segunda-feira, 30 de julho de 2012

«Adrian morreu. Matou-se.» «Achas que foi por ser demasiado inteligente?»

Fallen Angel, Depressed Angel, Angel Depression, Anjo Deprimido, Depressão






«É melhor abrires primeiro essas duas.»
A de cima continha uma breve nota de Alex. «Caro Tony», dizia, «Adrian morreu. Matou-se. Telefonei à tua mãe, que diz que não sabe onde tu estás. Alex.»
«Merda», disse eu, proferindo pela primeira vez um palavrão diante dos meus pais.
«Lamento, pá». O comentário do meu pai não me pareceu muito à altura. Olhei-o e surpreendi-me a pensar se a calvície era hereditária - se costumava ser hereditária.
Após uma daquelas pausas colectivas que todas as famílias fazem, cada uma à sua maneira, a minha mãe perguntou: «Achas que foi por ser demasiado inteligente?»
«Não tenho a estatística que liga a inteligência ao suicídio», respondi.
«Sim, Tony, mas tu sabes o que eu quero dizer.»
«Não, de facto não sei.»
«Então põe a coisa assim: tu és um rapaz inteligente, mas não tão inteligente ao ponto de fazer uma coisa dessas.»
Olhei-a fixamente, sem pensar. Julgando-se encorajada, prosseguiu:
«Quando alguém é muito inteligente, acho que há algo que pode transtorná-lo, se se descuidar.»


Julian Barnes, em «O Sentido do Fim»

Ultimamente todos os livros que leio me parecem demasiado fraquinhos; interrogo-me como é que este «O Sentido do Fim» ganhou o Man Booker Prize 2011, da mesma maneira que continuo a interrogar-me como é que «O Teu Rosto Será o Último», de João Ricardo Pedro, ganhou o Prémio Leya. É verdade que este «O Sentido do Fim» tem alguns parágrafos, algumas frases, de indescutível beleza. Mas e a história, e o conjunto, a obra final? 

(Ou então sou eu que ando num estado de espírito miserável... E para a alma com defeito não há medicamentos... quanto à parte do inteligente, não sei; quanto à parte do descuidar-se, sem dúvida... o mínimo descuido e fica a alma arruinada, sem hipótese de retorno, rendenção, ou salvação...

Ou, socorrendo-me das palavras de Álvaro de Campos:

Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Versos de «A Passagem das Horas».)

4 comentários :

  1. Dos livros que mais prazer me deu este ano , conforme referi aqui:
    http://5sentidos-cs.blogspot.pt/2011/12/o-sentido-do-fim-de-julian-barnes.html

    Bom Verão :)

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    1. Como disse no post, para mim, tem momentos muitos bons, vai em crescendo até à recepção das 500 libras, mas depois perde-se... sinceramente (para mim) a história a partir desse momento perde todo o interesse...

      Bom Verão (o meu está a acabar...) Bjs.

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  2. André,um conselho: volte a ler daqui a 20 anos.Abraço.

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    1. Quem sabe... Se viver esses anos todos... É que parecem-me tantos... (Mas há alguma coisa que me escapa no livro?). Abc.

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