quarta-feira, 16 de maio de 2012

Como é que se esquece alguém que se ama?

Book, Livro, Memória, Esquecimento

Num dos meus passeios pelos blogs li uma frase (era num blog em inglês, mas já não sei qual) que me ficou a latejar junto ao lugar onde se ama: tentar esquecer alguém que se ama é como tentar recordar alguém que nunca se conheceu. Tento não pensar muito nisto. Tento nem lembrar nem esquecer. Deixar a memória num limbo entre a lúcida recordação e o negro esquecimento. Entretanto lembrei-me deste texto do Miguel Esteves Cardoso. (Gostava de acreditar que é possível esquecer alguém que se ama. Gostava de acreditar que o verbo amar se pode conjugar noutro tempo que não o presente, mesmo quando é já passado, mesmo quando nunca será futuro...)

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in Último Volume.

9 comentários :

  1. Um abraço enorme!
    Estou certo que o amor te norteia.

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    1. :-) Antes fosse. É mais desnorte... Abraço

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  2. O Miguel, infelizmente, sabe do que fala.

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    1. João, este livro de crónicas, «O Último Volume» foi publicado em 1991... Ainda não era esse o caso... O Miguel sabe, sempre soube, falar do Amor (e da perda) como ninguém mais... Abraço.

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    2. correcção: «Último Volume». Já coloquei link para a wook.

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  3. Respostas
    1. Mas às vezes volta, em força, a dor. E nesses momentos dói mais. Pois não, não se esquece. Não é que eu não o saiba. Ás vezes precisamos de confirmação de outras pessoas, para sabermos que não estamos a ficar loucos.

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  4. Não se esquece. Fica sempre a cicatriz.
    O texto do MEC é fabuloso. Já não me lembrava.

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    1. É mesmo, e cicatrizes na alma, não dá para tirar nem com laser...

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