quarta-feira, 30 de maio de 2012

Silêncio. Os Melhores Amigos. Depressão.

Silêncio, Casa Velha, Casa Abandonada, Vazio



Haverá quem desconfie da veracidade do que lerá aqui, mas se tratará de um ingênuo, um alienado nefelibata, ou um dos incontáveis desavisados que não acreditam que o ser humano é irreparavelmente solitário, do nascimento à morte, convicção que a todo momento fragorosamente se prova insustentável, mas da qual todos parecem necessitar e se recusam a aceitar as irretorquíveis evidências em contrário. (...) a realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a que a maioria dá o nome de verossimilhança. Mas ocorre precisamente o oposto. Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou jornalistas, por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável para a vastidão dos desvalidos que povoa a Terra.

João Ubaldo Ribeiro, no romance Diário do Farol.


Posto estas palavras de João Ubaldo Ribeiro, que servem de aviso, vamos àquilo porque eu vim hoje aqui ao blog:


Às vezes pergunto-me se não haverá por aí alguém que queira ficar com a minha vida. Perguntei-me isto mesmo durante todo o dia, sem nenhum motivo em especial para que o fizesse, e sem encontrar qualquer resposta, como sempre.

Nos últimos meses tenho sentido um estranho silêncio dentro de mim - um silêncio que começou há anos a acumular-se, mas que só agora é total. Um silêncio dentro da alma que estilhaçada jaz no meu âmago. 

Passei os últimos 15 anos da minha vida a acumular silêncio dentro de mim até que um dia - só agora reparei que o silêncio é total: atento escuto em busca de algum ruído. Mas é improvável que algum barulho aconteça. Todos os pedaços daquilo que fui tombaram no chão daquilo que sou.

Podia deixar-me destas metáforas sem jeito e dizer de outra maneira: aos 16 anos pesava 74kg, hoje não passo dos 62kg. Um corpo sem alma [à falta de melhor palavra, à falta de melhor palavra...] abate-se a si mesmo, aos poucos. Morre lentamente...

Um dia destes um amigo disse-me, ao telefone, que agora estou distante de praticamente todos os amigos, que me queria confessar uma coisa; queria dizer-me que eu era o seu melhor amigo. Eu que nem de mim gosto, o melhor amigo de alguém. Mais um para a lista, pensei. O que o meu amigo não sabe é que eu tenho mesmo uma lista. Escritos numa página de um moleskine tenho os nomes completos de todas as pessoas que um dia me chamaram «melhor amigo». Dessa lista, quantos restam na minha vida? A partir daquele momento soube que a nossa amizade começara o seu trajecto descendente. Nenhum resta na minha vida, nem um desses amigos - e uma amiga, mas essa tinha olhos azuis, e ter-me dito que eu era o seu melhor amigo não foi uma confissão, foi apenas crueldade.

Melhores amigos são aqueles que nos ligam no dia de anos, mesmo podendo enviar um sms ou deixar uma mensagem no facebook. Melhores amigos são aqueles que, preocupados, nos telefonam quando há muito não damos notícias. E aqueles - quais anjos duma qualquer mitologia em que não acredito - que nem sequer conhecemos pessoalmente - que nos enviam livros de terras distantes - e que sem nos conhecermos cara a cara, parecem adivinhar-nos os gostos.

Começaram há muitos anos as minha ideações suicídas. Apesar disso apenas uma vez me tentei suicidar, utilizando para tal o ridículo expediente utilizado por tantos suicídas amadores por esse mundo fora: um punhado de aleatórios comprimidos que apenas me valeram valentes dores de cabeça e de estômago, e uma náusea que me saía por todos os poros do corpo. Depois deixei de pensar no suicídio - deixei de pensar no suicídio no dia em que tive a certeza que um dia me mataria. E então foi um alívio - que ironia maior me poderá acontecer, a mim, suicída arreigado, que morrer inesperadamente num qualquer acidente, a mim que morto estou já desde há tanto tempo, por dentro. 

Depressão é arrancar-se da alma um pedaço - escavar num terreno que é já por natureza um terreno sinuoso. É o amigo que morreu, a amiga que partiu, o amor que nos deixou, o sonhos que perdemos. Porque...

Amar é um verbo sem retorno.

24 comentários :

  1. Se do "humus" de tanto e longo silêncio brotaram as flores que são palavras tão belas, é porque todo esse silêncio valeu a pena.
    Eu acredito que sim.
    Conheço-te mal e bem há pouco tempo, mas daqui de longe digo, caso sirva de algum consolo (nestas alturas raramente serve, não é?):
    gosto de ti e do que escreves, da sensibilidade que transbordas André!
    Sei que é pouco, não te posso chamar melhor amigo, pois isso seria exagerar. Mas já tens algo de amigo para mim.
    Em palavras vindas de longe, em alma aberta ao mundo, sinto que és uma pessoa que não deambula ao acaso pela Vida, como tantas outras.E isso é um tesouro raro.Outros o descobrirão também.
    Um voto de muita coragem e de que te agarres ao que de belo e bom há no Mundo.Sabes como fazê-lo.
    E já estou a palrar demais, desculpa.
    Um beijinho
    Margarida

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    1. André, a vida não é necessariamente justa -- não é mesmo. Muitas vezes vais-te sentir sozinho, desamparado, longe de tudo e de todos, e vais pensar: eu dei tanto a algumas pessoas e não tenho qualquer retorno. Porquê? A resposta mais crua é, simplesmente: porque a vida pode ser assim. Mas, a vida pode mudar. Estás sempre a tempo de conhecer pessoas que gostem realmente de ti, que te apoiem, que te considerem especial, que sejam tuas amigas. A vida vale também por isso: pelas possibilidades. Continua a caminhar, segue em frente.

      Abraço,
      Carlos

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    2. Margarida Alegria, palra à vontade, estava a gostar muito do teu comentário. Todos temos a necessidade, de vez em quando, de alimentar o Ego, ampliar a auto-estima e o amor-próprio. Obrigado. Beijinhos.

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    3. Carlos, Continuarei sempre. É o que sempre tenho feito. Subscrevo todas as tuas palavras. Mas isto que escrevo - acredita - não sou eu. Talvez já tenha sido, num dado momento da minha vida... Escrever é outrarmo-nos (o Fernando Pessoa disse qualquer coisa do género). Ainda que fale sobre mim, é já sobre outro que falo, ao escrever... Penso que compreendes? Obrigado pelos teus comentários e preocupação. Um forte abraço.

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    4. Não só compreendo, como prefiro que assim seja. E sim: sempre em frente.

      Grande abraço.

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  2. Durante muitos e muitos anos amei tanto a vida que não conseguia mesmo compreender quem a queria deixar, não tinha possibilidade de o compreender. Até conhecer um momento mau em que esse silêncio e escuro de que fala tão bem entrou de rompante, também por via de um amor que afinal só existia no meu coração. Contudo, acredite que hoje vejo como tudo não passou de engano e recuperei toda a minha força e alegria. Quem nos deixou não pode valer assim tanto, a nossa vida inteira? Pelo que aqui leio vejo uma pessoa sensivel que merece amor e amizade sim. E se há quem lho diga, acredite, vá à luta. A amizade também tem que ser alimentada, muito mais pelos momentos que conseguimos encontrar para estar com as pessoas do que pelos sms e mails (mas esses têm o seu bocadinho de valor).
    Um abraço
    ~CC~

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    1. Obrigado, CCF. A amizade e o amor são lugares estranhos (como diz o lugar-comum); já desisti de os tentar compreender. Dedico-me a tentar descrevê-los, e mostrá-los. Expô-los. Talvez outros os compreendam... Quanto ao suicídio... Como escreveu Álvaro de Campos... «Se te queres matar, porque não te queres matar?
      Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
      Se ousasse matar-me, também me mataria...»

      Abraço e obrigado, uma vez mais, pelo comentário.

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  3. A solidão e o silêncio podem ser espaços de renascimento...

    encontrei-o há alguns meses e fixei-me nas suas palavras. Fala-nos com a alma e partilha connosco pedaços de uma vida que embora possa não ser feliz... é real e sentida...
    E quem sente assim e consegue partilhar e dizer as suas angustias, medos e alegrias... merece viver muito, nem que seja para poder dizer a vida, dar sentido às palavras e alimentar outras almas que no silêncio também vivem.

    O seu silêncio é maravilhoso... diz coisas lindas e sentidas... o seu silêncio não é o fim de nada... é o principio de uma vida nova.

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    1. Obrigado Fátima Campos. Quero acreditar que é isso mesmo, todas e cada uma das palavras que escreveste aqui no comentário. Porque é isso mesmo que vou tentando: «poder dizer a vida, dar sentido às palavras...» Muito Obrigado. Beijinhos.

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  4. Respostas
    1. Não sei se são melhores, se piores... Mas são os meus preferidos :-) Beijinhos.

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  5. Entendo o silêncio e a solidão como "bens" preciosos que, hoje em dia , temos que conquistar a pulso.

    http://1diaatrasdooutro.blogspot.pt/2012/03/silencio.html

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  6. André, escuta isto:

    http://www.youtube.com/watch?v=GUcXI2BIUOQ&feature=related

    Escuta, palavra por palavra; e sente e acredita, porque é mesmo assim.

    Abraço.

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    1. Obrigado, Carlos. Um forte abraço.

      (E escutei...)

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  7. Compreendo cada palavra, cada vírgula, ... Queria eu que tal não acontecesse!
    Sim, também eu já mergulhei nesse imenso e profundo silêncio. Mais, deixei de ver o que me rodeava porque tudo era escuro, de um cinzento muito inusitado, num tornado de nadas extremamente inseguros.
    Não passa... Sim, lamento mas esta é a verdade! A depressão mata-nos devagar. Consome-nos! Sim, porque à semelhança deste teu testemunho, começamos por de nós não gostar. Atualmente, por exemplo, confronto-me com os caminhos traçados na minha infância e adolescência, os quais não segui por medo ou obediência. O menino bonito, querido por grande parte dos professores, desapareceu. Subitamente, apercebi-me que não cresci de forma diretamente proporcional à minha idade. Ainda tenho tantos medos...
    O confessável, limitante em muitos aspetos: a tremenda fobia para com a condução vivendo eu numa região com parcos recursos públicos. Que dizer dos inconfessáveis?...

    O importante: estou aqui para te ajudar e dar a mãe sempre que necessário!

    Abraço.

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    1. Sim, não passa. E quando não passa só há uma maneira: aprendermos a viver com... Porque quando não há nada a fazer, só no resta aguentar. Abraço e obrigado pelas tuas palavras.

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    2. Sim, aprender a viver com sabendo que existem momentos de grande fragilidade. Mas és capaz de vencer!
      Temos a escrita, a música e... o chocolate.

      Grande abraço
      (não tens que agradecer pelas palavras)

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    3. Não querias dizer: «Temos a escrita, a música e... o whiskey»?!

      Forte Abraço.

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  8. Eu tenho muita pena de te conhecer tão pouco. Apenas te encontrei duas vezes, fisicamente, e pouco conversámos; mas o nosso convívio virtual tem sido bastante grande e sinto que temos muitas coisas em comum.
    Embora noutros campos, sejamos bastante diferentes, eu compreendo perfeitamente o teu estado de espírito, e espero que o racional vença sobre o desconforto psicológico, que o teu afastamento recente, muito possivelmente agravou.
    Gostava um dia de ter uma longa conversa contigo, para melhor entender a razão desse desconforto, que é comum a toda a gente, mas que cada um vê e trata de maneira diferente.
    Se por acaso, vires que tens necessidade, um dia, de desabafares por escrito sobre o que bem entenderes, ficas a saber que eu estou aqui para te escutar.
    Abraço grande.

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    1. Aproximamento recente, quererás tu dizer? ;-)

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  9. Não, era mesmo afastamento; refiro-me à tua ida para a Suiça.

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    1. (Eu percebi isso mesmo) Lá esta... aproximamento...

      Abraço.

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  10. Oi André, não nos conhecemos, sequer virtualmente. Ainda assim, acabei de te pedir um livro! Bem, tomara que não estejas deprimido pra valer, mas só um pouquinho revoltado com a falta de sentido da vida e querendo um pouquinho de carinho. Acho que obtiveste o segundo de várias falas aqui, então, é isso aí, aguenta, que aguentar é glorioso. Bons dias,
    Gláucia

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    1. Obrigado, Gláucia, pelas tua palavras. Quanto ao livro, vou ver se encontro algum quando chegar a Portugal. Agora estou na Suiça, e os exemplares que tinha, dei. Beijinhos.

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