segunda-feira, 26 de novembro de 2012

rascunhos encontrados num caderno abandonado*

Solidão, Vazio


houve um momento. um momento em que ainda podias parar. um segundo em que já é tarde demais. um instante em que podias. depois é tarde demais. houve um momento em que todos poderíamos ter sido. depois morremos. um instante em que tínhamos. depois perdemos. um sonho. adormecemos. acordámos. demos uma volta na cama. um movimento brusco. um salto. um sobressalto. uma dor. um aperto no peito. uma lágrima. onde poderíamos ter ido. houve um momento. um instante em que poderíamos ter sido tudo. depois acordámos. nascemos. e a vida é tudo o que nos resta.


à noite bebemos
às escondidas
bebidas que recusámos
aos amigos,
como se num trago
engolíssemos
a angústia que ocultamos.

mas o corpo cansado
não faz a digestão.
o álcool penetra no sangue
e no espírito amargura.

Pior que não esperar nada da vida, é já não querer nada da vida. Ter perdido todos os sonhos, objectivos, e metas. E ver os dias passar. Viver sem objectivos é navegar pela vida num barco à deriva. Sempre pronto a entrar em qualquer porto, sempre pronto a atracar em qualquer cais. Onde que que vá parar - sempre a vontade de partir, sempre o medo de não ficar.

Não, não esqueças nunca
Que num único momento
A vida, a morte, o amor
Começa. Uma lembrança
Que fica para sempre.
Os amigos que ficaram,
Os que partiram, o amor
Que esperámos. A saudade,
Aquele dia que lembramos,
Ainda. Quando chega o sono
Adormecemos nos braços
Que ainda sentimos quando
Pensamos naquele instante.

Garatujo a exortação que a seguir se perfilha, como forma de respingo ao seu contacto telefónico. Conjecturo que ela lhe permita uma maior e adequada compreensão do diálogo que entabulámos; é na base deste pressuposto que lhe remeto a missiva que sobrevem diante de si.
Diversos são os tópicos que almejo tocar, se a lucidez mental mo permitir; mas esses tópicos são turvos; e parca e pardacenta é a minha clareza de espírito, num momento em que atravesso um período pessoal, social e académico conturbado. Conturbados são os tempos, a História; e aos solavancos avança a Humanidade, sempre a tropeçar, mas ainda assim com uma réstia de forças para se levantar. Eu sou uma parte mais fraca desse todo cósmico. A minha existência caminha de rastos o seu percurso, nesta estrada a que chamamos “vida”. Ainda assim, tentarei levar o mais distante e clara possível esta epístola.
Deste modo, em primeiro lugar, quanto à questão “o que fomos?”, se amigos se algo mais menos se ao lado se verdade se ilusão se engano se fingimento se algo de belo ou aberrante... isso agora não tem mais importância. Vivo com os pés sob aquilo que hoje é presente: e o presente, aquilo que existe, é duas pessoas que pensam ter-se conhecido que seguiram os seus caminhos que estão distantes e que não se voltarão a ver... Da minha parte, sei bem o que fomos; soube-o ontem sei-o hoje sabê-lo-ei amanhã soube-o sempre: sei exactamente o que fomos, mas como já disse, isso não tem mais relevância!


Nós devíamos estar juntos, senão na mesma cama, no mesmo quarto; senão no mesmo quarto, na mesma casa; senão na mesma casa, na mesma vida. Porém a vida separou-nos; e nós nada fizemos para a contrariar. Agora, dizem que as drogas te destruíram a vida; dizem que me destruo com álcool; todavia, desconhecem o motivo que nos levou à dependência, ao olhar agressivo, às palavras duras e agrestes. Esse sim, foi o motivo da nossa destruição. Não aquela que hoje se nota no nosso corpo, no nosso andar, no vagar com que carregamos os dias, mas aquela que antes arrasou a frágil substância de que é feita a alma.


Há anos que sinto que vivo uma vida que não é a minha; sou um estranho dentro do meu corpo; sou um estranho em mim mesmo. Preferia ter morrido naquela tarde... Este que continua a habitar-me é um moribundo sem apetite, que mal consegue comer - que se arrasta através dos dias - que tem problemas de saúde - física, emocional, e psicológica - sim, apenas em consequência dessa tarde, desse segundo, desse momento! Sim, preferia ter morrido! Não te teria feito qualquer diferença - e eu não tinha passado por isto.
Sinto que entrei no palco errado, onde decorre uma narrativa completamente diferente da minha! Não sei o meu espaço, a meu papel, as minhas entradas e saídas! Estou acossado contra a parede - e a cortina final teima em nunca mais descer!

esperei-te mesmo quando
sabia que não vinhas
que nunca voltarias
esperei-te todos os dias
mesmo quando sabia
que esse dia não chegaria
que essa hora ansiada
era sonho feito de nada

Só há uma coisa pior que despedires-te de alguém que sabes que nunca mais vais voltar a ver; é despedires-te de alguém que não sabes se algum dia vais voltar a ver...


Transpões o portão verde de ferro, e eu acordo. A tua voz ecoa na atmosfera seca de Julho, Se não ficares aí nunca mais nos voltamos a ver. As tuas palavras ficam a badalar no meu cérebro. E eu vou-me embora, e acordo, acordo suado, com o presságio de que te vou perder. Há onze** anos que partiste, e eu ainda acordo com medo que vás partir. Porque é que me assusta tanto a ideia de que vai acontecer algo que já aconteceu? Porque é que me assusta tanto a ideia que tu te vais embora para sempre, se tu já foste embora para sempre há onze anos?
Dentro de mim estarás a partir até que eu parta. Porque dentro de mim vive um pedaço de ti, que eu nunca deixei partir. Sei que nunca mais te verei, sei que partiste e nunca mais voltarás, mas dentro de mim ficaste para sempre. Dentro de mim ficou um pedaço de ti que todos os dias apressa a minha morte: é aquilo que ainda me mantém vivo.

às vezes, acordo sobressaltado
sempre com a mesma inquietação
sonho que partiste, angustiado
acordo quando o tu me olhas
pela última vez, um olhar
inexpressivo, uma expressão
que nada me diz, nada transmite
o teu silêncio, o teu olhar absorto,
a pacatez em volta do teu rosto
fazem tremer o meu coração,
o meu corpo ergue-se, corre
ao teu encontro. Um impulso
ávido, bate contra o meu peito
para te agarrar. Estico a mão,
tacteio. O leito está, sempre,
vazio. Respiro profundamente.
Não sei, nunca, se partiste
ou se nunca lá estiveste...


*O caderno abandonado é a minha alma, e os rascunhos são aquilo que nunca te pude dizer. 
**Quinze.

Imagem DAQUI. Todos os rascunhos AQUI.

6 comentários :

  1. Este rascunho é tudo menos isso.Adorei ler este desfolhar de alma.

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  2. Que linda forma de escrever, porém triste... Tem que achar motivos para a alegria, se não assim não vai lá.
    Beijos

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