sábado, 3 de novembro de 2012

Lançamento de Mazagran - recordações e outras fantasias, de J.Rentes de Carvalho




Sobre Francisco José Viegas: «Há pouco mandou um sms a dizer que ia para casa... eu acho que faz bem... não pertencia ali... Quer dizer... Não tinha cara, nem feitio, nem cabeça para secretário de estado...»  

Mazagran - recordações e outras fantasias é o oitavo livro de J. Rentes de Carvalho lançado pela Quetzal em Portugal, e não o sétimo como é dito na notícia, 20 anos após a primeira edição na Holanda. Continua a faltar a reedição, por exemplo, de Montedor e A Sétima Onda, e - entre outros inéditos - o inacreditavelmente inédito em Português, Portugal, a Flor e a Foice. Nem percebo porque é que a Quetzal não o edita logo - nos tempos que correm só podia ser um sucesso, já que o dinheiro mina esta merda toda. Mas (ia escrever incrivelmente, mas não é nada incrível, só quem não conhece a pantanosa sacristia que é Portugal é que pode pensar que é incrível - o inacreditável em forma de advérbio de modo ali atrás é incorrecto, que não é nada inacreditável), mas Portugal, a Flor e a Foice continua por editar, e o silêncio em volta da sua existência é ensurdecedor e confrangedor. E, no entanto (ou portanto) continuam a aparecer génios a cada esquina dessa paróquia a caminho de ser protectorado...

Monstruoso concubinato o de certos escritores portugueses com a Censura, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril, mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.
J. Rentes de Carvalho em Portugal, a Flor e a Foice. Vamos lá Quetzal, não custa nada...

Atente-se nas palavras do próprio J. Rentes de Carvalho:

Se me enterneci momentaneamente com a Revolução dos Cravos, nem antes nem depois dela tive grande fé nas possibilidades de verdadeira mudança. Muita leitura de História e algum conhecimento da sociedade em que nasci e me criei, isso acrescentado pela visão que me dava o viver fora dela, já me poria de pé atrás. Depois, o contacto com as figuras da Oposição que andavam por Paris nos anos 60, as suas atitudes e planos, teorias e programas, não eram de molde a que os julgasse capazes de "salvar" o país. Fora isso, uma revolução tendo à cabeça um general fascista, apoiado pela CUF, também prometia pouco. E as cumplicidades levantinas – sim, levantinas – em que se embrulhavam gentes das mais variadas crenças e interesses, levantava em mim a suspeita de que a nova ordem, mais dirigida de fora do país do que nascida nele, não iria mais longe do que o preciso para calar as bocas do mundo e as exigências da Europa.
De modo que, em vez de me deixar levar pelos cantos de sereia, meti-me a escrever um livro – Portugal, a Flor e a Foice - que, apenas editado em Neerlandês em Novembro de 1975, me sairia caro em vários aspectos, ensinando-me que ninguém se deve arriscar a ser profeta na sua terra, como é de pouca conveniência chamar às coisas pelo seu nome ou dizer em voz alta o que ninguém quer ouvir.
No começo dos anos 80 um conhecido editor português pediu-me para ler o manuscrito, e logo de seguida foi franco:
- Editar isto? Nem pensar! Agora não, daqui a trinta anos também não!
Trinta anos passaram e provavelmente continuará inédito, mas que isso não obste. (DAQUI)


SENHORES DA QUETZAL, DAQUI DO MEU BLOG VENHO DIZER-VOS QUE SE NÃO PUBLICAM PORTUGAL, A FLOR E A FOICE URGENTEMENTE - REPITO: UR-GEN-TE-MEN-TE - ENTÃO NÃO PASSAM DE UNS VALENTES COBARDES (REPARE-SE NA FIGURA DE ESTILO), UNS MARIQUINHAS-PÉ-DE-SALSA. E PODEM CRER QUE PERDEM UM CLIENTE, POIS FAREI BOICOTE AOS LIVROS QUE OS SENHORES EDITAREM!

8 comentários :

  1. Sabes que foi a primeira coisa que procurei à chegada a Portugal? Este novo livro? Ainda ao passar pela sala de embarque do aeroporto a caminho da recolha de bagagens? Lá não havia, pelo que só lhe deitei os gadunhos à segunda tentativa. Lido de uma assentada no dia seguinte.

    Mas é curioso, quase que mais gosto de ler ou ouvir os outros em apologia (como esta tua) do autor e da obra, que consiga eu fazer-lhe apologia. Aquele homem e a sua escrita é um fascínio.

    Durante anos habituei-me a abrir primeiramente a cada dia a página do Tempo Contado. E desde que ele o suspendeu não há dia que não sinta falta daquilo. Que era mais que leitura. Era o convívio diário com um indivíduo excepcional com quem não sentimos separação de gerações, de tempo, de lugar ou de extracto sócio-económico. Os livros e o publicado no blog permitem essa coisa mágica que é - mais do que a fruição estética - a presença de um homem bom. Pelos visto não sou o único a ter essa opinião...

    Um abraço.

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    1. Pode ser que volte em Dezembro, como disse no último post. Assim que chegar a Portugal também irei ver de um exemplar! Mas o que eu queria ler mesmo era este «Portugal, a Flor e a Foice»... Abraço

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  2. Ainda não iniciei a leitura do livro que cá tenho para ler, mas está quase...

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  3. Nunca tinha lido nada de Rentes de Carvalho. Tenho andado a ler as belas crónicas desse Mazagran e estou a gostar bastante

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    1. Quase nunca me permito dar conselhos a ninguém, pois como sói dizer-se, os conselhos se fossem bons não se davam, vendiam-se. Mas neste caso vou permitir-me aconselhar a leitura de toda a obra de Rentes de Carvalho.

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  4. Obrigada, gosto muito do que leio por aqui, e adoro J. Rentes de Carvalho, um dos meus autores preferidos. Faz-me falta o blog Tempo Contado, vou repetindo a leitura, :) , já consegui comprar 2 livros,
    ando a contar os tostões para ver se consigo comprar mais um, vamos
    ver ...
    A Biblioteca que habitualmente frequento não tem um único livro deste
    autor, o que é uma pena, eu perco-me no tempo, com um livro nos joelhos
    de J. Rentes de Carvalho.
    Obrigada André, obrigada pelo seu carinho, e por tudo o que vou aprendendo
    consigo.
    Felicidades, muitas!!
    Beijinho
    Ilda Pontes

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    1. Olá Ilda Pontes,

      Pode ser que ele volte em breve a escrever no blog. Dezembro está a chegar... o J. Rentes de Carvalho é um excelente escritor, e uma excelente pessoa. Só num país de medíocres é que é possível que aconteça isto de só agora está a ser publicado como deve ser - e mesmo assim há títulos que continuam «censurados»... Interrogo-me se chegámos a ter verdadeiramente Democracia em Portugal. Infelizmente sou levado a concluir que não. Obrigado pelo comentário. Felicidades, e Beijinhos. E que melhores dias venham, em que não seja preciso contar trocos para comprar um livro. Infelizmente eu sei muito bem o que é isso. Não neste momento, que agora estou na Suiça - e a Suiça ainda é um país à parte; para o bem e para o mal. Mas um país que eu adoro.

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