sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina, 1943-2012

Manuel António Pina, Gato


TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina, morreu esta tarde, com 68 anos, no Hospital de Santo António, no Porto, onde estava internado. Obrigado pelas tuas crónicas, pelos teus poemas, pelas tuas histórias. Obrigado pelas palavras que nos deixaste. Até Sempre.

4 comentários :

  1. Fiquei muito triste...gostava dele, não apenas pela poesia mas pelo seu modo de ser gente.
    ~CC~

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  2. Com tristeza, junto-me a si e a todos os que amavam as palavras puras de Manuel António Pina.

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  3. Uma das coisas que me seduzia nele era a sua humildade e a forma como sempre procurou fugir às luzes da ribalta.

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