sábado, 2 de junho de 2012

Metamorphose - desenho de M. C. Escher

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Metamorphose - Desenho de M. C. Escher

Não se deve confiar em ninguém.

Epígrafe do romance Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.

Fernando Pessoa, na carta a Adolfo Casais Monteiro, sobre a génese dos heterónimos.

Desde miúdo que minto como o diabo. Ninguém deve acreditar em mim.

J. Rentes de Carvalho, em entrevista a Maria Ramos Silva, jornal i 13 de Abril de 2011.



A imagem acima intitula-se Metamorphose, e é um desenho de M. C. Escher, o preferido dos meus artistas dilectos (excluindo poetas e escritores). É um desenho enorme, pelo que aconselho a todos que por aqui passam que cliquem na imagem para o apreciar devidamente. Há anos que tenho um projecto de romance, há 15 anos praticamente, que talvez nunca seja concluído, que tem como sub-título «prisioneiros num desenho de M. C. Escher». Nunca devem levar um artista, nem que seja um artista falhado - como este que tem umas 500 páginas escritas, outras tantas destruídas, e outras tantas em falta - a sério. Porque mesmo quando dizemos rigorosamente a verdade, mentimos. Porque a realidade é sempre o mesmo e outra coisa qualquer. 

Agradeço as vossas palavras, a vossa gentileza, a vossa preocupação, manifestada através de comentários e e-mails / mensagens no facebook, a propósito do post anterior. E acreditem que mesmo sendo de mim que falo, não é de mim que falo. Quando me apanharem a dizer a verdade, a verdade verdadeira, a minha, a da vida, cruel e mesquinha, injusta e passageira, tão falsa e relativa como outra qualquer, acreditem: nesse dia estarei acabado. E como Mário de Sá-Carneiro terei tomado estricnina, ou como Ângelo de Lima, estarei internado num qualquer Rilhafoles. É improvável que faça como Yukio Mishima, mas nunca se sabe. Entretanto vou destruindo o fígado e os pulmões, como Fernando Pessoa, o meu preferido dos meus preferidos, enquanto assisto à Passagem das Horas


(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim, os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizésseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, ó meu subjectivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!)

Excerto de A Passagem das Horas, de Álvaro de Campos.

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