segunda-feira, 21 de maio de 2012

we'll always have paris...

Moulin Rouge, Paris, We'll Always Have Paris
© Fotografia de André Benjamim


Nunca podes contar com quem te abandonou, porque quem te abandonou vai sempre voltar a abandonar-te; quem abandona, abandona-se antes de mais a si mesmo. Isto é verdade para o pai, a mãe, o amigo, o amor, a amante. Ser abandonado é das piores experiências porque um ser humano pode passar. Ser abandonado por pai, mãe, irmão, ou irmã, é tirarem-nos o conceito de família; ser abandonado por um amigo, é levarem-nos o conceito de amizade; ser abandonado por uma amante, é deixarem-nos sem o conceito de amor*. De alguém que nos morreu fica-nos sempre a certeza que nos amou; de alguém que nos abandonou, fica-nos sempre a dúvida - provavelmente nunca passou de uma ilusão, porém... há sempre o porém que nos rasga ao meio. Abandonar é um acto incompreensível e desprezível. Uma pessoa abandonada nunca consegue fazer o luto. Entra em negação, sente raiva, raramente começa um processo de negociação, e, quando começa, passa depressa para a fase da depressão - uma pessoa abandonada passa a maior parte do tempo na fase da depressão - mas da depressão volta à negação, não pode passar à aceitação - não pode passar porque sobra sempre aquela réstia de dúvida, aquele porém que nos rasga ao meio... Não podemos aceitar que perdemos quem não sabemos se perdemos, porque perdemos, quando perdemos... Abandonarem-nos é morrerem-nos sem contudo estarem mortos. E com isto somos nós que morremos...


(Os turistas, supostos viajantes na sua ideia, abandonam países. Trazem consigo um mapa, onde riscam lugares: neste já estive, este já fotografei, aquele já vi. Correm como ovelhas de um louco rebanho a assinalar locais. A foto com a Torre Eiffel em plano de fundo, a posse frente ao Moulin Rouge, a triunfal fotografia ao Arco do Triunfo, a rápida mirada à Catedral de Notre-Dame, a passagem pelos jardins e museu do Louvre, a ida apressada ao Sacré Coeur. Aos turistas, supostos viajantes no conceito que têm de si mesmos, mais valia procurarem imagens no google e transferi-las para o cartão de memória da máquina fotográfica: ficavam a conhecer o mesmo e ficava-lhes mais barato).

Felizmente, teremos sempre Paris!

*Ser abandonado por um país é arrancarem-nos as raízes, o conceito de pátria.





6 comentários :

  1. Muito interessante o teu encadear de situações entre o estar num país como turista ou estar lá por obrigação, como emigrante...

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    1. Não sei porquê - ou melhor, se calhar sei - mas pensava nisto enquanto andava pelas ruas de Paris. É que Paris deve-se visitar na companhia de pessoas especiais... E deu-me para pensar em pessoas que só devia esquecer...

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  2. Gostei muito deste post.
    E é verdadeiro o seu teor.
    deixa lá... sobra Paris!
    E essa... "é uma Festa"! :)

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    1. Tristemente verdadeiro... (Eu deixar deixo, já que não me sobra outra alternativa)... Enfim, festejemos!

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  3. Ainda que seja bem verdade...só o é até alguém nos amar de novo.
    A maior parte de nós ama e é amado mais do que uma vez na vida. Terá Paris e qualquer dia outra cidade para (en)cantar.
    ~CC~

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    1. Há sempre um certo sabor, um certo aroma, que se perde. Nunca será a mesma coisa - não no caso do «abandono»... Obrigado pelo comentário.

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