sábado, 10 de março de 2012

«Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»


na véspera de partir*

crescemos onde nos deixam criar raízes. há nas ruínas de um cabanal da minha aldeia uma pequena amendoeira. ao longe, da janela do meu quarto, vejo as pontas emergir do meio dos telhados contínuos. antes de partir invadi propriedade abandonada para lhe tirar uma fotografia. o fotógrafo não é o melhor, a máquina também não ajuda: o resultado é a imagem que vêem ao alto. 

daqui a 32 horas levanto vôo - e se nenhum contratempo houver chegarei ao meu destino cerca de 3 horas depois. sexta-feira foi uma correria, ir aqui, ali, além, acolá, despedir-me deste amigo, daquele, do outro, telefonar, combinar, comprar o bilhete de avião, que foi uma coisa assim de repente.

ainda não fiz a mala. a roupa qualquer uma me serve, não a tenho melhor nem pior, é toda mediana e apresentável. levo um fato e adereços para o caso de vôos mais altos. 

o que me tem preocupado são os livros. mas ao fim de muitas ponderações ficou assim decidido:

- A Viagem do Elefante, de José Saramago, porque tem esta frase, do livro dos itinerários: «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»

- The Half Brother**, de Lars Saabye Christensen, porque me foi oferecido, e porque o título e a imagem da capa parecem rir-se sardonicamente para mim - coisas da vida, coisas da vida... ou da vidinha!

- Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, pelo mesmo motivo do anterior. talvez encontre uma luz que me guie, talvez...

- Com os Holandeses, de J. Rentes de Carvalho, porque tinha-o comprado recentemente*** e ainda não tive oportunidade de começar a ler. é verdade que não vou para o pé dos holandeses, mas quem sabe tenha alguma coisa a dizer-me ao pé daqueles para onde vou.

- Os Apanhadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher, porque não se deve deixar uma leitura a meio****. e é uma história simples, um livro de fácil leitura, num momento em que o cérebro não pára de cogitar,

- Ernestina, de J. Rentes de Carvalho, porque é um grande romance que li num momento em que não tinha cabeça para nada, como sói dizer-se, e como ando numa maré de releituras e pouco dinheiro, vou aproveitar para reler.

- Poesia, de Álvaro de Campos, porque se só pudesse levar um livro, que me perdoem os outros todos, provavelmente era este que levava. ainda assim fiz a concessão de levar a edição dos livros de bolso da europa-américa porque o meu querido exemplar da Assírio & Alvim é muito pesado, e 20kg são 20kg...

- este, a revelar em Abril.

a lista terminava aqui quando pensei em escrever este post. entretanto lembrei-me que tinha um vale de desconto dos pontos de um cartão de uma livraria - não vou fazer publicidade que não merecem, aquilo parece cada vez mais um supermercado, que tristeza, que tristeza, quem te viu e quem te vê... dizia que entretanto lembrei-me do vale e lá fui a correr para a livraria comprar um livro, coisa muito rara nos últimos tempos; foi, não quero mentir, penso que tenha sido a primeira compra do ano:

- contos completos, de Gabriel García Márquez, porque o comprei por metade do preço com o vale de desconto, a escolha foi fácil, a oferta era muito parca, e estava na minha lista de desejos.

na véspera de partir despeço-me com este post. pode ser que ainda aqui venha antes, mas não prevejo que isso aconteça. além das bagagens - a bagagem do viajante, a bagagem do viajante... lembrei-me deste agora, que vai ter que ficar em terra, são crónicas do Saramago - levo comigo a língua portuguesa, assim, corrompida apenas pelos meus erros, imune a acordos (acordem!), família e amigos na víscera. despeço-me com beijos e abraços. fiquem bem, e nunca, nunca se calem.

*era para ter sido este o título do post. depois cogitei que não podia ser, que tinha que ser o outro, com a frase do José Saramago. A Viagem do Elefante está longe, muito longe, de ser um dos meus livros preferidos. esse critério só foi utilizado de forma exclusiva no caso do livro de Álvaro de Campos. esta frase tem-me acompanhado desde o dia em que comprei o livro e a li primeiramente na contracapa.

**título em inglês porque o livro está escrito em inglês. o autor é norueguês, no caso de quererem saber.

***«recentemente» é uma forma de dizer «no final do ano passado», mas que querem? às vezes mentimos a nós mesmos - é uma forma de relativizar as tragédias pessoais.

****deve abandonar-se imediatamente ou arcar com as consequências. um livro que é bom até meio merece o esforço de ser lido até ao fim, por pior que seja o segundo meio.

6 comentários :

  1. «A Viagem do Elefante» é um dos meus livros de eleição, pela frase de que tanto gostas e porque é uma alegoria sobre a condição humana; no fundo, sobre a transitoriedade de tudo o que damos por adquirido, incluindo a nossa existência.

    Voa, rapaz, voa -- literal e metaforicamente!

    Abraço.

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  2. Boa sorte! Aproveita bem essa aventura. Por enquanto aguardo que a minha vez também chegue.

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  3. Bons voos, André. Mas, por aqui, precisamos de todos os bons. Logo, bom regresso. Abraço

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  4. As maiores felicidades! Continua a fazer por ti o melhor que puderes!
    Abraço!
    Saudades!

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