sexta-feira, 15 de junho de 2012

Anotação número 21

Três Amigos***


21.


As visitas dos amigos começaram a rarear. A casa outrora movimentada, nas tardes quentes de domingo, ganhava uma atmosfera desoladora de abandono. Por fim as visitas cessaram de todo:
– Também, não perco nada! – Afirmava o meu pai, na sua estranha forma de se lamentar. E alertava-me para a dureza da vida. – Nunca te esqueças que a amizade é um sinónimo de interesse e utilidade. – O meu pai tinha um dicionário muito seu; as palavras podiam significar o que ele quisesse. – Enquanto tiveres interesse para um tipo, ele pro-cura-te. Trata-te como se fosses um irmão; bajula-te se for preciso, sem escrúpulos para te dizer que te ama; e por vezes parece mesmo amar-te, mais que à própria família.
»No entanto, mal a utilidade que vê em ti cesse, ele desaparece da tua vida mais rápido que um diabo esfrega o olho.
»Por isso, ouve-me com atenção, a amizade é algo que não existe! Na vida ou somos frios e calculistas ou somos uns tristes; os tristes, como não têm mais nada que fazer, como não têm mais com que dar cor aos seus dias, perdem o tempo a cultivar a amizade.
»Tu aproveita-te dos tipos que conheceres, enquanto eles tiverem utilidade para ti... Mas fisga-te, ouviste-me?... Fisga-te o mais rápido que puderes, sem razões nem justificações, nem sequer desculpas... Fisga-te e mais nada. Não tens que dar justificações a ninguém, porque a vida é tua...
»Caso contrário, acabarão por te sugar. Chupam-te até ao tutano, e no fim fica apenas o vazio, a solidão e o abandono...
»De uma mulher pode-se gostar, ou até amar. A um amigo nunca! Uma mulher pode magoar-te, encontras outra que trate as tuas mágoas. Mas um amigo suga-te até ao tutano, deixa-te sem nada, sem recuperação possível...

Fazia uma pausa prolongada. Eu ficava sentado imóvel na cadeira, sem saber o que dizer ou pensar, baixava a cabeça, enterrando o queixo no peito, deixando entender que compreendera, ou até que concordava. Ele olhava para o vazio, com o olhar turvo que me intimidava. Parecia ponderar cada palavra que ia dizer a seguir, como se procurasse a fórmula perfeita e axiomática que resumisse de modo inequívoco o seu pensamento. Concluía vagaroso:
– A amizade é nefasta como a religião. É uma droga em que nos viciamos, que nos dá uma estranha sensação de conforto quando a tomamos, mas que, como todas as drogas, não passa de uma ilusão. Só quando a necessidade que temos delas é real e não um devaneio, é que percebemos que não existem como as concebemos, e que de nada nos valem... Nem as amizades, nem as religiões, nem as drogas... Uma perca de tempo!
Calava-se e voltava a afundar-se nas suas profundas meditações. Podiam decorrer longos dias sem que dissesse uma palavra. Passava por mim como se não me visse. Nunca me perguntou se estava bem, se tinha algum problema, necessidade ou desejo... Limitou-se a prover-me de dinheiro.
Julgo que acreditava que eu havia de sobreviver, e que a indiferença com que me tratava me faria forte e resistente, para que pudesse enfrentar a vida adulta sem constrangimentos pessoais. Porque, para ele, as feridas acabariam por sarar um dia. E não dava conta das suas próprias feridas, que em vez de sararem iam abrindo e sangrando cada vez mais.
Estes raros e longos monólogos foram o mais próximo de uma conversa com o meu pai e os únicos momentos em que senti o sabor de uma doce intimidade com ele. Aconteciam ao final da tarde, quando a luz oblíqua do crepúsculo perecia, deixando na sala uma penumbra envolvente, unindo-nos. A solenidade destes momentos era enquadrada pelas faixas coloridas do crepúsculo estendidas no horizonte, apregoando a vinda iminente da noite.
Apesar de não haver ressonância entre as suas ideias e os meus sentimentos, ouvia-o com atenção esmerada, sentado na ponta da cadeira. Buscava nas suas palavras a fragrância do amor, igual àquele que sentira quando ainda criança pequena me agarrava pela cintura e me sentava no seu colo, afagando os meus cabelos. Mas essas recordações pertenciam a uma realidade feérica, que não sabia se tinha acontecido ou se a sonhara. A realidade que sobrara era uma relação fria e distante entre duas pessoas que se desconheciam, eu sofri por isso e desejava que ele também sofresse, como sinal de uma réstia de amor por mim.


Anotação número 21 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.


***Desconheço quem seja o autor desta fotografia. Vasculhei a internet tentando encontrar autor e foto original, mas não encontrei nada. Pode ser que seja de um filme; não sei porquê, mas parece-me de um filme... Se alguém souber alguma coisa sobre ela, é favor informar-me. Há anos que tenho esta imagem numa pen onde vou guardando imagens sobre diversos temas. Sobre amizade, esta é a imagem que mais aprecio. Talvez porque me sub-conscientemente a associe a estas memórias pessoais, penso que seja isso, não vou auto-psicanalizar-me, nem me quero deitar em nenhum divã.   

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