o ombro hirto do mais velho
Olha para ele ansioso e expectante mas este parece não lhe prestar atenção
Observa os polícias que conversam na ombreira do lúgubre edifício
– Qual é o problema
Pergunta o mais novo
Tem uma voz meiga e aguda uma adocicada mistura do tom límpido infantil que vai perdendo com o tom gutural adolescente que ainda não ganhou por completo
O mais velho não responde encolhe os ombros olhando para o mais novo pela primeira vez
Repara então que é bonito realmente bonito pensa
Tem uns olhos claros um nariz bem moldado entre as pregas da face rubicunda a pele resplandecente
É lindo de uma beleza cândida inocente ingénua
Demora-se no rosto do mais novo afundando-se no abismo ávido profundo transparente dos olhos meigos dele
– Gostas de mim
Questiona o mais novo
É um rapaz extrovertido simpático e falador
Tem menos meio palmo que o outro
Apesar da tenra idade (não terá com certeza mais que quinze anos) transborda experiências
Aborrecido por o outro não lhe prestar atenção senta-se direito no banco não sem antes desviar o cabelo negro do mais velho da frente dos seus olhos negros também
Remexe os bolsos das calças retirando um maço de Ventil puxa um cigarro e pede isqueiro ao mais velho que lho estende paulatinamente depois de o procurar nos bolsos do casaco que pousa sobre os joelhos primeiro e nos bolsos das calças depois até o encontrar
Segura o pequeno objecto negro entre o polegar e o indicador
Pede-lhe um cigarro levando-o depois com um movimento esguio à boca
Tem os cabelos compridos escuros melancólicos escorrendo-lhe pela testa larga
Debruça-se apoiando os cotovelos nos joelhos
O mais novo impacienta-se bufando exageradamente para dar a entender o seu fastio ao outro
O mais velho olha absorto para as suas mãos trémulas que cruza distraidamente segurando o cigarro desajeitado com dificuldade
Sente dó de si mesmo uma piedade aguda fria metálica que lhe estala no peito
Cerra os lábios hermeticamente
Suga o lábio superior com o inferior e trinca-o
É uma sensação deliciosa sentir a pele dos seus lábios friccionada contra a dureza dos dentes
Exagera a força com que se morde lacerando ligeiramente o lábio que começa a sangrar
Sorve o líquido encarnado
Tem um sabor agridoce
Está uma noite fresca durante o dia a temperatura tinha subido bastante agora ambos de manga curta tremiam
O mais velho tem o casaco dobrado sobre o colo
Já o vestira mas era demasiado forte começara a suar despira-o novamente
Os polícias suspendem a conversa distraída revirando os seus olhares incisivos na direcção das duas silhuetas difusas
Eles apercebem-se que são o foco do interesse dos dois homenzarrões vestidos com umas ridículas calças azuis escuras e um casacão de cabedal negro
Estão sentados num banco coberto pela sombra de uma palmeira frondosa
A luz do candeeiro eléctrico bruxuleante e pálida ilumina-os com grande dificuldade
Os polícias não conseguem distinguir-lhes os traços do rosto
Está uma noite nublada
Uma brisa primaveril seca doce move-se morosa-mente por entre os galhos pejados de folhas escuras viçosas brilhantes onde jorram os restos da luz pálida da lua arrastando atrás de si os pólens e realçando os contornos das folhas
– Vamos dar uma volta
Pede o mais novo
– Não gosto do olhar daqueles tipos
Seguem pelo corredor lânguido
Ao fundo do jardim perfilam-se quatro cabinas telefónicas e um quiosque
Param para ver os artigos expostos
E continuam o seu caminho subindo pela Rua do Encontro.

*Prólogo, escrito sem pontuação, que é como uma curta-metragem projectada antes do filme em exibição, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

Euro: Portugal vs. República Checa

Meias, Peúgas, Portugal, Crise

A história está sempre a repetir-se, não acontece é sempre da mesma maneira: por vezes os vencedores mudam, apenas os pobres perdem sempre...

terça-feira, 19 de junho de 2012

um fragmento: jesus cristo crucificado

Jesus Cristo, Cristo Crucificado, Jesus Cristo Crucificado, Diego Velázquez
Jesus Cristo Crucificado, de Diego Velázquez

As velhotas levantaram a cabeça, fixando-nos com admiração e estupefacção, provavelmente por verem dois jovens irromperem num espaço de velhos. A curiosidade fê-las parar as suas rezas maquinais. Os lábios que se mexiam, quase sem deixarem de se tocar, cerraram-se. Sentámo-nos no último banco, aquele que se prostra divinamente, frente ao altar, sem se ajoelhar.
Elevada atrás e acima do altar, pendia uma cruz com um cristo moreno e musculado, de longos cabelos ondulados caindo-lhe lubricamente sobre o peito. A cabeça tombada para a esquerda e uma expressão absorta de dor. Um belo peito definido e a barriga encolhida com os abdominais salientes. À cintura uma pequena prega de pano cobrindo-lhe a denúncia da sua humanidade, deixava entrever as vergonhas humanas. Pelos vitrais das enormes vidraças entravam alguns raios de luz coloridos, espalhando-se sensualmente sobre o corpo do cristo.
– Amo-te! – Disse-me o Fábio, baixinho, e chegando a sua cabeça junto da minha. As velhotas lá atrás olhavam-nos com curiosidade crescente. Espreitei de soslaio. Apercebendo-se do movimento da minha cabeça, recolheram às suas orações. Entretanto a terceira velhota, a mais velha delas todas, adormecera profundamente. Da testa pendiam-lhe cabelos soltos, e os sulcos das rugas enchiam-se de suor. O nariz adunco ia pingando sobre o seu vestido negro, e a respiração pesada começava a encher lentamente a igreja.
– Eu também te amo…
– Se pudesses, casarias comigo? – No instante em que acabava a pergunta pegou na minha mão direita, apertando-a com força. Entrelaçou os seus dedos nos meus e pousou as nossas mãos unidas sobre as suas calças de bombazina bege. Do alto da sua cruz, cristo parecia olhar-nos com enlevo. Uma velhota tossiu. A terceira acordou, reatando as suas rezas, com o terço enlaçado entre as pregas de pele aveludada dos dedos trementes. Entretanto, entrou um casal de mão dada. As duas velhotas ajoelhadas seguiram o seu percurso com o olhar. Subiram pela colateral, admirando os pormenores da igreja, passaram por nós sem nos ligar atenção, fizeram a genuflexão quando chegaram à frente do altar, prostrando-se alguns segundos a olhar o cristo divinizado e saíram pela coxia.
– Então, não respondes, casarias comigo?! – Insistiu o Fábio, largando a minha mão e indo apertar o meu joelho despido.
– Casaria...
– Prometes amar-me para sempre?
– Prometo…
Segredando-me ao ouvido, pediu-me para repetir a pergunta que ele fizera.
– Prometes amar-me para sempre?
– Prometo! – Respondeu prontamente. Remexeu os bolsos, retirando dois anéis de prata. Pegou na minha mão, enfiando um deles no meu dedo. Deu-me o outro e esticou-me a sua mão. Realizei o mesmo acto.
– Agora estamos casados! – Declarou-me com veemência. Agarrou-me pelos ombros e deu-me um beijo rápido e furtivo. Olhei para trás. As velhotas rezavam distraidamente.
– Vamos embora? – Perguntei-lhe.
– Não. Vamos ficar aqui um bocado. Apetece-me estar ao pé de ti. Só estar ao pé de ti, mais nada. – Encostou a cabeça no meu ombro e adormeceu. Agarrei a sua mão, e assim permanecemos longas horas. A terceira velhota foi a primeira a sair. Minutos depois saíram as outras duas, deixando-nos a sós na igreja fria. Os raios de sol que entravam pelas vidraças iam perdendo inclinação e vigor, até que a escuridão invadiu a igreja. Cristo continuava a fitar-nos, como se o seu interesse em nós crescesse, até que a negridão fechou os seus olhos.

Fragmento, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

domingo, 17 de junho de 2012

Anotação número 17: liberdade

Cavalo, Horse, Liberdade, Liberté, Freedom

Post dedicado ao meu amigo adolescente gay, que amanhã tem exame nacional a Português, e que no próximo ano irá para a faculdade.


17.

Prezava acima de todas as coisas a liberdade. A liberdade de correr livre como os pássaros por entre as árvores do jardim. Poder sentar-me junto a um regato, ouvindo a água esgueirar-se por entre o cascalho. Ao final da tarde sentar-me debaixo de uma cerejeira, ouvindo as vozes cálidas dos camponeses regressando a casa pelo caminho de terra batida; vozes secas entrando em declínio, acompanhando a descida do sol, até se apagarem por completo.
Anos depois, quando saía da faculdade e ia para casa, parecia-me que sentia o cheiro e o som da liberdade – aquele cheiro a relva molhada e o chilrear dos pássaros. Sim! Os fins de tarde é que são a vida! O pôr-do-sol, sentado junto ao rio, só, observando as aves que procuram o seu galho para passar a noite, ou a chuva que cai sobre a minha cabeça e escorre por entre os poucos cabelos que ainda me restam, isto é liberdade! Isto é vida!
Ouvir o motor veloz dos carros passando sob o asfalto gasto ou o zumbido das conversas de café. O som cacofónico de uma discussão familiar. A mãe que puxa o garoto pela orelha com força e carinho. O pai que olha sério para a criança que não sabe se há-de rir se há-de chorar. Os autocarros que pegam e largam passageiros. Os semáforos que não cessam de mudar de cor. As montras das lojas que anunciam os novos descontos. A montra da livraria mostrando as novidades da rentrée. «Gostaria que estivesses aqui um dia comigo, para me veres cirandar pela cidade, qual barata tonta que deu de repente com a luz e que ofuscada anda de um lado para o outro aos encontrões!» Isto é vida!
Sim! Sou infeliz, mas dentro dessa infelicidade, sinto-me livre! E isso é uma sensação indescritível. Podem achar-me louco, como muitos me acham, mas às vezes levanto-me a meio da noite e vou beber um copo e fumar um cigarro a um bar daqueles que fecham mais tarde. Sento-me só a um canto. Bebo. Fumo. E volto para a minha cama fria. Ou fico a noite inteira a ler o último livro que comprei. Quando dependia da mesada do meu pai, sabia que teria que poupar o resto do mês, mas tinha um livro novo! Lia-o até ao fim. E ficava à espera de ter dinheiro para outro.


Anotação número 17 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.

O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

um fragmento: fugir

Run Away, Escape, Fugir

Quando o elevador chegou ao rés-do-chão a luz que iluminava o pequeno compartimento apagou-se. Não nos conseguíamos largar. Íamo-nos buscando ardentemente, quando a porta do elevador se abriu. Um inquilino ia subir; largámo-nos e desatámos a correr, deixando-o agarrado à porta aberta do elevador, atónito, aturdido e boquiaberto. Julgo que não se apercebeu de nada, devendo-se a sua reacção à surpresa com que se deparou com dois desconhecidos que desataram a correr feitos loucos. No entanto, não olhámos para trás, e só parámos de correr quando o prédio estava já fora do alcance da nossa vista.
Parámos num pequeno parque que havia no bairro diante das piscinas e explodimos num riso ofegante e comprometido. A manhã estava fria, e envolta num véu difuso de nevoeiro. O céu plúmbeo escondia o sol, e um vento cortante anunciava um dia cinzento. Nas ruas não se via ninguém.
– E se ele viu o que estávamos a fazer?
– Provavelmente gostou de ver, mas não teria coragem para o afirmar!
– E nós, quando deixaremos de ter medo?
– Eu não tenho medo!
– Então porque fugiste?
– Tu também fugiste!
– Eu não disse que não tinha medo!
– Eu só disse que não tinha medo de te amar, não disse que não tinha medo que descobrissem...


Fragmento, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

Eleições na Grécia: a Grécia vai a votos...

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Na Grécia vota-se hoje de novo. Pelas informações que me chegam, através de meios não-oficiais, suicidam-se por dia 2 a 3 Gregos. Por meios oficiais foi-me impossível confirmar este número, pois há estatísticas que não são publicadas (ou se as há não as encontro; se alguém souber delas, é favor informar-me). A Grécia, para quem não sabe, era um dos países com menores taxas de suicídio. Habitualmente, a taxa de suicídio é maior nos países do centro e norte da Europa, levando estes últimos vantagem nesta mórbida escala. Diz-se que devido ao menor número de horas de sol, que faz com que as pessoas deprimam mais facilmente. A Grécia vai a votos, e pelo que as sondagens indicam, a escolha é entre a Nova Democracia (que de novo nada tem; é assim qualquer coisa como um partido Democrata-Cristão, que de democrata só não tem o povo, e de cristão só tem a crista) e o Syriza, que ao menos tem um nome engraçado. Mas para os Gregos a escolha é a forma de suicídio. Triste Europa esta. Dia para recordar A Vergonha da Europa - poema de apoio à Grécia, de Günter Grass.

sábado, 16 de junho de 2012

Anotação número 92

Scattered Photos, Fotos Espalhadas, Recordações


92.

Sobre a minha secretária espalham-se fotografias. Pedaços momentâneos de vida. Amigos. Ela. Sonhos. A minha amada. Fantasias. A minha amante. Projectos. Futuro. O destino. Acreditava que o controlava. E o Sébastian. Mas destinei-me a servi-lo. Matei-me ao matá-lo. Eu e o meu destino. O mesmo. Enganei-me quando decidi ser um viajante sem bagagem; quando me convenci de que o melhor era entregar-me ao caminho. Ignorei que o caminho era eu que o fazia. Que nada nem ninguém, nem destino nem deus algum, o fariam. Quando dei conta de mim, apercebi-me que viajara por caminhos de outros, guiado pelas contingências do momento, pelas idiossincrasias do tempo, pelas convenções do lugar. Pego nas fotografias. Uma a uma. Vivo outra vida em cada instante ali cravado. O Sébastian abrindo um sorriso largo. Eu de um lado, o Fábio do outro olhando para ele com o seu sorriso vibrante. Ela beijando-me com ternura. No jardim. No parque. No dia do casamento. Os meus pais no dia em que se casaram. O meu filho gatinhando para a vida. O meu filho que nunca voltei a ver. Os meus pais que morreram. O Sébastian que se quis ir embora. O Fábio que se evaporou como um ser etéreo.
Não estou conformado; resignado apenas. Perdi tudo.
Que vida. Tão farta e tão vazia.
Noutro álbum um instante suspenso no momento em que foi meu amigo um amigo que nunca o foi. Percebi-o tarde demais, quando já me invadira a alma. Atrás de si deixou apenas destroços. E fugiu. As palavras de aviso do meu pai ecoam no meu cérebro «enquanto tiveres utilidade». Um dia não precisou mais de mim. Pisgou-se antes que mefistófeles piscasse meio olho. Fixo a fotografia. Envoltos pela vegetação que já não é nada. Barrocos e construções terminadas. Ali estamos. Sem, contudo, significarmos alguma coisa um para o outro. Ali estamos, como irmãos, mas nem nos conhecemos. Ali estamos, como amigos, mas no fundo há desprezo. E o desprezo é a forma mais cruel de odiar alguém. Estamos ali por engano, lado a lado, abraçados. Estamos ali – o que parece é passado, o que é ninguém o sabe...

Anotação número 92 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Anotação número 21

Três Amigos***


21.


As visitas dos amigos começaram a rarear. A casa outrora movimentada, nas tardes quentes de domingo, ganhava uma atmosfera desoladora de abandono. Por fim as visitas cessaram de todo:
– Também, não perco nada! – Afirmava o meu pai, na sua estranha forma de se lamentar. E alertava-me para a dureza da vida. – Nunca te esqueças que a amizade é um sinónimo de interesse e utilidade. – O meu pai tinha um dicionário muito seu; as palavras podiam significar o que ele quisesse. – Enquanto tiveres interesse para um tipo, ele pro-cura-te. Trata-te como se fosses um irmão; bajula-te se for preciso, sem escrúpulos para te dizer que te ama; e por vezes parece mesmo amar-te, mais que à própria família.
»No entanto, mal a utilidade que vê em ti cesse, ele desaparece da tua vida mais rápido que um diabo esfrega o olho.
»Por isso, ouve-me com atenção, a amizade é algo que não existe! Na vida ou somos frios e calculistas ou somos uns tristes; os tristes, como não têm mais nada que fazer, como não têm mais com que dar cor aos seus dias, perdem o tempo a cultivar a amizade.
»Tu aproveita-te dos tipos que conheceres, enquanto eles tiverem utilidade para ti... Mas fisga-te, ouviste-me?... Fisga-te o mais rápido que puderes, sem razões nem justificações, nem sequer desculpas... Fisga-te e mais nada. Não tens que dar justificações a ninguém, porque a vida é tua...
»Caso contrário, acabarão por te sugar. Chupam-te até ao tutano, e no fim fica apenas o vazio, a solidão e o abandono...
»De uma mulher pode-se gostar, ou até amar. A um amigo nunca! Uma mulher pode magoar-te, encontras outra que trate as tuas mágoas. Mas um amigo suga-te até ao tutano, deixa-te sem nada, sem recuperação possível...

A Terra dos Sonhos e da Felicidade. O Paraíso na Terra. Brazil.

Brazil, Brasil, Mapa,Map, Political Map, Mapa Politico

Nos últimos tempos (vá, não mintas), nas últimas três ou quatro semanas tenho pensado em emigrar para o Brazil. Tem a língua que eu amo, e o clima que eu adoro. Tem até gente bonita - demasiado bonita, embora eu odeie pessoas bonitas. A literatura é fantástica, embora tenha Paulo Coelho. E há por lá muita religião, mas a gente perdoa que Deus é Brasileiro. Não sei se é preconceito, mas para mim os Brasileiros são todos felizes, mesmo na miséria, mesmo na maior das contrariedades, mesmo na maior das desgraças - talvez os meus leitores do outro lado do Atlântico queiram ter uma palavra a dizer. Deve ser do clima - há coisas que não se compram. Todos os Brasileiros que conheci eram extremamente - até exageradamente! - felizes. Recordo um, nos idos de 2000 - lá está, era louro e tinha olhos azuis, quase custava a acreditar que fosse Brasileiro, tamanha era a parecença com os Suecos, e como eu disse, eu odeio pessoas bonitas! - era um rapaz fantástico com quem convivi apenas em três ou quatro ocasiões, por via de amigos comuns. Vivia de pequenos, pequeníssimos, biscates, de quartos e comida alheia, e de um ou outro sorriso que lhe dispensavam, na maior parte dos casos era ele quem pagava com aquele lindo sorriso: há coisas que nenhum dinheiro do mundo pode comprar. Onde é que eu ia? Perco-me muito. O rapaz, bem vistas as coisas não tinha onde cair morto, estava em Portugal para onde veio sem ter familiares ou amigos, nem sequer conhecidos. E tinha HIV. Eu observava o sorriso dele, via aquela energia e aquela felicidade contagiante, e emocionava-me. Chegava a ser alheiamente feliz. Nunca mais o voltei a ver. Se tiver seguido o seu destino, terá ido para Inglaterra. «Sei que tenho pouco tempo de vida» - dizia. «Vou aproveitar para visitar os países que sempre quis conhecer». Como eu gostava de ser assim! Ser feliz! Apesar de todas as contrariedades da vida, do malvado vírus que o contagiou, de viver no fio da navalha, ele é talvez a pessoa mais feliz que conheci. [Embora ele andasse convencido que ia morrer em breve, espero que esteja vivo, e onde quer que esteja, que seja feliz]. (Só conheci um Português assim em toda a minha vida. Curiosamente também tinha olhos azuis e cabelos louros. Também ia para a cama com toda a gente. Embora por fim acabasse por negar o «lado homossexual», como ele dizia. Não vou dizer onde está agora, não fossem os meus conhecidos que lêem o blog identificá-lo. Mas está onde dizia que seria feliz. Espero que o seja.)
E no fundo a única coisa que importa na vida é sermos felizes. Que importa tudo o resto, se não formos felizes? E eu não sou feliz. É triste dizê-lo, mais triste ainda para nós mesmos, mas eu não sou feliz...

(Outra opções são a Austrália e a Argentina. E talvez o Uruguai. Gosto muito do Uruguai. Só me falta descobrir um meio de subsistência, e meio para pagar o transporte...)

Também a propósito deste assunto: da felicidade, 1; da felicidade, 2; memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris!; As pessoas felizes são-no; as infelizes justificam-se...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Anotação número 35

Double Self Portrait, Egon Schiele, Auto-Retrato Duplo
Double Self Portrait, de Egon Schiele (1915)

35.

Olhava para ela. O desejo que me acalentara e mantivera vivo realizara-se. Ela voltou para os meus braços. Mas não era a ela que eu desejava. Era a outra ela que existiu, em mim, através dela. Agora sabia que nunca poderia ser minha. Sabia que nem eu próprio me poderia entregar. Não era eu que ela queria. Era a outro que ela recriara em mim. Existimos nos outros em milhões de versões diferentes. Quantos Andrés percorrem as ruas em mim e eu não vejo? Foram outros nós – que nós desconhecíamos – que talvez se tenham amado.
Continuava a desejar a mulher criada por mim em mim, num momento impreciso e sublime. Ela foi o corpo impossível no qual eu esculpi a minha obra. Mas naquele momento conhecia o embuste. Olhava para ela e sentia desejo. E repulsa.
Como seria o André, meu irmão gémeo, que ela enganava? Como era o André que se debruçava sobre o seu ser, ouvindo o murmúrio vibrante dos seus lábios doces e suculentos?
Inveja e raiva. Inveja. Do André que ela amava, do André amado por ela que eu queria ser, do André com o qual eu não podia competir, sob pena de ambos a perdermos. Raiva. Por a não poder transformar na imagem que usurpava o meu pensamento.
Cada indivíduo é uma língua nativa, com termos muitos próprios cujos significados ímpares se perdem na tradução de um sujeito para o outro.
Talvez, se me dedicasse com maior afinco, tivesse conseguido apreender a sua língua. Ouvia-a com atenção. Memorizava cada som expirado pela sua boca. E tentava decifrar-lhe o significado. Jogava com ela: pedia-lhe para me explicar o que queria dizer com o que dizia. Mas ela fartava-se depressa. Era muito impaciente... Tinha que avançar devagar. Desbravar terreno. Apalpá-lo com calma e dar pequenos passos. Avançava às escuras.
Oh! Doce ilusão. Doce engano. «Talvez venha a conseguir lançar pontes entre as duas linguagens.» Dizia para mim mesmo.


Anotação número 35 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

«Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará.» - Lei de Murphy

Azar, Breaked Mirror, Bad Luck

Hoje sinto-me assim...

Anotação número 18

Abandono, Rejeição, Solidão, Tristeza, Depressão


18.

Dos últimos tempos que passei no colégio recordo sobretudo a solidão interior que se agudizara e a ilusão que criei à volta de um amigo que pensei que tinha mas que nunca o foi.
Naqueles dias em que eu me encontrava mais distante dos outros e o sentimento de solidão grassava dentro de mim, ele apareceu vindo do nada, como um anjo, e como um anjo desapareceu. E mais uma vez pensei na miragem do outro lado da cerca:
«Ainda bem que decidiste vir ter comigo, estava aqui tão só.»
Foi o amigo por quem teria dado a vida [Porque é que ainda lhe chamo amigo?]. Nunca o consegui esquecer, nem nos quartos do amor que ela me estendeu, nem nos corredores da amizade que com o Sébastian percorri. Que teve ele de especial?
A família é a casa onde nascemos, e de onde necessitamos de sair, para que o cordão umbilical se corte e possamos nascer. A amizade é a casa onde encontramos abrigo, onde podemos regressar sempre que queremos. O amor é a casa que por fim decidimos habi-tar. Em que casa o coloquei a ele?
Não sei, julgo que construí outra casa, diferente de todas estas, mas igual e elas todas. Ele necessitava de alguém. Tinha sido arremessado para o colégio pelos pais, por não ser desejado nas suas vidas. Sentia-se abandonado. Sofria. Amava-os. Sentia-se rejeitado por aqueles que mais amava. Eu ali estava. Foi no meu ombro que ele veio chorar os seus infortúnios, dizendo-me o quanto amava a família, primeiro, e o quanto queria que eu fosse da sua família, depois. Mas tudo isto porque estava só, abandonado e rejeitado. Eu construí uma casa para ele. A casa ficou vazia para sempre.
Quando a família lhe deu a atenção que qualquer filho merece, eu deixei de existir para ele. Como são diferentes as pessoas quando precisam de nós. De um dia para o outro. Corte radical. Para sempre. Foi difícil. Nunca mais o vi, nunca mais me disse uma palavra, nunca mais me procurou. Nunca mais se importou comigo, o amigo que me disse que seria para sempre meu amigo. Como é fácil dizer palavras sedutoras...


Anotação número 18 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.  


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Só. Ilusão.


Imagem: poema de André Benjamim

Aniversário. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa, com 16 anos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Poema de Álvaro de Campos. Gosto muito da fotografia acima, de Fernando Pessoa com 16 anos. Já não é do tempo em que festejavam o dia dos seus anos, nem do tempo em que ninguém estava morto. Mas há qualquer coisa na expressão facial... Parabéns Fernando Pessoa, pelo teu 124.º Aniversário.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Ainda Portugal...

Portugal,
O post «Portugal» atingiu as 4000 visitas!


De Portugal se diz ter as fronteiras mais antigas da Europa (e do Mundo?), fronteiras que não sofreram significativas alterações praticamente desde o dia em que conquistámos os Algarves, e não fosse o caso Olivença, poder-se-ia quase dizer que tínhamos as fronteiras mais rigidamente estáveis. Parece até que Deus, quando desenhou o Mundo, começou por desenhar Portugal e, fatigado, se esqueceu de desenhar o resto das fronteiras, deixando depois esse trabalho na mão dos incompetentes que haviam sido expulsos do Paraíso. Não podemos, em verdade, condená-l'O. Porque na verdade, nenhum humano ser por Si criado, à sua imagem e semelhança, logrou passar pela existência sem que algum dia chegasse esse dia em que Portugal o cansasse. Portugal cansa. Deve ser por isso o tédio, a monotonia - a cobardia! - o infatigável (a única coisa infatigável que existe em Portugal!), o infatigável cansaço!, a saudade, a passividade... a paciência! Onde é que eu ia?

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Melhor Amigo

Amizade, Best Friends, Melhor Amigo, Amigo, Friend, Friendship

Mas que gente é esta? «(...) não consigo perceber como se recompensa um amor tão dedicado e especial com um abandono tão atroz.»


Helena Fernandes, no blog A CONSPIRATA.

«Homem fraco na cama é forte fora dela.»

Solidão, Desespero, Depressão, Silêncio, Abandono

- Advogado é padre, minha senhora. Pode confiar.
- Eu sei, doutor Nelson.
- Não se acanhe. Conte a verdade. Enganava seu marido, não é?
- Deus me livre!
- Nesta citação a senhora é culpada.
Dez anos casada. Um par de filhos. Seis meses atrás, uma perda. O resguardo, descansar na casa da mãe. De volta, deu com a porta e janela trancadas. Na rua, recebeu a contrafé do oficial-de-justiça: desquite, alegação de adultério.
-Quem é esse João Maria, citado como cúmplice?
- Um compadre, doutor. Esse não vai contra mim.
Luto da mãe, o vestido preto colante, broche de borboleta. O marido tinha horror da sogra. Não lhe dirigiu a palavra nos três meses em que a velha se hospedou na casa, doente da bexiga. Tenha pena dela - suplicava a mulher. E você? Tem pena de mim?
Óculo escuro: olho roxo de um murro.
- Homem fraco na cama é forte fora dela.

Dalton Trevisan, in O Vampiro de Curitiba.

domingo, 10 de junho de 2012

Dia de Luiz Vaz de Camões

Luiz Vaz de Camões, quadro, pintura, José Malhoa
Camões, quadro de José Malhoa




O tempo acaba o ano, o mês e a hora

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.



quinta-feira, 7 de junho de 2012

Fernando Pessoa era gay?

Fernando Pessoa em flagrante delitro
Fernando Pessoa em flagrante delitro

Ainda não li a biografia que tanta discussão tem causado, Fernando Pessoa: uma quase-autobiografia; e se a vou ler, assim o espero, também não será por causa da polémica. No entanto, não quero deixar passar esta polémica sem deitar um pouco mais de lenha para a fogueira, nem que seja apenas um cavaco. 

Teresa Rita Lopes faz-se passar por Álvaro de Campos. É engraçado, pronto, mas é um exagero. Tantos anos a estudar a Pessoa e a Obra que lhe deu para isto. José Paulo Cavalcanti Filho, responde não respondendo. Afinal, há ou não há erros de palmatória na biografia? Não me interessa saber quantos prémios recebeu a obra, nem quantos exemplares foram vendidos. Ou há erros, ou não há. Teresa Rita Lopes volta a atacar, depois de uma defesa que não foi defesa nenhuma, no jornal Público.

Teresa Rita Lopes, dizer que nunca ninguém viu Fernando Pessoa bêbado é o mesmo que dizer que o viam frequentemente depois de ter bebido demais. Todos nós sabemos que foi isso que lhe destruiu o fígado. Teresa Rita Lopes insurge-se quando na dita biografia são usados versos da Tabacaria para reconstruir a vida do biografado. Para logo a seguir afirmar, pois o dizia Álvaro de Campos num poema, que a mãe do poeta era religiosa, pois fala Campos da infância em que rezava.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Vampiro de Curitiba. Dalton Trevisan. Amigos. Livros.

Dalton Trevisan, A Guerra Conjugal, Cemitério de Elefantes, Em Busca de Curitiba Perdida, O Vampiro de Curitiba

Bom amigo - perdoem-me a redundância - não seria amigo se não fosse bom amigo; mau amigo é coisa que não existe, como não existe falso amigo; amigo é sempre bom ou não o é - trouxe-me do Brasil as obras fotografadas, de Dalton Trevisan. Amigo é como anjo (tenho que me deixar destas metáforas proto-religiosas), aparece nas nossas vidas quando menos esperamos, vindo não sabemos de onde, e o único temor é o dia em que partirá, pois amigo também é como o clássico O Principezinho... Além dos fotografados também me chegaram Microcosmos, de Claudio Magris, A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, e amor é prosa sexo é poesia, crónicas de Arnaldo Jabor.

Obrigado!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Quando eu morrer...

Estudo para Monello, Vincenzo Gemito, Desenho, Rapaz
Estudo para Monello, de Vincenzo Gemito

Quando eu morrer
talvez recordes
com saudades
momentos que passámos
juntos.

Não merecem
o remorso
uma lágrima
um suspiro
no canto escondido do jardim
onde regressávamos
ao fim da tarde.

Quando eu morrer
não penses
no que te levou
uma tarde inexplicável
a nunca mais regressar.

Não tínhamos
combinado nada,
era a imprevisibilidade
de cada encontro
que tínhamos como certo
que nos unia num constante
sobressalto.

Sei
que de vez em quando
ao fim da tarde
suspiras;
talvez te questiones
se ainda te espero.

Quando eu morrer
verás;
nenhuma lágrima,
nenhuma dor
responderá
às tuas inquietações.

O remorso,
a saudade
não trazem de volta
aquela tarde. Algum dia
teria que ser.

Nos dias quentes
de Julho ninguém espera
o frio glacial
nem a neve.

De vez em quando
acontece:
gelam
os corações.



domingo, 3 de junho de 2012

A história de Pedro e João. A história da infância de dois meninos, devastada pelo preconceito, pela homofobia...



Este post do meu amigo João Roque fez-me lembrar da história de Pedro e João que li há tempos, no site da Revista Época, e que agora deixo aqui no blog (integralmente), para quem quiser ler:

Da infância, somos todos sobreviventes. Alguns mais do que outros. Esta é a história de um homem em busca de compreender a si mesmo. E de tentar, como adulto, ser diferente do menino pelo poder da narrativa. Esta história é contada aqui porque foi a nossa ignorância – a minha e também a sua – que destroçou a vida dessas duas crianças. E tem destroçado – às vezes em brutal literalidade, com tiros e pancadas – a vida de muitos – demais.

Antes, a história de como nos conhecemos. Ele me enviou o primeiro email no início de dezembro. Um amigo dele acabara de ser assassinado por homofóbicos, e ele tinha se deparado com uma campanha na internet que arregimentava pessoas a se unirem para executar homossexuais. Ele tinha medo de sair de casa. Estava assustado. E também com raiva. Pedia que eu denunciasse a campanha nesta coluna.

Respondi que escrever sobre esse tipo de manifestação era amplificar uma voz de ódio. Afinal, o sonho de quem divulga algo na internet é ser acessado, replicado, comentado, seguido, citado. Em vez disso, propus a ele que me contasse a sua história para – talvez – publicá-la aqui. Contar uma história que nos aproxime é a melhor resposta que podemos dar a quem usa as palavras para aumentar as distâncias.

Desde então, iniciamos uma correspondência. Chequei a sua identidade, mas respeitei sua decisão de ocultar seu nome. Nessa narrativa real, vamos chamá-lo de Pedro. Filho único de uma família de classe média do interior de Minas, Pedro tem 28 anos, é engenheiro ambiental e hoje vive sozinho em Goiânia. Um brasileiro como tantos outros, que trabalha duro e paga seus impostos. Todo ano ele participa da parada gay, mas não é o que se poderia chamar de um militante do movimento. Em Goiânia, assume sua homossexualidade em todos os espaços – e também no trabalho. Mas preferiu se afastar da família a contar que era gay. Neste Natal, como veremos mais adiante, ele fez um pequeno grande gesto.

Aos poucos, ao longo da nossa troca de cartas virtuais, percebi que não se tratava apenas da história de Pedro. Mas da história de Pedro e de João. Quando era criança, o melhor amigo de Pedro era João. E era João quem não conseguia esconder dos colegas de escola que era gay. Pedro posicionou-se ao lado dos mais “fortes”, como tantos de nós a vida toda, e mais ainda na infância. Alinhou-se ao lado dos pequenos machos quando eles tornaram a vida de João um inferno humano. Tão humanamente infernal que ele acabou mudando de cidade no início do ensino médio. Como acontece ainda hoje em muitas escolas, nem professores, nem pais, nem colegas, ninguém fez gesto algum na direção de João. Todos permitiram, por ação ou omissão, que João fosse agredido, acuado, encurralado e, por fim, exilado.

Essa memória assombra Pedro até hoje. Como a maioria de nós, ele queria ter sido mais forte na infância. Não mais “forte” como os pequenos machos, tão atrapalhados com sua sexualidade que precisavam “denunciar” a do outro. Pedro queria ter sido tão forte quanto João, que ousava ser. Se tivessem sido os dois, talvez pudessem ter resistido mais. Mas, por muito tempo, Pedro mal pôde consigo mesmo. E então, quando ele já tinha sua própria vida adulta e independente, um de seus melhores amigos foi assassinado porque era. Gay. E Pedro, de novo, sentiu-se muito impotente.

Contar sua história talvez seja a forma encontrada por Pedro para inverter o curso dessa memória dentro de si. Pronunciar o que virou silêncio sem ser – e por assim ter sido tanto o feriu. A ele e a João, antes que ambos pudessem se defender. Quando pergunto sobre esse círculo que se fecha, Pedro escreve: “Acho que vai me incomodar pelo resto da vida”.

É espantosa a quantidade de dor que pode caber numa vida apenas por causa da ignorância. Da nossa ignorância. A história de Pedro – e também a história de Pedro e de João – é assim.

O começo: ou como Pedro expôs João para que não o descobrissem.

sábado, 2 de junho de 2012

Metamorphose - desenho de M. C. Escher

Metamorphose, M. C. Escher, Metamorfose, Desenho
Metamorphose - Desenho de M. C. Escher

Não se deve confiar em ninguém.

Epígrafe do romance Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.

Fernando Pessoa, na carta a Adolfo Casais Monteiro, sobre a génese dos heterónimos.

Desde miúdo que minto como o diabo. Ninguém deve acreditar em mim.

J. Rentes de Carvalho, em entrevista a Maria Ramos Silva, jornal i 13 de Abril de 2011.