quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

«A amizade é uma espécie de amor que nunca morre.»*

Samuel Johnson and James Boswell, James Boswell, Samuel Johnson


Descobri hoje a maravilha que é ter uma máquina de lavar louça, e assim ganhei tempo para tomar banho** e começar a folhear Life of Johnson, biografia de Samuel Johnson escrita pelo seu amigo James Boswell. A melhor biografia jamais escrita em inglês, de acordo com a opinião de Harold Bloom, opinião que traduzida de bloomiano para português quer dizer que é a melhor biografia jamais escrita. "Boswell is the first of biographers. He had no second." Afirma Thomas Babington Macaulay, conforme escrito na contracapa do livro com mais de 1500 páginas - enviado por amigo que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente - que fui levantar ontem à La Poste.

Diabo! Como é que se agradece isto? Obrigado.

*Mario Quintana, em Porta Giratória (fonte). Porque a biografia também é sobre a amizade; porque eu gosto muito desta frase lamechas, q.b.; porque a amizade é algo que me dói no fundo ferido da alma - porém não é o lugar nem a hora de tabelar a palavra amizade pela bitola do dejecto humano a que chamo melhor amigo.

**Tenho pena que os meus amigos não entendam o non-sense. Nunca leram Alice nem sabem quem seja Boris Vian. Pedir-lhes que conheçam Edward Lear talvez já fosse um pouco demais, mas ao menos Vian, ou Lewis Carroll...

Adenda. Harold Bloom, no capítulo 8 - Dr. Samuel Johnson, o Crítico Canónico - de O Cânone Ocidental:


Nenhuma elegia do Cânone Ocidental estaria completa sem uma apreciação do crítico devidamente canónico, o Dr. Samuel Johnson, inigualado por nenhum outro crítico de qualquer nação, antes ou depois dele.
 (...) Não há qualquer má-fé em ou acerca do Dr. Johnson, que era tão bom quanto grande, embora também imoderadamente (e reconfortantemente) estranho no mais alto grau. Com isto pretendo referir-me a mais do que à sua invulgar e excêntrica (se bem que magnífica) personalidade, tal como ela nos é descrita naquela que é a melhor de todas as biografias literárias: Life of Johnson [«A Vida de Johnson»] da autoria de James Boswell. (pp. 189-190)

Todos os críticos, grandes e pequenos, cometem por vezes erros, e nem mesmo o Dr. Johnson era infalível. «Tristam Shandy não sobreviveu» é a mais infeliz de todas as declarações johnsonianas, mas há também outras, como o elogio que fez de uma passagem de poesia em A Noiva de Luto [Mourning Bride] de Congreve como sendo superior ao que quer que fosse em Shakespeare. (p. 190)

Uma das pequenas obras primas de Johnson é o ensaio intitulado «Na Morte de Um Amigo», publicado em The Idler 41. Está datado de 27 de Janeiro de 1759, algumas semanas apenas depois da morte de mãe. Johnson, um cristão, fala da esperança de reunião, mas o tom e o pathos sombrio da sua escrita mostram uma aceitação tão completa do princípio de realidade, do familiarizar-se com a necessidade de morrer, quanto aquela que mais naturalmente se espera encontrar no céptico Montaigne e em Freud, para quem a religião era uma ilusão. Acerca da psicologia de se ser um sobrevivente, Johnson dificilmente pode ser ultrapassado:

Estas são as calamidades através das quais a Providência gradualmente nos afasta do amor pela vida. Outros males pode a fortitude repelir ou a esperança suavizar, mas a privação irreparável nada deixa para se fazer uso da determinação ou para adular as expectativas. Os mortos não podem voltar, e tudo o que nos fica outra coisa não é senão tristeza e dor. (p. 196)

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