sexta-feira, 27 de abril de 2012

Adeus. Já gastámos as palavras. Poema de Eugénio de Andrade

Adeus Amor Gastámos as Palavras Bairro Alto 1969 Eduardo Gageiro
© Fotografia de Eduardo Gageiro


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Um poema porque me apetece. Este poema de Eugénio de Andrade. Porque às vezes o silêncio é tudo o que nos resta para dizer.


© Fotografia de Eduardo Gageiro 

3 comentários :

  1. Se tu soubesses o que este poema significa para mim?
    Sei-o quase de cor...

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    Respostas
    1. É um belíssimo poema. Imagino que signifique muito... Abraço forte.

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