terça-feira, 20 de novembro de 2012

10 livros em que tenho pensado...

As Vinhas da Ira, John Steinbeck, John Ford
As Vinhas de Ira, filme de John Ford, adptação do romance homónimo de John Steinbeck



Olá André,

Gostava muito de deixar um comentário no teu blog. Mas como não tenho nenhuma daquelas identidades que lá estão (só tenho um blog no sapo), deixo aqui:

É sobre o post do Camus (A Queda) [sic]

Aprecio que escrevas sobre este tema, tragas estas preocupações e apresentes uma lista de livros notáveis. Deixa-me só fazer uma pequeno comentário:
Assumindo que quando dizes "a Europa" te estás a referir ao processo de integração europeia, estranho que a tua lista apresente livros que falam daquilo que levou à sua criação... Ou seja, As Benevolentes ou o Diário de Anne Frank são livros sobre o que aconteceu antes. Aquilo que levou a que a UE fosse não só necessária como possível.
O que é incrível é que ela tenha conseguido impôr-se e tenha sobrevivido. Agora está numa encruzilhada, e já esteve em muitas. Vamos ver como se sairá desta.
Quanto a livros como o Ensaio sobre a Cegueira, ou o Fome, ou A Queda, são sobre a humanidade, em qualquer sítio, em qualquer tempo. Estranho vê-los associados a uma explicação de crise europeia. Porque eles explicariam qualquer outra circunstância em que os homens estivessem com problemas. Ou seja, é verdade que explicam isso. Mas explicam muito mais do que isso. Não mostram porque é que a Europa (parece) estar a falhar. Explicam é porque é que tudo pode falhar.
Por exemplo, podias usá-los para explicar o terrível destino que tiveram os países que ficaram de fora do processo de integração (tanto os que já entraram como os que ainda não entraram).

Obrigado,



Pedro, antes de mais, muito obrigado pelo teu comentário. Publico aqui o teu comentário, enviado por e-mail, para poder esclarecer outras pessoas que possam ter a mesma opinião. Quando falo daqueles 10 livros não digo que eles expliquem a actual crise europeia. Não explicam. Julgo que nem há livros que a expliquem, nem livros de Economia, nem livros de Ciência Política... Talvez algum livro de algum Tudólogo, ou de algum chico-esperto a querer ganhar umas coroas, quer dizer, uns euros... Digo que penso neles quando penso na situação em que estamos, e para onde pudemos ou não continuar a caminhar. Penso neles, porque me fazem lembrar daquilo que o ser humano é capaz (um parêntesis para perguntar isto: como é que o mais inteligente dos seres vivos que habita este planeta pode ser tão estúpido?). Penso neles enquanto exemplo das relações intra e interpessoais que se estabelecem entre as pessoas quando colocadas perante situações extremas e adversas. Não importa onde. Não importa porquê. Não importa, porque não são essas as questões. A questão é a situação cada vez mais extrema e adversa para que são atiradas milhares de pessoas todos os dias, na Europa...

...O que importa para aqui é a Europa, pois é da Europa que falamos. A Europa, um farol de civilização, a Europa, um porto de barbaridades. A Europa que foi capaz da I.ª e II.ª Guerra Mundial, pode ser capaz de muito pior. E uma III.ª será muito pior! Vejamos, por exemplo, o primeiro livro que referes, aquele cuja capa escolhi para imagem do post em questão: a acção de A Peste, de Albert Camus, decorre em Oran, na Argélia. É um romance que coloca o Homem perante uma situação-limite. Subitamente, sem explicação, sem razão alguma, de forma trágica, pior, de forma arbitrária, os habitante de Oran estão numa cidade infestada, lado-a-lado com a morte. O Homem colocado perante a morte, não a morte natural, mas uma morte gratuita, uma morte caprichosa e cruel, que vai dizimando as pessoas lenta e dolorosamente. Como é que as pessoas reagem perante uma situação destas? Como é que isso afecta a relação do Homem consigo mesmo e com o Outro?

O que me interessa nestes livros, e a razão porque penso neles, são as metáforas, as alegorias, as imagens, e as pré-visões que nos oferecem - contudo o ser humano é tão diverso que pode tudo acontecer (se acontecer) diferentemente. Noutros casos, como As Vinhas de Ira, As Benevolentes, O Diário de Anne Frank, porque nos dão um retrato, um fresco, daquilo que aconteceu - e se pode repetir. No caso de As Vinhas da Ira, é um retrato daquilo que aconteceu durante a Grande Depressão, após a crise financeira de 1929, nos Estados Unidos da América. 
Uma Conspiração de Estúpidos é sobre um jovem (?) altamente qualificado que no entanto não arranja trabalho (faz lembrar a Europa, não faz?) - embora as razões de o não ter não sejam exactamente as mesmas. Fome é sobre as agruras, amarguras, e peripécias de um escritor a tentar sobreviver sem um trabalho, uma fonte de rendimento, apenas alguns biscates - trabalho precário, dizem - numa cidade fria, fria em todos os sentidos, fria e insensível. O Processo é sobre a arbitrariedade e injustiça de uma sociedade burocrática. Está na lei. Se não está, escreve-se. 1984 é sobre um sociedade totalitária que... Tanta coisa que está lá que está a acontecer em Democracias (?): manipulação da comunicação social, desinformação, o Grande Irmão que tudo vê e tudo controla... 

Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa... o Coelho nem sequer foi roubado, mas talvez não devesse estar para aqui a contar isto, pode sempre haver alguém que ainda não leu e quer ler e agora já não vai ter esta surpresa... É apenas um livro pelo qual tenho muito carinho, que narra de forma muito ligeira (é um livro destinado a um público jovem) as peripécias de uma fuga da Alemanha Nazi...

Espero ter esclarecido o equívoco.

1 comentário :

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