segunda-feira, 28 de maio de 2012

Entrevista(s) a J. Rentes de Carvalho

José Rentes de Carvalho, J. Rentes de Carvalho

Tenho de lhe fazer uma pergunta que faço a mim e talvez seja a mais difícil. Por que razão só agora está a ser tão lido em Portugal?

A resposta é simples. O meu primeiro romance, «Montedor», foi aclamado de uma maneira «tonta» para aquele tempo. Saramago, que ainda não era uma pessoa com esta categoria, mas era um bom crítico e respeitado, escreveu na Seara Nova uma pequena recensão, talvez de cem palavras, e deu-me uma quantidade de elogios e lançou-me no «meio» de Lisboa. Estava na Holanda e não segui isso.

Depois houve umas tentativas de aproximação dos neo-realistas, mas tudo muito discreto. Eles disseram logo: «Este sujeito não é de cá, nem quer ser de cá…» Não é no sentido da nacionalidade, ou da sensibilidade, mas de não ser de cá, da «capelinha».

O livro foi editado pela antecessora da Caminho, pela Prelo, que era do Partido Comunista, toda a gente sabia, e três anos depois, em 1971, saiu o segundo romance [«O Rebate»]. E então caiu-me a malta em cima… Eu até pus no meu blogue [«Tempo Contado»] aqui há uns tempos. Entre outros, Nelson Matos, que naquela altura era crítico: «...este gajo nem sequer sabe conjugar os verbos… isto não é linguagem… devia ter cabeça». Eu tenho com muito orgulho aquilo no meu blogue.

E depois tive uma sorte do caneco. Tinha um amigo que, por acaso, era editor holandês, director de uma grande editora, e juntávamo-nos a conversar, de vez em quando, num café. Ele bebia muito, eu bebia menos, fumávamos ambos muito e demorávamos horas a conversar. Nesse belo dia eu estava maldisposto com a vida e com a Holanda e dei uma «catanada» nos holandeses. Ele ouviu, pois era um homem educado, cultivado e muito inteligente. No final (demorou mais de uma hora, devo ter perdido a cabeça…) disse: «Porque é que não escreves isso?» [acenou a cabeça negativamente] Eu estava tão arreliado com eles e com a vida… Fomos embora.

No dia seguinte, ou talvez dali a dois dias, recebo uma carta. A carta trazia um cheque muito generoso e tinha um cartãozinho a dizer: «E agora este é o pagamento dos direitos de autor». E foi assim que o livro [«Com os holandeses»] nasceu.

(...)

O Vós também desapareceu da oralidade e da escrita. Não sei se foi por escolha, mas vi que o livro não seguiu o acordo ortográfico.

Ai não! Por amor de Deus! Eu não sou do Acordo… É uma bandalheira, é uma coisa tosca. Tudo aquilo que na língua, na ortografia, era sinal e ajudava… Ai, não sigo, não…


Enquanto estava a ler o livro [O Rebate] dei comigo a pensar que era uma tragédia transmontana. Ninguém morre, mas também ninguém se safa. Há aridez e azedume em relação à sociedade. Porquê essa visão tão pessimista?

Não é nada pessimista. É carinhosa. Eu já vou explicar… De vez em quando digo e não é brincadeira: nasci em meados do século XIX. Vila Nova de Gaia, o lugar onde nasci, em 1946, ainda não tinha luz eléctrica. Nós íamos, nesse século XIX, em Agosto e Setembro, para Trás-os-Montes e eu caía de imediato no Império Romano. Já tenho dito várias vezes…

Os instrumentos da lavoura, que nós tínhamos até aos anos sessenta do século passado, em Trás-os-Montes, eram os mesmos que você encontra nas gravuras romanas, inclusive o arado de pau. Isso deixaram os romanos. O carro-de-bois, que em Trás-os-Montes ainda se vê e que as pessoas agora põem no quintal, é o mesmo que vemos nas gravuras romanas, inclusive o tamanho das rodas.

Ora bem… Eu vinha de Vila Nova de Gaia, em meados do século XIX, e chegava ao império romano. (...)

Entrevista completa no Diário Digital.

Outras entrevistas:
Entrevista a Carlos Vaz Marques [TSF];
Entrevista ao jornal i [a propósito de Com os Holandeses];
Entrevista ao jornal i «Desde miúdo que minto como o diabo. Ninguém deve acreditar em mim.»
Entrevista «Trás-os-Montes»:
 

2 comentários :

  1. O «meu» encomendei-o para a morada portuguesa. Esses chulos queriam levar-me uma fortuna pelos portes - eles devem pensar que eu nunca enviei livros de Portugal para a Suiça. Acontece que a Suiça é o país para onde eu mais enviei livros... com o dinheiro que me queriam levar pelos portes comprei outro livro e ainda me sobrou dinheiro... Abraço.

    P.S. Mais uma vez atrevo-me a recomendar-te todos os livros do Rentes de Carvalho... Muito bom mesmo...!

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...